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BiografiasBenditas na História – Dhuoda

Benditas na História – Dhuoda

Dhuoda (824-844): Um manual medieval de instrução espiritual

O Manual de Duoda inicia-se em nome da Santíssima Trindade: “A maioria das mães deste mundo é dado desfrutar da proximidade de suas criaturas, enquanto eu, Dhuoda, me vejo tão longe de você, meu filho Guilherme , e por isso cheia de ansiedade e desejo de ser útil para você, envio-lhe este pequeno trabalho escrito com meu nome, para que você o leia e se eduque; ficarei feliz se, mesmo estando fisicamente ausente, precisamente este pequeno livro faça você pensar quando o lê, no que, pelo amor de mim, você deve fazer”.[1]

O temor do Senhor é o princípio do saber, mas os insensatos desprezam a sabedoria e o ensino. Meu filho, ouça o ensino de seu pai e não despreze a instrução de sua mãe. Provérbios 1.7-8.

Dhuoda, uma aristocrata do final da Idade Média é praticamente desconhecida. Não é mencionada por nenhum historiador ou cronista. Ela só foi descoberta quando sua obra “Liber Manualis”, um manual para educação de seu filho, foi parcialmente publicada por Mabillon[2] e, em 1887, foi encontrado um manuscrito da Biblioteca de Nimes, portanto apenas no século XIX. Somente no século XV, a Biblioteca de Barcelona forneceu o texto integral da obra.[3]

Não era uma carta, mas um livro educativo, legado por essa carolíngia do século IX. Nobre estudiosa, esposa, mãe, educada, terna e afetuosa, que se refere ao filho ausente como “meu filho primogênito, tão desejado”, “exorto-te, caríssimo filho Guilherme,” confessando sua intenção e necessidade de escrever tanto para suprir as conversas com o filho adolescente, de quem se separou, como para educá-lo no caminho da salvação pela moral cristã, que lhe permita enfrentar adequadamente os conflitos e dificuldades que possa encontrar ao longo de sua vida. Como qualquer outra mãe lhe diz carinhosamente: “minha é a fala, mas as suas serão as obras”.

Ela nunca teve a intenção de deixar seu filho mais novo fora de suas preocupações maternas ou de seu trabalho, um bebê quando foi tirado dela, indicando expressamente a Guilherme a necessidade de amar, educar e ensinar valores ao irmãozinho: “Quando seu irmãozinho, cujo nome nem sei agora, for batizado, não pare de ensiná-lo, amá-lo e incentivá-lo a agir com retidão, e mostre-lhe este pequeno manual que escrevo para você”.

Apesar da história não ter mencionada Dhuoda seu manual de educação para o filho já foi publicado em diversos países e foi considerado o primeiro tratado pedagógico da Idade Média.

Nele, ela mesmo contou que se casou com o duque Bernardo, em 824, na presença do imperador Luís I, filho de Carlos Magno, seu parente. Seu primogênito foi chamado de Guilherme, em memória do avô, primo do imperador. Ela teve um segundo filho, Bernardo, que foi enviado ainda bebê para ser educado pelo bispo Eléphantus.

Dhuoda se ocupou da escrita de seu manual, ou “espelho”,[4] de novembro de 841 até fevereiro de 843 e pediu ao filho Guilherme que lesse o manual para o irmãozinho quando aquele já entendesse.

No tempo de Dhuoda, e já em épocas anteriores, os clérigos escreviam livros de aconselhamento político para os príncipes e para jovens nobres. Essas obras pertenciam ao gênero literário dos ‘espelhos’. Na época carolíngia os termos manual e espelho eram empregados como sinônimos. Aliás, como observa Riché, esse gênero literário remonta à antiguidade egípcia e hebraica, passou às civilizações bizantina e árabe.  Os ‘espelhos’ apresentavam-se como guias de orientação política, de educação física, moral e literária para jovens aristocratas.[5]

A própria mãe escrita refere-se, no prefácio, ao significado daquele manual: “[…] Nele você encontrará tudo o que deseja aprender; um espelho no qual poderá contemplar sem dúvida a saúde de sua alma […].[6] Afirma, contudo, que a obra escrita por ela tem um formato educacional elaborado em razão de seu cunho pedagógico e da relação que faz dos textos bíblicos com as obras culturais clássicas, ou seja, da religião com a cultura/costumes da época. Dhuoda era sem dúvida uma das mulheres mais célebres de seu tempo e seu Manual possuía muitas citações bíblicas e de conhecimento geral sobre a cultura daquele tempo.

