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AdoçãoDiário de Adoção #06 – Oficialmente, filhos!

Diário de Adoção #06 – Oficialmente, filhos!

Neste curto e simples diário de adoção eu procurei contar um pouco da nossa jornada na adoção do Miguel e o Gabriel e, de forma terapêutica, relembrar as fases que vivemos. Seis episódios (ou capítulos) são muito pouco para contar, explorar e recapitular tudo o que vivemos até aqui – sigo confiando em minha memória e meus caderninhos para deixar registrado nossa história. Mas para terminar essa jornada aqui no Blog Benditas decidi falar sobre o último estágio da adoção (em termos estruturais e judiciais) – a chegada da nova certidão de nascimento.

A jornada da adoção é um processo complexo e cheio de altos e baixos. Pelo menos foi assim pra mim. Eu decidi ser mãe e adotei os meninos como meus filhos (incondicionalmente) na tarde de outubro após a nossa primeira visita para conhecê-los. Uma loucura? Talvez. Muito cedo? Talvez. Não precisa ser assim, como já disse, o casal pretendente à adoção pode fazer muitas visitas, passeios e encontros até dar o seu “sim” com certeza. No meu caso e do Angelo, foi diferente. Nosso “sim” nasceu muito cedo. Contudo, e aí está uma grande complexidade do processo da adoção, é que o “sim” da Justiça não foi tão rápido.

Após a decisão por adotá-los, tivemos que passar por uma sequência de encontros, passeios, finais de semana dormindo em casa, férias juntos, para então recebermos o documento de “guarda provisória” (mesmo documento que um avós ou tios biológicos podem ter no caso dos pais não estarem em condições de serem os responsáveis pelos seus filhos naquele momento).

No caso dos meus meninos eles já haviam passado pelo processo de destituição familiar, ou seja, já tinham acontecido vários processos e juízos contra os pais biológicos que culminaram na sentença de que perante a Justiça eles não eram mais pais e responsáveis pelas crianças. Existem casos onde o processo de adoção começa antes dessa destituição, o que torna a coisa ainda mais complexa, porque os pretendentes à adoção correm o risco de ter que dar um passo para trás caso a Justiça devolva as crianças para os pais biológicos, julgando que eles ainda são aptos para essa função. Por que muitos profissionais começam um processo de adoção antes da criança ser completamente destituída? Porque às vezes esses processos demoram muito para desenrolar e a criança vai crescendo dentro de uma casa de acolhimento e acaba, por causa da idade, se tornando mais difícil de ser adotada. É ruim começar uma aproximação para adoção que pode não acontecer. É ruim deixar a criança esperando e perder a esperança de uma nova família. É ruim destituir crianças dos pais biológicos sem ter certeza de que essa é a decisão certa. Complexo, não? Mas essa é uma discussão para outra hora.

No meu caso, pelo menos, a fase da destituição familiar já havia acontecido (na verdade, estava na reta final). Contudo, a situação não deixa de ser complexa. Porque, como eu disse, nós já tínhamos decidido ser os pais deles com uma certeza e aliança inquebrável dessa filiação. Mas, judicialmente (oficialmente perante a lei do nosso país) Miguel e Gabriel não eram nossos, eram da Justiça. Nossa guarda era temporária. E por mais que estivéssemos fazendo um excelente trabalho como pais e eles se adaptando e desejando a nova família, havia ali um fantasma de…. “E se tomarem eles de nós?”.

Estávamos há algum tempo juntos, e já vínhamos ensinando os meninos que nossa família era para sempre quando percebi que eles se incomodavam muito com o sobrenome. Por causa do nosso trabalho na internet e nas igrejas nossos sobrenomes apareciam muito – “Angelo Bazzo”, “Carol Bazzo”. Nessa época eles estavam aprendendo a ler e escrever, e precisavam praticar a escrita do nome completo. Escrever “Gabriel Augusto da Silva” e “Miguel Augusto da Silva” era chato, eles diziam – “dá para escrever o nome Bazzo, mãe?”. Para a escola ainda não dava (apesar que existe uma possibilidade de utilizar o nome social nesses casos, eu até tentei, mas a escola não foi muito aberta e eu desisti).

No aeroporto, quando eles foram viajar pela primeira vez, acabamos errando o portão de embarque. E, plenamente atrasado, ouvimos nossos nomes e sobrenomes sendo chamados no alto-falante. Aquela voz urgente chamando deixava claro que tínhamos ali “os Silvas” e “os Bazzos”. Ainda. Eles não curtiam muito. Eu fingia que estava tudo bem, mas também não gostava. Várias vezes eles perguntam: “Mãe, o Juiz já deu o nome Bazzo?”. É muito interessante como crianças (mais velhas) que passam por processo de serem abrigadas, destituídas do poder familiar e adotadas podem ter a consciência de que suas vidas estão na mão do juiz. Várias vezes eles perguntavam “o juiz deixou?” (risos). Era até engraçado… mas com o tempo foi necessário ensinar que nós éramos autoridade sobre eles, e Deus era o juiz supremo sobre todos nós.

