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CasamentoO dia em que o meu casamento acabou

O dia em que o meu casamento acabou

“Pois, no dia da adversidade, ele me ocultará no seu pavilhão; no recôndito do seu tabernáculo, me acolherá; elevar-me-á sobre uma rocha.”

Salmos 27:5

 

No dia 1 de Novembro de 1755 a cidade de Lisboa foi palco de uma catástrofe com repercussões históricas. Um terramoto com magnitude estimada entre 8,5 e 9 graus na escala de Richter seguido de um tsunami e posterior incêndio levou a cidade à completa destruição em menos de uma semana. Até aos dias de hoje podem ser vistas as marcas que esse evento deixou na cidade. Após a devastação, o nobre, diplomata Marquês do Pombal elaborou um plano de ação composto por três fases: enterrar os mortos, alimentar o povo e repor a ordem reconstruindo a cidade.

Enterrar os mortos

Em Janeiro de 2019 eu senti o chão a tremer. Só eu. Depois de dois filhos lindos, e 9 anos de casamento, o meu marido entendeu que não queria mais. Ele precisou rever e reconfigurar a sua vida e algum tempo depois mobilou o apartamento que alugou para começar uma nova vida que não mais me incluía. Foi o meu primeiro namorado, o único homem que conheci e encontrei-me sem chão, sem saber o que fazer, como reagir ou para quem me virar. Sentimentos de ódio e raiva invadiam-me e elaborava planos de vingança na minha cabeça. “Depois de tudo o que já vivemos, como ele se atreve a fazer-me isto?!” Usava de chantagem e manipulação de dia e acabava-me em lágrimas e prantos à noite. O sentimento de abandono e desamparo é dos mais dolorosos que senti até hoje. Esgotei as minhas forças e finalmente percebi que eu estava a fazer tudo errado. O meu casamento tinha acabado eu tinha de fazer as pazes com essa nova realidade e só o Senhor poderia me ajudar nesse processo. Era tempo de enterrar os mortos.

Alimentar

Nos meus momentos com Deus sentia-me amparada. Orei o Salmo 27 como se eu própria o tivera escrito. Foi o meu hino. Senti-me refugiada num lugar seguro. Aos poucos esses momentos deixaram de ser só para eu chorar e clamar “Pai, ajuda-me” e passaram a incluir louvores e palavras de gratidão – apesar de estar a fazer o luto do meu casamento, eu tinha tantos outros motivos para dar graças a Deus. No entanto, a imagem de “morte” e “luto” fazia-me lembrar uma pregação que ouvi há anos baseada na passagem bíblica em que Jesus ressuscita o seu amigo Lázaro, no livro de João 11:1-44. O pastor nesse dia enfatizou o facto de que Jesus não impediu a morte, antes usou-a para que o Seu nome fosse glorificado. Quando para os homens a morte parece ser fim, para Jesus a morte não é minimamente impedimento para a vida.

Estaria o Senhor a dizer-me que queria ressuscitar o meu casamento? É porque eu não queria mais isso. No meu processo de luto pude perceber cada vez com mais clareza que havia muita coisa errada a acontecer em minha casa. Pude tirar o meu marido do papel de vilão solitário e perceber que também eu havida contribuído para este final óbvio e inevitável. Já era demasiado tarde para ressuscitar o que fosse. Era tempo de seguir em frente.

Na minha mesa de cabeceira passei a ter um livro com linhas orientadoras para tornar mais harmoniosa a vivência das crianças em lares separados: a casa do pai e a casa da mãe. Nessa mesma mesa havia um outro livro que já lá estava há meses, mas que nunca tive o animo necessário para o começar a ler. Era um livro da Stormie Omartian chamado “O Poder da Esposa que Ora”. Tamanho contrassenso…ainda assim comecei a ler os dois livros, e cada vez mais o segundo, até que nada do primeiro. Dei por mim a orar pelo pai dos meus filhos de forma intencional. Não orava pelo meu casamento. Orava por ele. Também ele estava a passar por um processo pessoal árduo – coisa que eu não conseguia nem queria ver antes de ter começado a orar por ele. Aos poucos o perdão começou a brotar em mim e o Senhor começou a ensinar-me o modo certo de perdoar: o perdão que mostra amor; o perdão que lança o dano causado nas “profundezas do mar” como diz em Miqueias 7:18 e 19. O perdão foi um ponto de viragem.