Formalmente, o Manual está dividido em 81 capítulos, separados por sua vez em 11 partes, que são precedidas por abreviaturas, introdução, bibliografia, epigrama, prólogo, prefácio e finalizadas com os índices (bíblicos, de autores e obras antigas, de autores modernos e o índice geral). Quanto ao conteúdo, podemos dividi-lo em três partes principais: a primeira expressa as relações do cristão para com Deus; a segunda diz respeito aos relacionamentos com o próximo e a terceira mostra o caminho da perfeição pessoal mediante a perfeita ordenação dos dias.

A autora aborda o amor de Deus, o mistério da Trindade, as virtudes teológicas, os conselhos práticos sobre a oração e os deveres morais e sociais.

Seu manual além do ensino que legou, traz a possibilidade de refletir sobre a importância feminina no processo educativo da Idade Média. E, muito mais, pois representa um papel educacional de uma mãe na distante idade medieval.

A autora viveu e escreveu no contexto das mudanças políticas e sociais do século IX, das quais se destacam: o início das bases da sociedade feudal, a desintegração do Império Carolíngio e o papel da Igreja como reguladora dessa sociedade. Participando desse contexto, Dhuoda demonstrou compreender as questões, preceitos e princípios essenciais à vida em sociedade porque, em primeiro lugar, ela entendia e cria nas Escrituras Sagradas.

CONCLUSÃO

No final da vida de Dhuoda, o contexto da época era de um longo período de guerra entre a nobreza franca. O imperador Luís, o Piedoso, filho de Carlos Magno, morrera em 840. Seus três filhos (Lotário, Luís, o Germânico e Carlos, o Calvo) lutaram pela divisão do império. A Europa foi dividida pelo Tratado de Verdun: Luís governando os francos orientais, Carlos se estabelecendo no Oeste, e Lotário recebendo um território que cortava de norte a sul, dos Países Baixos até a Itália.

Dhuoda escreveu que a inimizade da casa carolíngia havia começado mais de dez anos antes, quando os filhos do imperador começaram a se rebelar contra a autoridade de seu pai. A luta pelo poder envolveu a nobreza com os herdeiros, incluindo seu marido, que detinha uma grande quantidade de poder como governante da Septimania. Por causa desse poder, o filho de Bernardo, Guilherme foi mantido refém na corte de Carlos, o Calvo, enquanto seu outro filho Bernardo vivia com seu pai na Aquitânia. Quando a política atingiu sua família. Seu marido, Bernardo, foi condenado por rebelião e executado em 844. Seus filhos também foram mortos: Guilherme em 850 e Bernardo em 885.

O manual de Dhuoda é bem completo; em primeiro lugar escreveu sobre a Trindade e ofereceu conselhos práticos para a oração. Ela dedicou três capítulos aos deveres morais; discorreu sobre as boas relações com os grandes, escreveu sobre vícios e virtudes, as tribulações, os dons do Espírito Santo e as beatitudes que permitem mirar a perfeição.

Dhuoda escolheu alguns trechos dos Salmos para o filho meditar, citando outras passagens bíblicas que conhecia de cor (mais de 650). Ela considerava a oração absolutamente necessária e aconselhou seu filho a estar atento às coisas espirituais, orando com concentração e pureza. Pediu também que cuidasse do pai em sua velhice e nunca o entristecesse durante a vida dele.

Dhuoda terminou seu livro com versos: uma lembrança histórica da vida do filho, uma lista dos mortos da família e seu próprio epitáfio. Um ano depois dessa escrita, ela faleceu.

O esposo e o filho primogênito da aristocrata morreram em batalhas com o objetivo de fundar um principado no sul da França. Bernardo seguiu uma carreira política, e seu filho Guilherme, o piedoso, fundou com o abade Bernon a abadia de Cluny, o que foi um triunfo póstumo para a avó que desejava que sua descendência fosse de cristãos tementes.

O manual de Dhuoda é um documento singular, pois é o único livro de educação escrito de uma mãe para seu filho naquela época em que os livros eram manuscritos e ilustrados.

