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GravidezNenhuma mulher aborta sozinha

Nenhuma mulher aborta sozinha

Desde os primórdios da humanidade, mulheres e homens lidam com as consequências de uma gravidez indesejada. Tendo em vista essa premissa, é importante refletir sobre o assunto de uma forma menos apaixonada e mais racional, pois sua existência não é exclusiva da nossa época. Tal consideração emerge numa era em que acompanhamos debates calorosos e superficiais sobre esse tema, ao mesmo tempo em que várias nações flexibilizam suas legislações concernentes ao aborto provocado. De um lado, vemos grupos que defendem os direitos do sexo feminino em relação ao próprio corpo, alegando que o feto é um não-ser e que pertence exclusivamente ao organismo da mulher.

No outro espectro do debate, enxergamos quem luta pela preservação da vida intrauterina, fundamentado na perspectiva de que o feto é um ente civil, mas dependente da mulher para manter seu desenvolvimento. No entanto, essas vertentes antagônicas convergem seus esforços em pelo menos um ponto em comum: a busca pelo exercício dos direitos individuais, seja no domínio do sexo feminino sobre seu próprio corpo, seja na defesa do ser humano em permanecer no complexo percurso da vida, desde o período gestacional. Dessa forma, a análise acerca do aborto provocado é uma tarefa árdua, que exige maior disposição dos evangélicos em se aprofundarem na realidade antes do envolvimento em qualquer debate público. E tendo em vista a complexidade desse assunto, este ensaio propõe observar quatro paradigmas relacionados ao aborto provocado na contemporaneidade, sob a perspectiva cristã. Primeiramente, devemos ponderar que o posicionamento público evangélico em relação ao aborto provocado requer uma melhor representação e fundamentação científica, além de um engajamento efetivo na realidade social nos meios urbano e rural.

Assim como Cristo envolveu-se com a realidade do seu povo, caminhando e fazendo o bem por toda a parte, nós, como seguidores Dele, devemos buscar viver da mesma forma e não apenas lançando-nos em discursos e posicionamentos políticos distanciados da concretude dessa vida, que é pungente e minguada de cuidado e atenção. A Igreja de Cristo precisa ter em mente que o aborto provocado não é uma prática isolada da mulher, mas geralmente é um ato incentivado por seus parceiros sexuais, familiares e amigos, entes que precisam ser contemplados dentro desse simulacro social. Portanto, o posicionamento público dos cristãos precisa ser direcionado, em primeiro lugar, para o socorro e proteção das mulheres em gravidez indesejada. Essa seria a melhor resposta ao chamado de Deus registrado em Provérbios 24:11,12: “livra os que estão destinados à morte e salva os que são levados para a matança, se os puderes retirar. Se disseres: Eis que o não sabemos; porventura, aquele que pondera os corações não o considerará? E aquele que atenta para a tua alma não o saberá? Não pagará ele ao homem conforme a sua obra?”. Notamos que essa ordenança dirige-se ao povo de Deus de forma geral. Embora argumentações morais sejam relevantes para o bem comum, ainda assim, palavras persuasivas não serão suficientes para alterar a tragédia que invade a vida de muitas mulheres neste instante.

Encarar o aborto provocado apenas como um pecado que precisa ser combatido com discursos é como se enxergássemos uma pessoa que foi espancada e permanece convalescida no canto da praça. Vemos essa pessoa estender sua mão rogando por ajuda, mas em vez de lhe prestarmos auxílio, subimos num palanque à sua frente e discursamos longa e eloquentemente sobre o pecado no mundo. Se não chamarmos uma ambulância ou não a auxiliarmos a sair daquela situação, essa pessoa permanecerá na mesma condição, sem qualquer possibilidade de restauração e cura. O ajustamento à vontade de Deus implica numa ação e não em discursos clichês e vazios. É justamente esse predomínio discursivo que tem ocupado as mentes e as motivações de lideranças religiosas e, por consequência, de diversos evangélicos pelo Brasil e ao redor do mundo. Tal preponderância argumentativa vem abrangendo, inclusive, personalidades políticas que apropriam-se desses discursos morais e religiosos de maneira oportunista, sem qualquer preocupação efetiva com a vida dos nascituros e das mulheres que acabam morrendo juntos em procedimentos abortivos clandestinos. Por exemplo, no Brasil, ainda existem poucas instituições que prestam auxílio às grávidas que cogitam interromper suas gestações por razões diversas. E a maior parte dessas casas de apoio à vida nem são lideradas por igrejas evangélicas, mas por Centros Espíritas Kardecistas ou por Paróquias vinculadas à Igreja Católica. Em relação à Igreja Evangélica Brasileira, observam-se alguns movimentos isolados e sem muita proeminência, cuja origem geralmente é importada de iniciativas estrangeiras (utilizando nomenclaturas que afastam completamente uma parcela semianalfabeta de mulheres em vulnerabilidade social que mal compreende o português, quanto mais entenderá símbolos e palavras de origem inglesa). Infelizmente, muitos evangélicos têm agido como o fariseu no templo, discursando contra o aborto e se gabando por não serem “como as mulheres iníquas que ceifam a vida dos seus próprios filhos”. Novamente, esse é o primeiro ponto pelo qual devemos nos arrepender de nossas omissões e hipocrisias, nos envolvendo em iniciativas que auxiliem mulheres grávidas em situações de vulnerabilidade, suportando suas vidas e seus bebês em ações práticas de cuidado e justiça social.

