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Maternidade18 anos de maternidade

18 anos de maternidade

O filho mais velho fez 18 anos e a viagem tem sido feita na minha mente.

Às três semanas de vida segurava-o no meu colo, enquanto via um episódio da série “Family Ties”. Nesse episódio, o filho mais velho da família (o actor Michael J. Fox) saía de casa para trabalhar noutra cidade. Lágrimas fartas caíram do meu rosto, enquanto segurava o meu bebé recém-chegado e imaginava o dia em que também ele sairia de casa. Verdade.

Saltei etapas e cheguei lá à frente. Ele ainda teria de aprender a falar, a andar, a ler e por aí fora, mas o meu pensamento já estava no futuro e sofria por antecipação.

Ser mãe abarca uma responsabilidade grande e todas as emoções deste mundo, mas o Senhor não nos deixa sozinhas nesta tarefa. É um caminho para ser feito na Sua dependência, buscando nele força, sabedoria, paciência e alegria. O Senhor dá graça a cada dia para lidarmos com as situações presentes. É loucura tentarmos viver o amanhã sem a graça que ainda não nos foi dada. Mostra a nossa tendência para achar que somos auto-suficientes. Não somos. Nunca. É um atributo que não nos assiste.

O Samuel chegou em 2003, no último dia do ano. Nasceu antes do tempo, ensinando-nos desde o início que podemos fazer muitos planos, mas é somente o Senhor que os determina. Quando nasceu não chorou e foi imediatamente levado pelas enfermeiras. O coração dele batia muito devagar já nos últimos momentos do parto. A primeira semana no hospital, com este bebé mais pequenino do que o normal, que só dormia e não comia, perdendo peso a olhos vistos, foi intensa e desde o início senti a graça e cuidado do Senhor a rodear-nos. Ao contrário do que o mundo ensina, isto de ser mãe não é para fortes. É para gente fraca que tem e conhece um Deus forte. Na minha incapacidade aprendo a confiar mais no Senhor. Não há caminhos sempre cheios de flores e ao longo de quase duas décadas, no crescimento do Samuel, temos sido lembrados disso mesmo. Em pequenino, quando passava alguma dificuldade, tinha o hábito de perguntar: “Porquê eu, mamã?” A última vez que levantou a questão tinha 8 anos, altura em que descobrimos que teria de tirar a vesícula. Mais uma vez a minha resposta foi a mesma: “Não perguntes: “Porquê eu”, pergunta antes: “Por que não eu?!? “Tanto ele como os manos aprenderam a resposta e o seu significado. Aceitar sempre o que Deus dá inclui as coisas boas e as mais difíceis, tendo a certeza de que a Sua vontade é sempre boa e perfeita e temos muitas vezes o que por nós mesmos não escolheríamos passar. Porque tenho eu de ser poupado ao sofrimento? Claro que, de vez quando, quando pedia alguma tarefa a algum deles e o escolhido reclamava, respondendo qualquer coisa como: “Porque é que tenho de ser eu?”, um dos irmãos lembrava com um sorriso: “Por que não eu?”

Ser mãe é uma escola em vários sentidos. Deixo-vos algumas coisas que o Senhor me tem ensinado:

