cremosescreva • contribua

Blog

BiografiasBenditas na História – Rainha Clotilde da Borgonha

Benditas na História – Rainha Clotilde da Borgonha

As dores e alegrias da rainha Clotilde da Borgonha (474-545)

“Enquanto não adorares o verdadeiro Deus – dizia-lhe ela – temerei que voltes das batalhas vencido e humilhado. Até agora não enfrentaste inimigos dignos de teu valor. Se, por desgraça, fores cercado e acossado por um exército mais numeroso, em vão pedirás a ajuda de teus falsos deuses”.

Porque o marido não crente é santificado no convívio da esposa…(1Co 7.14).

O significado deste texto bíblico foi real naqueles tempos de início do medievalismo, assim como o é hoje. A rainha Clotilde levou o marido pagão a Jesus Cristo e à uma civilização menos bárbara. Ela foi uma mulher forte e, ao mesmo tempo, doce, piedosa e caridosa.

O assunto sobre o papel feminino na Antiguidade pagã e cristã contém apenas indícios. Não existem escritos, e, praticamente, nenhum texto de autoridade inquestionável que forneça explicações sobre as mulheres. Parece ocorrer uma teoria do silêncio. No Ocidente, a mulher era um pouco mais companheira do homem, mas no Oriente era sua servidora ou até mesmo seu joguete. Na Índia, se determinava na legislação de Manú que: “Nunca deve a mulher seguir sua própria vontade: dia e noite têm que se manter submissa”.

Portanto, a vida da rainha Clotilde torna-se ainda mais bela pela influência que teve sobre um soberano poderoso daquela época, o rei franco e pagão Clóvis, seu esposo.

O relato sobre seu casamento foi contado pelo historiador e bispo Gregório de Tours (539-594), que narrou sobre a época conturbada na qual as invasões bárbaras e a queda do Império Romano (476) permitiram a instalação de reinos bárbaros, especialmente na Gália (França), onde Clotilde vivia. Ela nasceu em Lion, na Borgonha, região francesa. Os francos eram de origem germânica e permaneceram pagãos. Alguns, mais romanizados, adotaram o cristianismo, mas se tornaram arianos, considerados desviados das doutrinas cristãs e desobedientes aos concílios romanos. 

Este foi um período histórico marcado por uma forte tensão entre o antigo e o novo, a continuidade e a ruptura, a permanência e a transformação. Dois fenômenos demonstram cabalmente esta afirmação: o primeiro, a progressiva cristianização da sociedade antiga: 

Neste processo a Igreja e o clero cristão tiveram que não somente enfrentar uma vigorosa resistência da multifacetada tradição pagã, mas principalmente foram obrigados a incorporar diversos elementos das práticas religiosas existentes para conseguir efetivamente se enraizar nas mentes e corações dos homens daquela época”.

E aconteceu também o poder exercido por mulheres que estavam ao lado de grandes homens e podiam, de alguma maneira, interferir em seus comandos. O feito singular da rainha Clotilde derivou-se não apenas de sua condição de esposa de monarca, mas da influência exercida, assim como fizeram outras sábias rainhas. 

Após a queda de Roma, Clóvis, filho de Quilderico I, um rei merovíngio da tribo franca que ocupava o oeste da região, sucedeu ao seu pai com a idade de 15 anos. A conquista de grandes regiões do norte e oeste possibilitou que se estabelecesse como único rei antes de sua morte.

Clotilde era a filha caçula do rei merovíngio da Borgonha, e a fama de sua beleza e bondade chegou a Clóvis, que decidiu unir-se àquela família, mesmo sendo de diferentes tipos de fé. O rei Clóvis era pagão e permanecia adorando a vários deuses.

A jovem noiva era doce, piedosa, amava aos pobres e todos ao seu redor a louvavam. Ela demonstrava uma constância admirável em meio a seus infortúnios: seu pai e mãe foram assassinados e ela foi raptada pelo noivo. Mesmo assim, Clotilde começou a brilhar pela santidade de suas ações. Seu porte era belo, suas maneiras agradáveis, seu rosto bem-feito e, em sua beleza não se encontrava nada imperfeito.

As bodas realizaram-se no ano de 493, em Soissons, com toda a suntuosidade da 

época. As diferenças religiosas logo surgiram. Ela, uma cristã fiel, constantemente argumentava e exortava seu marido à conversão, até que eles tiveram um filho. 

 

Muito desejosa de que o menino fosse batizado, suplicou permissão ao marido. Ele negou, e ela, contrariando-o, batizou o recém-nascido. Contudo, o menino, ainda com as vestes do batismo, morreu. O pai, furioso, culpou a mãe: “Se a criança tivesse sido dedicada em nome de meus deuses, certamente teria vivido, mas agora, batizada em nome de teu Deus, não sobreviveu um dia”. A rainha, contudo, apesar de todo o seu desconsolo, agradeceu a Deus por levar seu filho ainda com “as vestes alvas do batismo”, o que, para ela, garantia o cuidado de Deus.