O segundo aspecto para refletirmos refere-se à insistência dos evangélicos em hierarquizar pecados sexuais como sendo mais perniciosos do que os demais. Essa noção religiosa legalista camufla o desejo sexual das pessoas, como se não existissem anseios lascivos por debaixo de suas vestimentas rebuscadas e certinhas. É fundamental entendermos que o aborto provocado é apenas a ponta do iceberg. Apesar de essa analogia ser bastante usada, aqui se faz mais uma vez necessária. Vemos a ponta do iceberg nas estatísticas de abortos clandestinos e nas consequentes mortes de crianças e mulheres, mas fazemos vista grossa para a raiz dessa montanha de gelo que se esconde nas profundezas do oceano de pecado. Precisamos atentar para as causas que motivam os abortamentos intencionais, as quais procedem da baixa escolaridade populacional; dos ambientes de alta vulnerabilidade social que comprometem especialmente a segurança de mulheres e meninas; da pobre ou inexistente educação sexual de crianças e adolescentes; dos adultérios; das violências sexuais que acontecem de forma predominante nos ambientes familiares, no consumo de conteúdos pornográficos desde a infância e na falta de diálogo entre pais e filhos, que acabam por mascarar situações escandalosas que acometem inúmeras famílias cristãs.

Por participar de um grupo de voluntários unidos em apoio às mulheres em gravidez indesejada, soube de um exemplo recente que me deixou perplexa. Um jovem rapaz procurou a organização com a intenção de comprar medicamentos abortivos para interromper a gravidez da esposa com cerca de cinco meses de gestação. Ele deve ter feito uma simples pesquisa no buscador da internet, mas, providencialmente, foi direcionado para uma associação imbuída pela preservação da vida da mulher e do feto. Envergonhado, o jovem justificou que tomava essa decisão por temer a reação da mãe e da igreja evangélica pentecostal da qual ele e a esposa fazem parte, já que praticaram ocultamente o sexo antes do casamento. Um depoimento tão ultrajante como esse escancara a distância do discurso religioso da nossa natureza pecaminosa, além de mostrar a incapacidade de muitos evangélicos em enxergar a depravação total humana e o poder de Jesus Cristo para redimir o pecador. Porém, esse não é um caso exclusivo. A todo instante conhecemos outras histórias de mulheres que são pressionadas pelos próprios parceiros ou familiares para interromperem suas gestações, além daquelas que intentam contra a própria vida. Nesse sentido, é urgente um envolvimento maior dos cristãos evangélicos na estruturação de ações que preconizem a educação sexual não apenas em suas famílias, mas também na configuração de incentivos e propostas que auxiliem organizações do terceiro setor, instituições de ensino e profissionais de saúde no planejamento, criação e oferta de conteúdos gratuitos para diversos públicos em idade fértil. Essas iniciativas precisam instruir a respeito dos desdobramentos da vida sexual descompromissada e prematura, reforçando não apenas as repercussões de uma gravidez indesejada, mas também sobre o risco de contágio de doenças sexualmente transmissíveis. Nesse raciocínio, é importante abordar como terceiro eixo de análise a compreensão de que a mulher não engravida sozinha e de que é preciso conscientizar o sexo masculino de suas responsabilidades. Embora seja algo óbvio, as pessoas acabam negligenciando essa máxima, por se oporem aos discursos radicais da militância pró-aborto que enaltece, de maneira rasa e incoerente, a ideia da soberania do sexo feminino sobre seu próprio corpo.

No entanto, ao se contraporem à abordagem feminista, os evangélicos potencializam o postulado “meu corpo, minhas regras” num formato alienado, acreditando que todos os abortos provocados são cometidos por feministas que odeiam seus filhos e os matam sem qualquer pudor moral. Ao pensarem assim, os cristãos criam estereótipos muito nocivos para o aprofundamento desse tema e para seu correto engajamento social. Embora algumas mulheres decidam pelo aborto sem qualquer interferência de terceiros, a maior parte delas não agem sob a mesma concepção apartada de valores morais. A principal causa do aborto provocado é o abandono, a rejeição e a pressão exercida pelo parceiro, bem como o incentivo de familiares e amigos para que a mulher incorra nessa decisão, como citado anteriormente. Sem uma compreensão de que o homem deve ser educado a se responsabilizar pelos seus atos desde a juventude e de que a relação sexual possui desdobramentos relevantes tanto para a mulher, quanto para o homem, nenhum discurso contrário ao aborto ou favorável a ele produzirá efeitos benéficos, pois acabarão soando como falas sem sentido e desconectadas da vida real.