  • aprendo a conhecer o meu filho a cada dia, com paciência. A ler as suas emoções, receios, desejos e comportamento, chegando sempre à conclusão que só Cristo pode preencher completamente. A minha melhor tentativa de o alegrar terá sempre um efeito passageiro [Sl 42.1-2];
  • posso e devo corrigir e moldar as suas atitudes, mas só Deus muda o seu coração [Ez 36.26-27];
  • pedir desculpa é uma necessidade. Ser mãe deixa a nu os meus piores pecados e fraquezas, sendo por isso um meio que Deus usa para me santificar. Antes de mostrar-me que posso amar tanto assim, mostra-me que sou egoísta tanto assim [Pv 28.13];
  • neste caminho ouvir os outros pode ser bom, mas ouvir Deus é ainda melhor! [Lc 11.28];
  • os filhos não são na realidade meus. Procurar desfrutar com alegria os filhos que Deus me empresta, no tempo que me dá. Amar, cuidar, educar e guiá-los a Ele [Rm 11.36];
  • não há nada, mas mesmo nada neste mundo mais precioso e importante do que ensinar-lhes a Palavra. E não há alegria maior do que vê-los amar o Deus da Palavra [Sl 119.9, 2Tm 3.16-17];
  • o lugar melhor e mais seguro para os meus filhos crescerem é na igreja, no meio dos irmãos na fé. Amar a Igreja é amar a Cristo [Cl 3.16];
  • é bom servirem desde que são pequeninos. Temos um Salvador que veio para servir. Não há outro modo de vida para o cristão [Mt 20.28];
  • os abraços nunca são demais e rir juntos é mesmo um bom remédio [1 Jo 4.18, Pv 17.22];
  • orar por eles. Quando eram bebés e amamentava, usava esse tempo para orar de uma forma específica. Orava pela sua salvação, crescimento, futuro e pelas esposas que Deus poderia trazer. Persistir na oração e quando falho, é retomar [1Ts 5.17];
  • estar disponível para ouvir quando partilham algo e para entender o que dizem em silêncio, mas ensinar-lhes que há Alguém melhor, que está presente e acessível sempre e que compreende íntima e perfeitamente [Sl 139.2, Gn 16.13];
  • Deus prepara o meu coração para uma dificuldade específica durante anos, mas dá a força para as etapas e desafios à medida que eles surgem [Rm 8.28, Fp 1.6, Lm 3.22-23];
  • apontar sempre para o carácter de Deus e Seus atributos, antes de apontar para mim [Tg 1.17];
  • mostrar a glória de Deus em todas as ocasiões, ao ler as Escrituras, olhando para Jesus na manjedoura ou observando a beleza dos céus ou a imensidão do mar [1 Cr 29.11-13, João 1.14, Sl 8.1, Sl 104.25]
  • encher a casa de música de todas e mais variadas formas possíveis. Que esta culmine em adoração ao Criador e seja um aperitivo da eternidade [Sl 145.1];
  • “O galardão da humildade e do temor do Senhor são riquezas, honra e vida.” Pv 22.4

A graça de Deus vai sempre superar em grande escala a tua melhor tentativa de acertar. A verdade é que quando, como mães, fazemos algo realmente bem ou vemos bom fruto na vida dos nossos filhos, isso é dádiva do alto e não mérito nosso. Desenganem-se as que em si mesmo encontram capacidades e vivem seguras do seu desempenho. Também isso tombará. Só a graça permanece, vindo de um Deus que é imutável.

A minha preocupação de mãe nunca tornou nenhum filho mais feliz, capaz ou seguro. Nunca deu propósito ou identidade nem transformou uma criança num jovem sábio e responsável. Só Deus pode fazer tal trabalho.

O meu primeiro bebé fez 18 anos e parte de mim ainda se belisca com este facto. Sou tão grata pela misericórdia e bondade do Senhor! Não sei ao certo tudo o que o futuro trará, mas sei que se os nossos filhos estão em Cristo, posso descansar. Ele ama-os tão mais e melhor do que eu alguma vez poderei amar! Estão seguros, venha o que vier.

Repetir as palavras de Martinho Lutero como um lembrete diário:

“Não haverá descanso para os meus ossos ou para os seus, a menos que ouçamos a Palavra de graça e prendamo-nos a ela de forma consistente e fiel.”

Deus nos ajude.

Escrito por -

A Rute Carla Xavier tem 44 anos e é casada com o Timóteo há 23 anos. É mãe de 3 rapazes: o Samuel (18), o Jónatas (15) e o Marcos (14). Serve com a família na Igreja Baptista da Lapa, em Lisboa e é coordenadora voluntária na organização Crescer com Amigos.

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