Clotilde admoestou ao rei, e, mais importante, conseguiu impor sua vontade, e isto foi possível não por ser sua esposa, mas principalmente pela sua condição de cristã. Foi o fato de ser cristã que permitiu à soberana enfrentar o rei e persuadi-lo. A religião cristã deu-lhe superioridade a um homem pagão. O poder de Clotilde advinha, portanto, mais de sua confissão religiosa do que do seu gênero. Ela, ousadamente afirmou:

Os deuses a quem prestais culto não são nada. Eles não podem oferecer nenhum conforto nem para eles próprios nem para ninguém. Eles são esculpidos em qualquer pedra, madeira ou metal. Os nomes que são dados a eles são nomes de homens e não nomes de deus. Tal como Saturno que se não ser derrubado de seu reino por seus filhos, foi derrubado por suas faltas conforme conta-se. Tal como Jupiter imundo autor de violências de todo o tipo que desonra os homens, desrespeita seus parentes não se abstendo de fornicar com sua própria irmã que se autoqualifica como irmã e esposa de Jupiter.

Apesar de muito possivelmente os deuses de Clóvis e dos francos não serem os mesmos do panteão clássico, a fala dela representa o que ele cria: em deuses criados por homens, não no único Deus, criador deles e do Universo.

No ano seguinte, Clotilde deu à luz outro menino que, apenas batizado, correu perigo de vida. A rainha lançou-se aos pés do altar e, por suas súplicas e lágrimas, que visavam mais a conversão do marido do que evitar essa segunda morte, obteve de Deus que ele se restabelecesse. Desta forma, as qualidades da esposa começaram a impressionar profundamente a Clovis.

Mas ele tinha um temperamento rude e era resistente ao cristianismo.
Para obter a conversão do marido e do reino, a piedosa rainha entregava-se em segredo às grandes austeridades, prolongadas orações, e especial caridade para com os pobres.
Ao mesmo tempo, honrava o esposo, e procurava suavizar seu temperamento belicoso com sua mansidão cristã.

Clóvis contentava-se em desviar a conversa para não magoar a esposa com blasfêmias. Clotilde tornou-se amiga de Genoveva, que então resplandecia em Paris e foi considerada santa por suas virtudes e milagres. A ela e ao bispo Remígio de Reims recomendou também a conversão do marido.

Chegou finalmente a batalha de Tolbiac, travada entre os francos e os alemães, chamados à época de “alamanos”. Era a hora da providência divina. O invicto Clovis encontrou-se diante daquela liga militar de bárbaros poderosos. De repente, viu seu exército recuar em tal pânico que, na fuga, os guerreiros atropelavam uns aos outros.

Desesperado, o monarca pagão começou a clamar aos seus deuses, pedindo-lhes ajuda, mas tudo foi em vão. Então, lembrou-se de Clotilde. Caindo de joelhos, elevou seus olhos ao Céu, e bradou com toda a alma: “Ó Jesus Cristo, Deus de Clotilde. Se me concederdes vencer esses inimigos, eu crerei em Vós e serei batizado em vosso nome”. 

A batalha virou miraculosamente de lado e Clovis venceu. À rainha, que o esperava ansiosamente, o esposo declarou que por causa daquela vitória, daquele dia em diante o Deus de Clotilde seria seu único Deus.

No dia de Natal do ano 496, Clóvis, com três mil de seus mais valentes guerreiros, ingressaram pelo batismo na milícia do Deus dos cristãos e de Clotilde.
E, em poucos dias, todo o reino dos francos entrava na igreja gritando a confissão de fé: – Viva Cristo, que ama os francos! 

Morte de Clotilde

Após 34 anos nesta vida fiel como víuva, a “Rainha Santa”, como ficou conhecida, faleceu. Era o dia 3 de junho do ano 545. Seus filhos estavam presentes, ela que perdera seu primogênito e quase o segundo filho, morreu cercada de quatro filhos já reis.

Clotilde de Clóvis foi a virtude feminina encarnada. Aceitou um casamento que lhe foi imposto por necessidades políticas, mas exigiu, como boa cristã, que sua fé fosse respeitada pelo noivo ainda pagão. Cumpriu rapidamente seu principal dever como esposa, o de conceber um herdeiro para o trono, e mais uma vez sua convicção religiosa falou mais alto, conseguindo impor sua vontade ao monarca e batizando o recém-nascido. 

Contudo, foi no episódio da conversão do marido e soberano que a atuação de Clotilde se tornou mais destacada, pois exerceu de forma efetiva a sua influência sobre Clóvis. A imagem dela é o protótipo da esposa e da rainha cristã, servindo de modelo de conduta para as demais soberanas merovíngias. 

