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FamíliaLições que aprendi com o parto domiciliar

Lições que aprendi com o parto domiciliar

Há 60 anos atrás, este texto provavelmente seria irrelevante. Parir em casa sempre foi a experiência das mulheres de todas as nações, culturas e épocas, até o início do século 20. O desenvolvimento da medicina moderna trouxe consigo diversas mudanças, entre elas a institucionalização do nascimento. A cultura moderna desconhece a experiência do nascer e parir fora do ambiente hospitalar, salvo algumas exceções. Do Brasil à Noruega, as mulheres precisam fazer um movimento contrário e muitas vezes desafiador para conseguir trazer seus bebês ao mundo fora daquilo que, hoje, reconhecemos como padrão.

Além do endereço, mudou também a ideia de que o nascimento é algo natural, um processo fisiológico que envolve basicamente a mulher que dá a luz e a criança que nasce. Ele passou a ser algo feito por uma terceira pessoa, o médico, às duas outras, agora passivas. A mentalidade generalizada, especialmente nos países da América Latina, é a de que o parto evoluiu para a cirurgia em que o bebê é removido da barriga com dia e hora marcados. A ideia é de que a cesária não é apenas mais segura e controlada do que um parto natural, mas também bastante conveniente, especialmente para alguns profissionais da saúde que se beneficiam da confiança quase irrestrita das famílias em seus prognósticos e principalmente da falta de informação de qualidade sobre a dinâmica de um parto em condições ordinárias.

Por que, então, alguém optaria não apenas por esperar a hora do nascimento fisiologicamente, mas também por fazê-lo em casa, deixando a presença de médicos e o ambiente hospitalar apenas para o caso de uma emergência? Algumas pessoas podem achar que por loucura, irresponsabilidade ou ignorância, mas, para minha família, foi resultado de muita informação, estudo, oração e excelente assistência obstétrica e pediátrica.

1. Informação

Uma das principais diferenças entre você e a sua mãe e avós é a quantidade de informações à qual você tem acesso. Converse com elas e perceba quantas dúvidas e ignorância cercavam os corpos e o processo de nascimento das mulheres quando trouxeram seus filhos ao mundo. Salvo algumas exceções, a maioria possuía pouca informação e podia até mesmo ser desencorajada a buscá-la. Hoje, vivemos o oposto. Temos muita informação disponível, em diversos formatos. Qual o crivo para discernir entre tantos dados? Comprovação científica atual, respeito pela fisiologia da mulher e da criança, ou seja, submissão aos processos naturais do corpo e como ele foi criado para funcionar e não à imposição da agenda médica e farmacêutica. Isso significa não transformar em patologia (doença ou anormal) coisas que são fisiologia (naturais ou metabólicas, normais). Meu acesso às informações a respeito do parto começou especialmente em meu último ano da universidade. Como parte do meu trabalho de conclusão do curso de jornalismo, escrevi (junto com outras quatro mulheres) um livro-reportagem sobre a violência obstétrica no Brasil. Começou ali uma caminhada que prossegue anos depois de busca por informações de qualidade sobre o que é nascer e dar à luz com respeito, boa assistência e entendimento das minhas capacidades, limitações e potencial.

2. Estudo

A informação em si não é suficiente. Podemos ler sobre o assunto do parto e saber como acontece, mas a verdade é que informações isoladas não são o melhor caminho. É necessário que nos conheçamos como mulheres holisticamente, ou seja, por inteiro. O corpo feminino é “feito à imagem de Deus” e é “muito bom” (Gn 1:27, 31). Deus criou e desenhou o funcionamento completo do organismo humano e como ele se reproduziria, caso contrário não seria possível dar à humanidade a ordem de frutificar e multiplicar. Ele capacitou homem e mulher para isso. Nós não precisamos consertar o que Deus fez. Precisamos respeitar e conhecer, estudar. Isso significa abranger nosso organismo, nossos sentimentos e pensamentos. As mulheres que passaram por experiências de parto difíceis infelizmente descobrem isso da maneira mais dolorosa possível. O parto traz para nós uma experiência completamente envolvente, em que todas as áreas do nosso ser estão engajadas, não apenas nossos úteros. É necessária uma busca por esse entendimento integral da nossa saúde e, para isso, não basta informação, é necessário estudo. Não quero dizer estudo acadêmico, mas de uma aplicação intencional ao conhecimento de si mesma ao invés do consumo acelerado e impensado de informações e daquilo que está na moda nas redes sociais. Isso inclui saber reconhecer suas capacidades e potenciais, investigar seus medos, respeitar limitações e buscar por pessoas (profissionais e familiares) que possuam a mesma mentalidade.

