cremosescreva • contribua

Blog

FamíliaA soberania de Deus, também, na gravidez

A soberania de Deus, também, na gravidez

Enquanto segurava na mão um teste de gravidez e esperava que o resultado surgisse nas janelinhas, um sentimento idêntico ao de um “friozinho no estômago” teimava em não desaparecer. Na minha mente, um encadeamento de inúmeras perguntas, respostas e incertezas pairava naqueles poucos minutos de espera: “Será que estou mesmo grávida? Não pode ser. E agora como é que vai ser, é o quarto bebé! Como é será que a família vai reagir se realmente estiver um bebé a caminho? Como é que vamos lidar com um novo bebé?”. Enquanto essas perguntas surgiam e tentava respondê-las ainda na minha cabeça, apareceu o resultado – POSITIVO! Num misto de sensações entre alegria incontrolável e uma enormidade de incertezas, havia uma certeza “ÍAMOS TER UM BEBÉ!”.

Uma notícia inesperada

A gravidez corria com normalidade e chegou o dia da ecografia do 1º trimestre, estávamos muito felizes por poder ver o nosso filho bem pequenino que crescia dentro da barriga. Foi uma ecografia anormalmente demorada, a médica estagiária media e voltava a medir e após 40 minutos de ecografia a médica obstetra tomou o lugar e 5 minutos depois informou-nos que havia problemas com a medição da transluscência nucal – (1,32), indicativo de um risco acrescido para trissomia21. Um frio percorreu a minha espinha, quase como se tivesse levado um choque elétrico. Fizemos a colheita do meu sangue para o rastreio bioquímico. Fomos chamados ao hospital e sugeriram a possibilidade de fazermos uma amniocentese a fim de confirmar o diagnóstico. Negámos terminantemente, não iríamos agregar risco à vida ao nosso pequeno bebé. Sentimos uma grande desaprovação por parte de alguns profissionais de saúde pela nossa decisão, mas fomos firmes no Senhor.

Saímos do Hospital com um coração apertado e na mão um relatório de risco combinado que apontava para uma possibilidade de (1:50) de o nosso bebé vir com um cromossoma 21 a mais. Procurámos incessantemente por uma segunda opinião. Se vos dissesse que não senti qualquer preocupação seria mentirosa, estava efetivamente preocupada. Na minha cabeça 1 milhão de perguntas atropelavam-se umas às outras e não tinha resposta para nenhuma delas. A única certeza que tinha é que o Autor da Vida, segundo a Sua Soberania, tinha criado aquele bebé e nos oferecido como presente. Iriamos aceitá-lo tal e qual como Ele o tinha criado. Durante alguns dias, existiu um conflito entre o que sentia e a Verdade que conhecia, e precisei pregar para mim mesma: “Deus é Deus! Ele é Soberano! Ele é o Autor da Vida! Tudo o que Ele faz é perfeito! Eu preciso confiar e ter PAZ porque Deus sabe o que faz!”. E finalmente, a paz de Deus, que excede todo o entendimento, e guarda o nosso coração e a nossa mente em Cristo Jesus (Fil 4.7) tomou conta dos meus pensamentos! Assim, de ecografia em ecografia, ao longo de toda a gravidez fomos ouvindo as opiniões dos especialistas e lançando sobre Ele toda a nossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de nós. (1Pe 5.7)

Nesses 9 meses, procurámos aprender o máximo que pudemos sobre a T21 ou Síndrome de Down, lemos sobre o assunto e tomámos conhecimento de associações que nos poderiam vir a ser úteis após o nascimento, à luz da nossa humanidade eu podia dizer que assim estava preparada!! Ao olhar para trás vejo que essa forma de pensar apenas prova o quanto eu ainda precisava crescer no Senhor, nada depende de nós e tudo dele.

Era altura de pôr os nossos 3 filhos, pais e avós a par do que se estava a passar, prepará-los para o caso do Tiago ser um bebé diferente. As reações foram diversas, mas sobretudo ouvimos coisas como: “Vão ver que está tudo bem!”, “Deus é bom, o menino vai nascer sem problema nenhum!” ou “Às vezes os médicos enganam-se!”. Todos amavam o Tiago e sem dúvida queriam o melhor para ele. Aos olhos humanos o melhor seria não ter nenhuma alteração genética, talvez por isso, quando alguém espera a chegada de um bebé, há o hábito de dizer-se: “que seja saudável e perfeitinho!”.

Lembro-me como se fosse hoje do dia do nascimento do Tiago, durante um culto de estudo bíblico as dores começaram. Depois de algumas horas em trabalho de parto, o Tiago nasceu. As pessoas tinham razão, ele nasceu saudável, sem nenhum problema congénito, perfeitinho, com um nariz, boca, mãos e pezinhos pequeninos e delicados. E não se engaram quando disseram que Deus é Bom, Ele é real e totalmente Bom, Ele é Bom em todo o tempo! Ao criar o Tiago com a sua diferença, Deus não mudou a Sua essência, Ele continuou sendo BOM.