A responsabilização masculina origina-se também do pressuposto criacional de Deus, que concebeu cada parte para seus devidos fins. Nessa relação dinâmica em que todos possuem uma função, podemos metaforizar a mulher e seu útero como sendo a terra a receber uma semente, que é o feto. O homem é o semeador, ou seja, aquele que deposita a semente e deve ser encarado com a devida incumbência do papel que lhe é relegado. Como um amigo bem conceituou recentemente, a palavra semear vem do latim seminare, que significa produzir e procriar. E esse termo, por sua vez, origina-se de sêmen, que significa semente. Portanto, do homem que vem a semente que viaja até juntar-se ao óvulo da mulher e transformar-se aos poucos na imagem e semelhança de Deus. Assim como o grão e a terra exigem água, alimento e cuidados para crescer e frutificar, de semelhante forma, a mulher grávida necessita de atenção e carinho para que a semente da vida se desenvolva em paz e segurança dentro de si.

Como quarto e último aspecto a pensar, temos a demanda para a adequada atuação da igreja no acolhimento de mulheres que sofrem violências sexuais e físicas, das quais podem se estender em gestações indesejadas e abortos clandestinos. Em 2018, assisti a uma palestra na Faculdade de Direito da UFMG em que um médico abortonista legal de uma das maternidades públicas de Belo Horizonte discursava a respeito das questões do aborto provocado e de abusos sexuais. Ele mencionou a relevante incidência de mulheres que já entravam no hospital em condições deploráveis de saúde, apresentando hemorragias ou infecções generalizadas. Ao exemplificar esse fato, ele comentou que boa parcela dessas mulheres não havia procurado ajuda anteriormente por sentirem vergonha ou culpa de uma circunstância em que eram justamente as vítimas. E devido ao desespero em que se encontravam, introduziam instrumentos cortantes dentro delas, citando como o mais comumente utilizado a agulha de crochê.

Essas mulheres perfuravam seus úteros, seus fetos e o que sobrava de suas dignidades. E quando não morriam, elas ficavam permanentemente estéreis ou adquiriam sérios transtornos emocionais e psiquiátricos. Ao considerar os relatos apresentados pelo médico, imaginei o armário mantido pelo hospital com esses objetos cortantes, como um pequeno museu da prática do aborto. Então me veio à mente a belíssima canção de Stênio Marcius e a figura da agulha de crochê sendo manejada pelo Tapeceiro das nossas vidas. Visualizei a ação do Deus Criador, detentor de todo fôlego de vida, a tecer o feto com o instrumento emblemático, conhecendo e entretecendo a substância ainda informe nas profundezas do útero materno. De repente, uma mulher desesperada arranca das mãos do Tapeceiro a agulha que Ele usa para tecer uma nova criatura à sua imagem e semelhança e a introduz no profundo do útero, matando a pequena obra de tapeçaria do Pai e ainda causando inúmeros prejuízos para si mesma. E apesar de toda tristeza que tal atitude causa no coração Daquele que tem a prerrogativa sobre a vida, Deus ainda não deixa de estender compaixão a essa mulher dilacerada. Ele vai ao encontro dela, ensanguentada e manchada pelo peso do pecado, a recolhendo em seus braços, lhe garantindo redenção ao reconhecer uma criatura maltratada, mas arrependida. Sabemos bem que a nossa função, como Corpo de Cristo é evitar que a mulher arranque das mãos de Deus a autoridade sobre a vida, a abraçando em amor, suportando suas cargas e caminhando com ela.

É crucial que os evangélicos se atentem para essa realidade e estendam seus braços e suas orações às mulheres agredidas pela violência sexual, bem como do aborto provocado, em vez de imputar maiores condenações sobre elas. Finalmente, essa proposta reflexiva foi apenas um ensaio do que pode ser planejado e construído como ações efetivas dos cristãos à preservação da vida de mulheres e crianças.

A questão do aborto provocado é uma grande montanha gelada e mergulhada no oceano do pecado e requer de todos nós um compromisso amoroso com a vida humana e sua trajetória tão complexa no percurso dessa vida, uma vez que nossa fé discursiva e sem obras jaz sob uma lápide acinzentada e fria, que só exala odores para o mundo.

Escrito por -

Marcelle Vieira Salles é casada com Roberto e mãe de Elisa. É membro da Igreja Esperança em Belo Horizonte. É formada em Administração e, atualmente, cursa Letras na UFMG.

3 Comentários

  • Andrea Ramos Santos

    Obrigada, Rita, pelo seu texto tão importante. Há tempos debato com amigos que teimam em julgar e julgar mulheres que decidem pelo aborto. Trataríamos assim alguém tentando o suicidio? Pois é isto que essas mulheres estão sujeitas, tão desesperadas para dar fim à gravidez. Que a Igreja de Cristo aprenda a acolher as mulheres como Jesus o faz e sempre fez!

  • Sâmara Araujo

    Oi, Marcelle! Obrigada por compartilhar uma escrita lúcida, madura e relevante. Deus é amor, e a Igreja precisa ser tb.

  • Gutemberg Borges

    Texto lindo e maravilhoso.

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