Uma mulher tão distante de nós no tempo e nas circunstâncias de vida, mas com o mesmo desejo que os filhos temessem a Deus. Que bom que ela escreveu seu livro, pois um ano depois faleceu, com apenas 20 anos de idade, e não pode educá-los como gostaria.

Os insensatos desprezam a sabedoria porque acreditam que não a necessitam e que, sendo tão capazes, podem ser seus próprios guias. A mãe cristã entende, contudo, que só o temor a Deus fará bem aos seus filhos. Ela lhes ensina a quebrarem a tendência de se autogovernarem, sendo submissos à autoridade de seus pais e governantes.

Duodha e seu manual de educação

Profa. Ms. Rute Salviano Almeida

Pesquisadora da História das Mulheres no Cristianismo

[1] OLIVEIRA, Terezinha; VIANA, Ana Paula dos Santos. Um estudo da mulher no processo educativo medieval do século IX: reflexões sobre o Manual de Dhuoda. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis, v. 52, 2018, p. 55140. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/revistacfh/article/view/2178-4582.2018.e55140/40085>. Acesso em 7 mar 2022.

[2] Jean Mabillon 1632-1707, chamado também Dom Mabillon, foi um monge beneditino, erudito e historiador francês considerado o fundador da paleografia e da diplomática, disciplinas auxiliares da história.

[3] LE GOFF, Jacques. (Dir.). Homens e mulheres da Idade Média. Trad. Nícia Adan Bonatti. 2. Ed. São Paulo: Estação Liberdade.

[4] Gênero literário que, no período medieval, era composto por reflexões de orientação moral e política. Estas reflexões estavam, em sua maioria, direcionadas ao modelo cristão de virtudes.  A finalidade desse formato literário era o de apresentar uma proposta de formação e educação moral, política e religiosa para formar os jovens desse  período. Na época carolíngia os termos manual e espelho eram empregados como sinônimos.

[5] CRUZ, Marcus Silva. Religiosidade tardo antiga e cristianização do Império Romano. Fronteiras. Revista de História, v.12, n.21, 2010. Disponível em: <https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/594. Acesso: 15 set. 2014> , p. 29.

[6] DHUODA, 1995, p. 55, apud OLIVEIRA, Terezinha; VIANA, Ana Paula dos Santos. Um estudo da mulher no processo educativo medieval do século IX: reflexões sobre o Manual de Dhuoda. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis, v. 52. 2018. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/revistacfh/article/view/2178-4582.2018.e55140/40085>. Acesso em 7 mar. 2022.

Ilustração: Ana Rita Robalo

Ana Rita Robalo é nascida no Luxemburgo em 1993. Criança e adolescente na Bélgica, jovem adulta em Portugal, casada há 5 anos e recente mãe de uma portuguezinha. Decidiu criar raízes em Portugal ao ter vindo estudar Artes em Lisboa. Fez o percurso académico de pintura, design, ilustração, finalizando com o mestrado de desenho. Trabalha como artista freelance, concretizando pedidos personalizados, aguarelas de retratos, paisagens, postais, ilustrações para livros e revistas, convites de casamentos, logos, entre outros. É uma apaixonada por ilustração, padrões e pintura a aguarela. A Natureza é a fonte da sua inspiração, obra do perfeito Criador e Artista.

Escrito por -

Rute Salviano Almeida é pesquisadora e escritora da História das Mulheres no Cristianismo. Obras publicadas: Uma voz feminina na Reforma, Uma voz feminina calada pela Inquisição, Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro, Vozes femininas no início do Cristianismo, Vozes femininas nos avivamentos, Heroínas da Fé (devocionais) e Reformadoras. Licenciada em Estudos Sociais, bacharel e mestre em Teologia, pós graduada em História do cristianismo e membro titular da cadeira 31 da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Prêmio Areté 2015 com o livro Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro.

1 Comentário

  • Aline Ferreira

    É muito bom saber que houve mulheres assim na História. Em seu modo “silencioso” de agir, mesmo estando longe de seus filhos, tenho certeza que ela semeou a Palavra de Deus neles e que de alguma maneira semeou também no início da Europa. Obrigada pela pesquisa e pela ilustração.

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