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AdolescênciaEspelho meu, espelho meu!

Espelho meu, espelho meu!

“A Mariana (nome fictício) tem catorze anos e sonha em mudar a cor dos seus olhos. Gostaria que os seus olhos escuros como azeitonas se tornassem azuis. Nem as lentes de contacto coloridas lhe valeram, dando-lhes apenas uma tonalidade acinzentada. A jovem gostaria que o seu nariz fosse mais pequeno e os seus longos cabelos ondulados se tornassem lisos. Sofre diariamente por não corresponder ao ideal que gostaria de ser.”

A adolescência é um período em que a descoberta do “eu” revê-se e atualiza-se, como consequência de várias mudanças. Mudanças biológicas de um corpo que se transforma para atingir a maturidade. Mudanças cognitivas de uma mente que tem dificuldade em controlar os impulsos e que sente que é constantemente observada, a famosa plateia imaginária. Mudanças emocionais uma vez que os jovens recrutam mais rapidamente a amígdala para interpretar as emoções, tendo maior propensão a ler raiva ou agressão mesmo quando estas não existam. Mudanças sociais em que os amigos, os pares, se tornam na principal fonte de influência e que para se integrar, os jovens apropriam-se de características do grupo como a forma de vestir ou a linguagem.

A maioria das famílias encara a adolescência como sendo o período que acarreta mais receios, sobretudo devido aos ajustes do agregado em resposta às transformações abruptas desta etapa do desenvolvimento. Neste contexto pandémico, acresceram os desafios vividos pelos adolescentes, que se viram privados de sair com os amigos, de ir a acampamentos, de conhecer pessoas novas e mergulharam ainda mais num mundo virtual. As redes sociais possibilitaram a socialização, a partilha de fotos e vídeos levando a que os miúdos se sentissem menos sós. O perfil online tem sido um local onde os adolescentes se podem expressar, mostrar a sua irreverência e de partilhar a sua voz. Os diários de outrora têm vindo a ser substituídos pelos posts, sendo que muitos miúdos tendem a revelar mais acerca de si próprios online do que que offline.

Nas redes sociais a imagem impera, “vale mais do que mil palavras”, e por isso tem que ser perfeita. Escolhem-se os melhores ângulos, faz-se o melhor penteado, veste-se a melhor roupa, colocam-se filtros para enquadrar e embelezar. Fazem-se “cortes” no que não interessa, corrigem-se as imperfeições do rosto ou do corpo, disfarçam-se as olheiras, o acne e os quilinhos a mais. Faz-se tudo o que poderá produzir um maior número de “gostos”. Atualmente sabe-se que o nosso cérebro reage aos “gostos” de uma publicação, libertando dopamina que ativa rapidamente o “sistema de recompensa”, circuito que processa a informação relacionada à sensação de prazer e que procura a repetição do comportamento. Assim explica-se a “necessidade” de fazer novas publicações e a procura por mais “gostos”.

Os adolescentes (e não só) estão constantemente a compararem-se com os outros. No que concerne à imagem corporal, as raparigas parecem estar mais vulneráveis a comparações correndo o risco de baixar a perceção que têm de si próprias.

Os adolescentes comparam-se com a representação idealizada dos pares, não tendo a perceção que as representações online dos amigos nem sempre correspondem às suas versões reais. As imagens perfeitas são inatingíveis e fazem-se comparações com um ideal inalcançável levando a uma avaliação negativa do próprio. A investigação alerta que a exposição a conteúdos relacionados com a imagem corporal, tanto ao nível da publicidade como nas redes sociais, parece aumentar o risco de desenvolver insatisfação corporal. Infelizmente, parece que esta influência não é inócua, uma vez que a literatura revela que uma autoimagem negativa está associada a problemas nas relações com os outros, a menor rendimento escolar, sentimentos de incompetência para realizar determinadas atividades da vida diária e, por fim, a sentimentos de infelicidade e autodesprezo que invadem toda a pessoa.

O mundo virtual permite, por um lado, que os miúdos se expressem e tenham voz, mas também constitui um espaço para revelar as palavras mais cruéis. Por detrás de um écran escreve-se o que nunca se ousaria dizer em voz alta num contexto face a face. A distância leva a um desligar do impacto emocional das palavras sobre o outro e fazem-se apreciações negativas baseadas apenas em características corporais: o “bodyshaming”. Nas redes sociais raramente se partilha vulnerabilidade, enfado, desconforto, frustração ou fracasso, como se a vida fosse pincelada apenas por momentos idílicos ou de bem-estar, tal como a perfeição das imagens do “corpo ideal”. Quase como a ideia de que todos devessem ter o mesmo tipo de corpo.

Enquanto pais, o que poderemos fazer?

  •  Ajude os miúdos a compreender que para se poder ter experiências online é fundamental ter experiências offline. Decerto que o caminho não é privar os seus filhos do mundo virtual, adotando uma postura fundamentalista, mas sim ajudá-los a ter experiências reais. Os miúdos que estão somente a viver num “mundo virtual” estão a ser privados de um conjunto de vivências e oportunidades. Os adolescentes têm um cérebro em formação que requer de experimentação para se desenvolver de forma saudável. Incentivar os miúdos a fazer um desporto novo, a fazer voluntariado, a ir a um campo de férias é muito mais do que “ocupá-los”, é possibilitar que desenvolvam competências pessoais e sociais como saber conversar com o outro, saber esperar pela sua vez ou aprender a regular as emoções. Além disso, sabe-se que um fator de proteção para os adolescentes é o facto de pertencerem a vários grupos de pares distintos pois se houver alguma situação ou comportamento desadequado num contexto, terão relações alternativas, não ficando presos a relações difíceis com receio da solidão.
  •  Faça desde cedo com que o seu filho se sinta amado independentemente dos seus talentos ou habilidades. O discurso deve ser repleto de afeto e não de constante crítica. A correção do comportamento inadequado é fundamental, mas a crítica continuada destrói e deve ser evitada! Uma crítica tem mais impacto do que um elogio, por isso, há que ter em atenção à proporção das palavras que dizemos aos nossos filhos.
  •  Seja um modelo de comportamento para os seus filhos. Os miúdos aprendem pelo exemplo e terão mais probabilidade de filtrar o que os rodeia se tiverem oportunidade de observar os adultos significativos a ter um “espirito crítico” e a expressá-lo de forma adequada.

Por fim, enquanto cristã considero fundamental incentivar os seus filhos a procurarem a sua identidade em Cristo. A beleza da graça divina é que que não está mediante o bom desempenho, a “boa figura” ou a perfeição, mais emana de um Deus perfeito com um amor incondicional por pessoas imperfeitas. Se nos contos infantis perguntava-se ao mítico espelho “Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais bela do que eu?”, estimule o seu filho a reformular a questão e a dirigir-se à fonte de toda a sabedoria dizendo: “Senhor meu, Senhor meu, quem dizes Tu que sou eu?”

Escrito por -

36 anos, "muito bem casada" com o Pedro e mãe da doce Rebeca (8 anos) e do enérgico Tiago (5 anos). Membro da ICMAV (Igreja Cristã Manancial de Águas Vivas) em Polima. Psicóloga Infanto-juvenil desde 2008.

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