Ordem e Reconstrução

Depois da destruição causada pelo sismo de 1755 era tempo de reconstruir. Foi planeada uma nova Lisboa. Os edifícios destruídos e as ruínas serviram para nivelar o terreno, a fim de que a nova cidade fosse erguida. Um novo mapeamento, novas ruas. Um novo começo.

Os milagres são a direta intervenção de Deus numa situação. São a ação sobrenatural quando os recursos humanos se esgotam. Queridas leitoras, acreditem: o meu casamento é um milagre. Certo dia, depois de orar pelo meu marido mandei-lhe uma mensagem escrita a agradecer pelos bons momentos que tivemos juntos, pelos nossos filhos, pela casa que tinha ficado para mim. Nessa mensagem disse que não lhe guardaria rancor nem lhe lançaria em rosto o mal que me fora causado e que orava por ele. Foi como que uma carta de despedida. Um encerrar de capítulo. Era importante limpar o caminho para podermos desenvolver um relacionamento minimamente saudável pelo bem dos nossos filhos. Eu não sabia o que iria acontecer, mas sabia que não queria o meu casamento de volta.

Eu queria um outro casamento – novo e completamente diferente em que eu tinha de ser uma melhor versão de mim, e ele uma melhor versão também. Queria um casamento que alegrasse o coração de Deus e lhe trouxesse honra. Queria ter por hábito orar com o meu marido e ter conversas espirituais. Queria extinguir assuntos tabu e ter uma comunicação mais eficaz e livre de manipulações. Queria um do over, mas agora a sério! E foi isso mesmo que aconteceu. Cada vez que ele vinha trazer os miúdos depois de terem passado o fim de semana com ele, ficava para conversar como um amigo. As conversas foram tornando-se cada vez mais longas e mais profundas e a amizade aos poucos intensificou-se. Com tempo e muita calma voltamos a dar espaço ao verdadeiro amor no nosso relacionamento – para a glória de Deus, tal como a ressurreição de Lázaro.

Não tivemos uma nova cerimónia de casamento, mas renovamos os votos trocando as alianças antigas por umas novas com a frase “Vá, agora a sério!” gravada lá dentro.

Lisboa hoje é linda e está entre as 25 cidades mais populares e procuradas do mundo para destino turístico segundo o Tripadviser, muito devido à sua estrutura arquitetónica. Significa isso que todo o sofrimento de 1755 terá valido a pena? Eu não o colocaria assim. No entanto em meio ao caos surgiu a oportunidade para fazer de novo e fazer melhor.

O meu casamento não é nenhum “destino turístico” e acreditem quando digo que às vezes a terra parece tremer um pouco, mas a “arquitetura” agora está fortalecida e.…como é lindo de se ver!

Escrito por -

Quésia Oliveira Marques tem 34 anos e é casada há 11 com o Héber. São pais da Vitória (6) e do Lucas (4). Nasceu no Brasil, mora em Portugal desde os 4 anos de idade. Vive entre o campo e a cidade, perto da serra e do mar, em Sintra. Formou-se em Enfermagem com pós graduação em Gestão de Empresas. É uma das fundadoras da Comunidade Cristã de Lisboa (CCLx), onde serve.

1 Comentário

  • Melissa Marques

    Que testemunho lindo , esse nosso Deus é rico em detalhes . E de nos refazer segundo o seu propósito. Que Deus continue, abençoando você e sua casa como uma árvore frondosa.

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