3. Oração

Há uma frase popular que diz: “o item mais importante do seu enxoval de bebê é a informação”. Apesar da boa intenção, essa frase não é verdadeira. O item mais importante do seu enxoval é a oração. Digo de todo coração que uma das experiências concretas mais espirituais que já vivi foi o nascimento dos meus dois filhos. É muito difícil colocar em palavras tudo o que se passa na mente, no corpo e no coração de uma mulher em trabalho de parto. São realmente como gemidos inexprimíveis, ora em meio às lágrimas, ora em meio ao riso. Com uma bebê de pouco mais de dois meses em meus braços, ainda é bastante vívida em minha memória a lembrança de louvar a Deus e orar enquanto “grito, gemo e respiro ofegante” (Is 42:14). A oração é a verdadeira doula da parturiente, seja onde for que ela dê à luz, e como. Especialmente em momentos em que as ondas de contrações parecem intermináveis, as dores insuportáveis e a chegada do bebê amado tão longe, precisamos recorrer à oração. Em meu primeiro parto, vivi uma experiência muito forte de entrega completa ao processo do nascimento e seus hormônios. Não senti dores e não me lembro de muitas coisas, apesar de estar completamente bem e sem usar qualquer droga anestésica. A oração neste parto aconteceu conscientemente apenas uma vez, quando fui avisada pela parteira (enfermeira obstetra) que a dilatação estava completa. Passei todo o resto do tempo de olhos fechados, mas sem conseguir articular as palavras. Meu esposo fez isso por mim. Já em meu parto mais recente, com um filho de 17 meses no andar de baixo e uma dinâmica bem mais agitada na casa, não fui para a “partolândia” como da primeira vez e senti muito mais as dores das contrações e a passagem do tempo. Pouco antes de entrar na fase expulsiva do nascimento, também precisei de palavras emprestadas para conseguir orar. Me refugiei no salmo 37 musicado pelo Roberto Diamanso em “Aquele que te guarda”. “Aquela paz que excede todo entendimento” guardou meu coração mais do que posso escrever aqui.

4. Excelente assistência 

O parto é paradoxo. Trazemos vida em meio a dores que parecem morte. Somos levadas ao limiar do nosso potencial biológico e nos vemos, ainda assim, tão frágeis. Essa fragilidade misturada à força é algo que a medicina não consegue dominar, por mais que tente. Mas não somos perfeitas. Precisamos do cuidado e amparo de pessoas que já caminharam nessa estrada antes de nós, seja no corpo ou na prática médica. O pecado compromete toda a experiência humana, inclusive a do nascimento. A boa assistência médica ajuda a remediar os imprevistos de um parto acometido por patologias reais e impeditivas, como hemorragias maternas, prolapsos e sofrimentos fetais. A escolha por bons médicos é um privilégio. A maioria das mulheres precisa acatar o que está disponível em sua região, pelo sistema público ou pelo convênio particular. Dentro de nossas possibilidades, devemos fazê-lo diligentemente e não absorver toda palavra médica como veredito final. A última palavra sobre nós e nossos filhos vem dos lábios do Senhor. Ele nos capacita a fazer boas escolhas guiados pela informação, pelo estudo, pela oração e amparo médico.

