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FamíliaMais devagar, por favor! – Uma história de Sustentabilidade, Sabonetes e Foguetões…

Mais devagar, por favor! – Uma história de Sustentabilidade, Sabonetes e Foguetões…

Quando eu era criança, o meu pai frequentemente me pedia “ajuda” para ir com ele passar o carro por água na ribeira. Calçava as minhas galochas vermelhas e lá íamos nós. O programa incluía encher garrafões de água na “Fonte Esteves”, testar se o carro passava pelos seixos sem ficar atascado, ouvir as rãs, procurar tesouros escondidos (que curiosamente só uma menina exactamente com as minhas características conseguiria encontrar) e tudo o que possamos imaginar num cenário destes.
Eventualmente, o carro saía de lá sem a camada inicial de pó, mas desconfio que a agenda do meu pai era outra. Ele queria realmente estar comigo, estar presente, por inteiro, sem mais nenhum outro compromisso, objectivo ou tarefa a não ser esse. Simples, assim.
Da mesma forma, creio eu, Deus anseia por fazer o mesmo connosco; Ele quer que lhe façamos companhia e que estejamos presentes, com todo o nosso entendimento, com todas as nossas forças e emoções. Afinal, criou-nos para O glorificarmos e desfrutarmos Dele, não é assim?
Acontece, que no meio de tantas actividades e solicitações, preocupamo-nos muito em sermos bons servos, mas esquecemo-nos frequentemente de sermos bons filhos, de passar tempo com Ele, de nos aquietarmos, para O conseguirmos escutar e podermos desfrutar da Sua Presença, sem pressas…
Desde que sou mãe, que me tenho apercebido que existe uma pressa e um stress generalizados (eu incluída) no que diz respeito, por exemplo, ao que fazer com as crianças quando não estão na Escola: Instala-se o pânico e a internet enche-se de sugestões de actividades para preencher bem os dias de férias e fins de semana das nossas famílias. Parques temáticos, oficinas, concertos e os mais variados programas pensados e estruturados para entreter as crianças e acrescentar “valor” à família. Nada contra, mas parece que o simples sentar a brincar no chão, andar de baloiço ou até mesmo ficar aborrecido sem nada para fazer, já não são suficientes ou dignos de
reconhecimento.
Ironicamente, as redes sociais têm dado um novo significado ao velho termo “partilhar a vida”, em que participar em eventos e registar ou partilhar, tornou-se em si mesmo uma forma de consumo. Programas estes, na maioria das vezes fugazes, sem tempo e espaço para uma conversa ou análise. Idealizados para serem consumidos e ficarmos a ansiar por uma próxima oportunidade que permita demonstrar cabalmente a nossa felicidade e sucesso.
Ir mais devagar é inevitável numa caminhada que se quer frutífera. Só interiorizando as experiências e respeitando os ritmos de cada um, é que poderemos crescer, quer seja academicamente, no trabalho ou tempos livres. Este é um caminho que não é fácil, pois implica escolhas, por vezes ousadas. Andar devagar, significa que não vamos ter as mesmas metas de um antes ou de quem nos rodeia; poderemos ter menos actividades extracurriculares, mas mais actividades “intrafamiliares”; menos experiências de entretenimento, mas mais vivências domésticas nas oportunidades do dia a dia; menos reconhecimento por parte dos outros, mas mais tempo para nutrir e cuidar; Acredito que os filhos nos são dados por Deus para nos ajudarem a abrandar, apesar do stress e ansiedade que nos possam infligir. O meu filho mais velho, tem-me obrigado, sem dúvida, a andar muitas vezes em câmara lenta: obriga-me a reparar na flor nova que apareceu no caminho da escola e que há uns dias não estava lá; obriga-me a olhar para o céu em busca do mais ténue arco-íris que ele tão habilmente consegue distinguir; obriga-me a espreitar todas as noites a lua; e “obriga-me” a ficar comovida de gratidão de cada vez que consegue fazer algo que andamos a trabalhar com ele, como provar uma fruta nova ou escrever alguma palavra. Estão a ver…?
Só quando abrandamos, conseguimos reparar, realmente ver, sermos gratos e assim glorificarmos mais a Deus e desfrutarmos do Criador.
Nem sempre é assim tão “bonitinho” ou claro para mim; há sempre as birras (muitas e longas), aquelas fases de desenvolvimento (sempre novas e intermináveis), as nossas inseguranças (velhas e sempre as mesmas), o cansaço físico e emocional (que veio para ficar), as circunstâncias, as dificuldades particulares, e por vezes todos estes factores em simultâneo. No entanto, (e reparem que no Cristianismo há sempre um mas, um apesar de), podemos ainda assim, diariamente nas mais rotineiras tarefas, exercer gratidão, glorificando o Autor e Criador de todas as coisas. Sempre em ritmo mais lento, não esqueçam… O que me leva agora aos sabonetes e biscoitos:
Cá por casa gostamos de oferecer, ao longo do ano, presentes feitos por nós, às pessoas que fazem parte do nosso dia a dia e a quem queremos acarinhar ou demonstrar algum reconhecimento. Um queque, uns biscoitos, um sabonete meio tosco… tudo feito por nós em família, ingrediente a ingrediente, passo a passo, vivenciando juntos todo o processo.
É uma experiência genuína que nos faz sentido também por fluir das nossas opções de vida. Neste sentido tentamos fazer escolhas sustentáveis, evitando os descartáveis, o plástico, os produtos embalados, fazendo uma alimentação o mais possível livre de produtos industrializados, aditivos e outros agentes inflamatórios. No meio destas escolhas éticas que fazemos diariamente no supermercado, ao optarmos pelas opções mais vagarosas como descascar em vez de desembalar produtos, estamos também a contribuir para melhorar a nossa saúde e as condições de trabalho e sociais de outras pessoas. Estamos a demonstrar respeito, a exercer justiça, a dar dignidade ao trabalho dos outros e a honrar o Dono de toda a Criação. Tudo isto num só pacote.
(De um modo geral, se nos preocuparmos com a origem daquilo que consumimos ou adquirimos, chegamos à conclusão de que temos uma série de “escravos pessoais” a trabalhar para nós e outros tantos pelo mundo fora a 2 sofrerem as consequências do nosso consumo irreflectido, que vai desde o uso desnecessário de descartáveis e outros plásticos, até às roupas e alimentação. )
Então, o que poderemos fazer, é uma vez mais, redefinir as nossas metas, ainda que o resultado seja aparentemente menos eficiente. Precisamos lembrar que “Do Senhor é a Terra” (e não nossa), e que somos tão somente chamados a sermos bons administradores dos recursos à nossa volta.
E agora, os foguetões…
Podemos conectar-nos com a natureza, com o Criador e os outros, de formas bem práticas, simples e bem va-ga-ro-sas:

  • fazendo caminhadas pela Natureza, contemplando e escutando;
  • reduzindo o consumo, nomeadamente de plástico, reutilizando o mais possivel;
  • optar por roupa em 2ª mão;
  • plantar uma árvore ou semear um canteiro no parapeito da janela e observar o seu crescimento;
  • colher o que plantamos para cozinhar na hora, juntos;
  • instituir dias sem écrans (sabemos que este é um grande desafio, mas com fé..)
  • jogos em família;
  • projectos com aproveitamento de material de desperdício para construir alguma coisa (os meus 3 rapazes andam a construir juntos aos fins de semana 2 foguetões com garrafas)
  • escrever uma história juntos e ilustrá-la e, quem sabe, submetê-la a concurso;
  • destralhar e evitar comprar por impulso;
  • em vez de coisas, oferecer “cheques-prenda” de tempo e atenção;
    E assim, em vez do iPad ou outro qualquer écran (tela), vamos ser capazes de construir passo a passo e devagarinho, memórias, que teimarão em persistir e nos trazer de volta a casa.
Escrito por -

A Susana Calado é mãe do Gabriel (12 anos), Leonardo Levi (9 anos) e da Benoni Liz (7 anos). É casada com o Miguel e juntos servem na Igreja Congregacional de Paio Pires. Nos últimos anos tem desenvolvido um trabalho voluntário de apadrinhamento de crianças na Guiné-Bissau, país de origem da sua filha mais nova; Estudou Agronomia e interessa-se por temas relacionados com sustentabilidade, nutrição e autismo.

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