Pode parecer uma coisa pequena essa questão do sobrenome e toda a parte legal que envolve a adoção. Mas não é. A história do Brasil quanto à adoção é totalmente à margem da legalidade. Em algumas regiões, por exemplo, era muito comum uma família “adotar” ou simplesmente trazer pro seio familiar o filho de alguém. A criança vivia com a família mas não era oficialmente filho. Não são raras os episódios de crianças ou jovens que foram “adotados” simplesmente para ajudar nos serviços da casa. Qual a semelhança entre ambos os casos? A maioria não recebia o sobrenome da família. A maioria não tinha direito à herança. A maioria não tinha o privilégio de chamá-los de “pai” e “mãe”. E, apesar de ter teto e comida, a maioria não tinha acesso ao amor e afeto de um pai e uma mãe.

Curiosamente, no islã a adoção, nos termos como a conhecemos e praticamos, é proibida. Cuidar de órfãos e crianças necessitadas é considerado uma boa obra pelo Alcorão, e é algo muito incentivado. Contudo, não é permitido a adoção em si, e ponto central é: você não pode dar o seu sobrenome para alguém que biologicamente não é seu filho e tratá-lo como um filho legítimo. Isso seria contra a verdade.

Por mais que eu ame a adoção e veja beleza nela. Há um fato de que só existe adoção porque alguém abandonou seus filhos, não foi fiel à sua responsabilidade ou simplesmente porque alguém morreu. Em outras palavras, só existe adoção porque houve a queda – o homem pecou e há pecado no mundo. Há uma face triste e uma realidade de dor quando falamos de adoção (pais e filhos sabem disso). Contudo, a beleza da adoção, que supera a parte triste, deriva inevitavelmente da redenção cristã.

A Bíblia nos diz que Deus, antes da fundação do mundo, decidiu nos ter como filhos (Efésios 1:5). Na condição de Deus e rei supremo do universo ele poderia nos ter apenas como escravos, servos ou ajudantes (o que para nós já seria muito bom), mas ele preferiu que fossemos seus FILHOS. Deus nunca foi um pai celestial “estéril” – ele sempre teve Seu Filho unigênito, Jesus Cristo, eternamente gerado. Ele não precisava de nós. Mas ele decidiu nos ter como filhos e, por isso, nos adotou.

Como tenho dito, a adoção é parte central da doutrina bíblica da salvação. E ela significa para nós, cristãos, que Deus quer se relacionar conosco como pai e filho. Ele não quer simplesmente nos dar um teto para morar e prover nossa comida. Ele quer nos dar seu nome, quer nos dar acesso a sua herança, quer que nos sintamos amados, quer nos dar o direito e privilégio de chamá-lo “Aba” (Romanos 8:15).

De volta à nossa história, embora os dias de pandemia tivessem atrasado muito nosso processo para finalizar a adoção, finalmente em fevereiro de 2021 recebemos a última visita da assistente social em nossa casa. Depois de ótimas conversas conosco e com as crianças ela produziu um relatório que atestava o vínculo familiar e uma conclusão positiva. Em julho, o juiz nos deu a guarda definitiva e, finalmente, fomos buscar as novas certidões de nascimento¹. Que alegria foi buscar esse documento! Finalmente chegamos ao fim. Éramos, oficialmente, uma família. E eles, oficialmente filhos!


¹Após concluída a adoção, a criança recebe uma nova certidão de nascimento (como qualquer outra) não existe nada no documento que fale que são adotados e nem consta nome dos antigos genitores. Há apenas uma anotação falando que há algo arquivado no cartório. Essa observação existe porque quando for casar, o cartório se certifica se não está havendo união entre irmãos biológicos, sem eles saberem.

Escrito por -

Carol tem 31 anos e é esposa do Angelo, mãe de Miguel e Gabriel. É professora de História da Igreja e mestranda em Teologia Histórica. Vive em Monte Mor e serve na Igreja Cristã Convergência.

4 Comentários

  • Que linda história Inspiradora!🥺🫂

  • Ualll chorei horrores , que lindo que edificante , parabéns pela linda família forjada por Deus .

  • Lazara Fernanda Candido da Silva

    Lindo o texto! Deus é realmente um pai de amor, que possamos agir como ele!

  • Obrigada por compartilhar um pouco da sua história conosco. Deus a abençoe e que Ele continue usando você e sua família para nos inspirar. Você foi uma das primeiras pessoas que ouvi falar com tanta clareza e sinceridade a respeito da adoção (inclusive, no podcast do Douglas Gonçalves). Tem sido uma referência para mim. Obrigada <3

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