Dar à luz em casa é uma experiência muito íntima. O parto acontece completamente no ritmo da mulher e do bebê e não é ditado pelos protocolos obrigatórios de um hospital. Em casa, a mulher consegue colocar em prática conhecimentos adquiridos, mas também (e talvez principalmente) observar o seu corpo e o de seu filho fazerem o que foram criados para fazer sem a interrupção de uma terceira pessoa. O médico é treinado para sanar doenças. O parto não é doença. Não é algo a ser resolvido. É um processo a ser assistido, protegido, amparado. Por isso, em casa, sua presença não é necessária. Para mulheres que assim escolheram, essa ausência é um presente. Significa que não há nada para curar, está tudo correndo como deveria. Estar em casa, então, fez e continua a fazer todo sentido para nossa família. Em nosso lar, rimos, choramos, brigamos, somos reconciliados, somos amparados, envelhecemos, nos alimentamos, lemos a Bíblia e oramos, cantamos e nos divertimos, reunimos familiares e amigos, e, também, recebemos nossos filhos ao mundo. O lugar onde nossa vida mais acontece é também onde ela começou para Thomas, em julho de 2020, e para Maria, em dezembro de 2021.

Não posso concluir, porém, sem alguns esclarecimentos muito importantes. Em primeiro lugar, devo dizer que meu objetivo com este texto é trazer um ponto de referência para que outras famílias possam considerar essa uma opção não apenas possível, mas também confiável, e que mais mulheres tenham uma visão positiva do corpo criado por Deus e a elas confiado. Isso não quer dizer que o parto domiciliar é uma escolha para toda mulher bem amparada e informada. O que funciona para uma família não é, necessariamente, a melhor escolha para outras.

Não apenas isso, mas a opção por este ou qualquer outro parto não deve ser usada como uma espécie de distintivo de honra. Nós não ganhamos pontos espirituais ou morais porque nossos filhos nasceram desta ou daquela forma. Ao dar à luz, não importa onde estivermos, o mais importante é onde está nosso coração. Não há salvação por obras ou redenção feminina pelo parto.

Também é preciso esclarecer que o parto domiciliar não é uma aventura hippie. Ele é, antes de tudo, um acontecimento planejado. Dar à luz em casa sem a devida assistência e preparo é irresponsabilidade. Desprezar os limites da fisiologia também. Ao buscar por essa rota, a mulher deverá ser amparada por profissionais da saúde totalmente preparados para assisti-la e ao bebê e, em caso de emergência, estarem próximas de um hospital de referência.

No Brasil, para o parto domiciliar planejado acontecer, algumas regras são estabelecidas: gestante de risco habitual (ou seja, sem nenhuma patologia durante o pré-natal, como diabetes, obesidade, pressão alta ou cicatrizes uterinas prévias), bebê com todos os parâmetros dentro da normalidade, estar próximo de um hospital com assistência neonatal (menos de 20 minutos de distância) e uma equipe capacitada (normalmente composta por pelo menos duas enfermeiras-obstetras ou obstetrizes e uma doula – importante notar que doulas não são capacitadas para quaisquer procedimentos médicos, seu papel no parto é de assistência emocional). Partos domiciliares não são recomendados para gravidez de múltiplos e nem de bebês que estejam sentados.

Gerar filhos biologicamente no século 21 é um grande privilégio. Nós temos a possibilidade de respeitar nossa fisiologia e ainda assim contar com os avanços da tecnologia e da medicina materno-fetal. Monitoramento cardíaco, exames pré-natais, antibióticos, medidas protetivas contra hemorragia (a principal causa de morte materna até hoje) e outros cuidados com os bebês transformaram os índices de mortalidade na maioria dos países. Hoje, podemos “voltar às origens com os benefícios da modernidade”, como diz minha amiga Ana Rute.

Mas esses “avanços”, por assim dizer, não devem mascarar a realidade de que o nascimento é manchado pelo pecado, assim como em todas as áreas da vida humana. Nem toda informação, estudo, oração e assistência do mundo podem mudar esta realidade espiritual. Somos completamente dependentes da graça e da providência divinas para nascer e parir. Que o Senhor nos capacite em nossa missão como mães, desde a concepção de nossos filhos até o último fôlego de vida que respiramos ao seu lado, para que sejamos preservadas com sobriedade na fé, amor e santificação (1Tm 2:15).

Escrito por -

Cecilia tem 29 anos, é casada com o Guilherme há sete e mãe do Thomas e da Maria. É idealizadora do Benditas e tradutora. Membro da Igreja Batista Reformada de São Bernardo do Campo, Brasil.

1 Comentário

  • Que presente ler este texto à espera do meu primeiro filho. Só Deus sabe o quanto estava precisando ler estas palavras! Deus seja louvado!

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