Foi o Senhor quem formou o seu interior, quem o teceu no meu ventre, que o formou de um modo assombrosamente maravilhoso. As obras do Eterno são admiráveis e a minha alma o sabe muito bem. Cada osso do Tiago não lhe foi encoberto, os Seus olhos viram o Tiago quando ainda nem a aparência dele era semelhante a um bebé e no Seu livro já Deus escreveu e determinou cada um dos seus dias quando nem um deles havia ainda. (Salmos 139.13-16)

A visita mais esperada

Um pouco receosos, sem saber o que esperar, os irmãos entraram no quarto e um deles disse: “é como um bebé normal!”. É exatamente assim, o Tiago é um bebé normal, mas com um cromossoma 21 a mais. Uma vida tão valiosa como qualquer outra.

Seguiram-se 15 dias de internamento por icterícia hemolítica, e estes foram só os primeiros de muitos. Na T21 é bastante espectável que haja uma hipotonia generalizada o que traz algumas dificuldades na amamentação também. Não foram tempos fáceis, rolaram lágrimas, muitos profissionais de saúde mostraram dificuldade em entender porque o Tiago existia visto que tínhamos sabido durante a gestação, naquele momento tudo o que eu mais queria era estar em casa. No entanto, reconheço que este tempo também foi importante para testemunhar diante de algumas enfermeiras, enternecidas pela delicadeza daquele bebé, que não somos nós que atribuímos ou retiramos algum valor à vida, esse valor é intrínseco.

 

 “Que bebé tão lindo!” disse a enfermeira enquanto nos encaminhava para o exame protocolar para o despiste de cardiopatias congénitas “Tem toda a razão! Agora diga-me, em que é que este bebé tem menos direito à vida que outro bebé qualquer?” redargui. “Tem toda a razão.” ela concluiu.

 

 

Lar doce lar

Chegou a alta hospitalar, o tão esperado momento de abraçarmos a família. Estarmos em casa desfrutando do cuidado, carinho e companhia uns dos outros. O Tiago foi mais uma flecha que o Senhor acrescentou à nossa aljava. Um verdadeiro tesouro para nós! Ele é cheio de alegria, o seu sorriso e doçura são contagiantes! Já não saberíamos viver sem ele.

Só isto? Não houve mais problemas ou dificuldades? Claro que sim! Vieram tempos muito difíceis de longos internamentos. O Tiago foi diagnosticado aos 7 meses com Síndrome de West, um tipo raro e agressivo de epilepsia. Houve uma altura em que o Tiago regrediu ao ponto de nem sequer conseguir suster a cabeça, nada nele funcionava. Precisou usar sonda naso-gástrica, durante 6 meses, para se alimentar. Houve terapias e mais terapias, consultas e mais consultas, medicamentos e mais medicamentos. Vieram alergias alimentares e apneia obstrutiva do sono. Mas a verdade é que nada disto abalou a nossa confiança e esperança em

Cristo Jesus. O Tiago tem sido uma ferramenta aguçada, usada nas mãos do oleiro para aperfeiçoar as nossas vidas, com ele aprendemos a apreciar mais as pequenas conquistas, a sorrir mais, a desfrutar mais a companhia uns dos outros, a praticarmos mais e melhor a entreajuda e partilha de tarefas. Mas acima de tudo, a vivência com o Tiago, levou-nos a buscar mais a Deus e a depender mais e mais dele. O Senhor não nos prometeu uma vida sem problemas, mas prometeu que estaria connosco no caminho, lembrou-nos que a Sua graça nos basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. (2Co 12.9)

Hoje o Tiago, segura a cabeça, consegue ficar sentado, corre a casa toda gatinhando, fica de pé, faz um monte de gracinhas, ama música, ama os papás, os 3 irmãos mais velhos e a pequena irmãzinha, avós e tios. Enquanto escrevo estas últimas linhas, o Tiago está atrás de mim a brincar com o seu brinquedo favorito, uma bola. Já precisa de muito pouca medicação e as terapias e consultas são agora bastante reduzidas. É certo que ainda não caminha, nem fala, mas a vida dele está nas mãos do único que tudo pode, daquele que lhe deu o dom da vida.

Do meu coração para o teu

Se tu que lês este texto, estás grávida e o presente que recebeste é idêntico ao nosso, não tenhas receio de o aceitar. É Deus quem te está a dar esse filho e também te dará a capacidade para o cuidares. Haverá dias que sentirás que não estás à altura, e é mesmo verdade, não estás! A única forma pela qual conseguimos é pela graça e misericórdia de Deus, mas na verdade não é assim com qualquer outro filho?

Os pensamentos e os caminhos de Deus não são os nossos caminhos, porque assim como o céu é mais alto que a terra, assim são os caminhos de Deus mais altos que os nossos caminhos e os seus pensamentos mais altos que os nossos. (Is 55.8-9)

Escrito por -

Susana Lopes é casada há 15 anos com o Pedro. Mãe do Miguel, da Rute, do João, do Tiago e da Maria. Congrega na Igreja Evangélica da Gafanha da Nazaré.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Discípulas de Jesus de diferentes denominações da fé protestante com o propósito comum de viver para a glória de Deus.
Social