Em uma realidade social em que os espaços de atuação das mulheres eram quase nulos, e com documentos produzidos por homens, que possuíam uma visão bastante negativa da condição feminina, esse reconhecimento do prestígio e da importância da soberana, que influenciou seu esposo pagão, demonstrou a relevância de sua atuação no âmbito palaciano e social e reforçou o versículo bíblico que a mulher santa santifica seu marido. Aleluia!

Profa. Ms. Rute Salviano Almeida

Pesquisadora da História das Mulheres no Cristianismo

[1] Dicionário Edelvives, tomo III, p. 348, apud: DUFAUR, Luis. Santa Clotilde rainha e o milagre da conversão da França. Orações e milagres medievais. Domingo, 2 de agosto de 2015. Disponível em:  <https://oracoesemilagresmedievais.blogspot.com/2015/08/santa-clotilde-rainha-e-o-milagre-da.html>. Acesso em 2 mar. 2022. 

[2] De origem indiana, em linguagem sânscrita, é a legislação dos hindus e estabelece o sistema de castas daquela sociedade.

[3] FINKE, Enrique. La mujer em la edad media. Trad. alemão Ramón Carande. Madrid: Revista de Occidente, 1926, p. 18.

[4]  Ariano: seguidor das doutrinas do heresiarca Ario, (250-336), sacerdote de Alexandria que negava que as três Pessoas da Trindade são absolutamente iguais quanto à natureza e coeternas. A heresia ariana alastrou-se por quase todo o mundo já cristianizado de então. Ela foi condenada pelo Concílio de Nicéa I (325) e por vários outros concílios.

[5] CRUZ, Marcus Silva. Religiosidade tardo antiga e cristianização do Império Romano. Fronteiras. Revista de História, v.12, n.21, 2010. Disponível em: <https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/594. Acesso: 15 set. 2014> , p. 29.

[6] Relativo à dinastia de reis francos fundada por Meroveu e consolidada por Clóvis (465-511) e seus descendentes, que governaram a Gália e a Germânia de 500 a 751.

[7]  História dos Francos, II, p. 20 apud: COSTA, Ricardo da. A dor da perda. As mulheres e o luto na História. Disponível em: < file:///C:/Users/Jo%C3%A3o/OneDrive/Documents/Clotilde%20A%20dor%20da%20perda%20-%20As%20mulheres%20e%20o%20luto%20na%20Hist%C3%B3ria%20_%20Idade%20M%C3%A9dia%20-%20Prof.%20Dr.%20Ricardo%20da%20Costa.html>. Acesso em 2 mar. 2022.

[8] GREGORII EPISCOPI TURONENSIS II, 29, apud MAMEDES, Kelly Cristina da C. B. de Menezes; CRUZ, Marcus. O poder das mulheres e a construção da memória na Antiguidade Tardia. Revista Mundo Antigo – Ano III, V. 3, N° 06 – dezembro – 2014, p. 44.  Disponível em: <http://www.nehmaat.uff.br/revista/2014-2/artigo01-2014-2.pdf>. Acesso em: 2 mar. 2022.

[9] DUFAUR, Luis. Santa Clotilde rainha e o milagre da conversão da França. Orações e milagres medievais. Domingo, 2 de agosto de 2015. Disponível em:  <https://oracoesemilagresmedievais.blogspot.com/2015/08/santa-clotilde-rainha-e-o-milagre-da.html>. Acesso em 2 mar. 2022. 

Ilustração: Ana Rita Robalo

Ana Rita Robalo é nascida no Luxemburgo em 1993. Criança e adolescente na Bélgica, jovem adulta em Portugal, casada há 5 anos e recente mãe de uma portuguezinha. Decidiu criar raízes em Portugal ao ter vindo estudar Artes em Lisboa. Fez o percurso académico de pintura, design, ilustração, finalizando com o mestrado de desenho. Trabalha como artista freelance, concretizando pedidos personalizados, aguarelas de retratos, paisagens, postais, ilustrações para livros e revistas, convites de casamentos, logos, entre outros. É uma apaixonada por ilustração, padrões e pintura a aguarela. A Natureza é a fonte da sua inspiração, obra do perfeito Criador e Artista.

Escrito por -

Rute Salviano Almeida é pesquisadora e escritora da História das Mulheres no Cristianismo. Obras publicadas: Uma voz feminina na Reforma, Uma voz feminina calada pela Inquisição, Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro, Vozes femininas no início do Cristianismo, Vozes femininas nos avivamentos, Heroínas da Fé (devocionais) e Reformadoras. Licenciada em Estudos Sociais, bacharel e mestre em Teologia, pós graduada em História do cristianismo e membro titular da cadeira 31 da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Prêmio Areté 2015 com o livro Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Discípulas de Jesus de diferentes denominações da fé protestante com o propósito comum de viver para a glória de Deus.
Social