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Dos 16 anos à eternidade, a dor em meio à paz…

Falar da Catarina sempre será para mim uma forma de honrar a sua vida, e uma doce maneira de revivê-la, ainda que apenas no meu pensamento. Eu tinha 24 anos, e o meu marido 27, quando a nossa primeira filha nasceu, dia 27 de Abril de 2004.

Uma gravidez normal, de um filho tão desejado, dava bons indícios de que a criança seria uma criança saudável. No entanto, o percurso foi outro. Desde muito cedo se percebeu que algo não estava bem com a menina. Aos seis meses a Catarina ainda não segurava a cabeça, aos 4 anos não andava nem falava. E sendo muito fiel ao que senti na altura, houve momentos de questionamento a Deus. “Porquê? Porquê connosco?”. Não compreendia como Deus poderia ter-nos dado uma filha deficiente profunda, quando ambos O servíamos, O amávamos e como havíamos, mesmos sendo novos, dedicado a nossa vida à Sua Obra e ao Seu Ministério.

Rapidamente a pressão do mundo chegou à nossa casa. Procurar respostas, procurar soluções… um caminho infindável de buscas no meio da incerteza do que viria a acontecer. “Vamos tentar isto!” diziam uns, “Ouvi falar de médico num lugar” diziam outros.” “Ela ainda vai andar” ou ainda “A ciência está perto de encontrar a cura”. Enfim, as opiniões da família e amigos amontoavam-se na nossa cabeça, sem percebermos como Deus nos havia permitido passar por algo tão terrível. O diagnóstico chegou, a Catarina era portadora da síndrome de Rett, uma doença rara degenerativa, considerada severa, que afecta uma em cada 14 mil meninas. Os médicos informaram-nos que ela nunca andaria ou sequer falaria, e que a sua esperança de vida seria curta. Chegar à idade adulta seria um milagre. O nosso mundo desabou, mas o Nosso Deus não! Ele segurou-nos e aquietou-nos. Parámos. Deus não nos havia criado para a loucura e para o desespero da procura incessante da cura para a nossa filha. Afinal Ele era Deus! Ele podia curá-la como e quando quisesse. Nesse dia descansámos.

Com um grau de dependência superior a 95%, demos o amor e prestámos os cuidados necessários para que a nossa Catarina tivesse sempre qualidade de vida. Deus deu-nos a força, os recursos, e o ânimo para conciliarmos tudo. Família, ministério, emprego e não menos importante, a nossa fé!

No meio de tantas lutas a maior remonta ao dia 3 de Outubro de 2020, um sábado. A Catarina encontrava-se em mais um episódio de infecção respiratória, ainda que sem febre, havia passado todo o dia sonolenta. O dormitar dela era habitual, mas um dia inteiro? Algo não estava bem. Prestámos todos os cuidados habituais, ligámos ao médico que nos deu todas as indicações e aguardámos. O Filipe foi buscar a viola e chamou-me. Lembro perfeitamente dele me dizer: “Vamos orar aqui com ela e adorar um pouco”. Adorámos, chorámos, derramámos o nosso coração, clamámos por ela e numa oração sincera entregámos a Catarina nas Mãos do Único com poder total para curá-la ou para a levar para pertinho Dele, se essa fosse a Sua Vontade (foi a oração mais difícil da minha vida).

Depois disso ainda a levámos às urgências do Hospital, onde foi atendida e após alguma terapêutica, tendo melhorado substancialmente, mandada para casa. Nessa mesma madrugada, de 3 para 4 de outubro, ou seja, de sábado para domingo, ficámos a prestar cuidados à Catarina por turnos. Eu havia ficado com ela até sensivelmente às duas da manhã, e o pai ficou com ela a partir daí.

Fui tentar descansar no sofá, e dormi. Às seis da manhã ouço o Filipe chamar-me, “Sandra! Ajuda aqui!” Meio a dormir, meio acordada, fui a correr para o quarto dela, mas sabia que algo não estava bem, o Filipe nunca precisou de ajuda para cuidar da nossa princesa! Aliás, tínhamos um acordo, quando um cuidava dela, deixava o outro descansar e vice-versa, para não desgastar os dois…

A Catarina estava em paragem cardiorrespiratória. Fui directa ao peito dela, o coração não batia e ela não respirava. Em segundos estávamos a falar com a emergência médica, e eu, que tinha feito recentemente o curso de Suporte Básico de Vida (SBV), iniciei as manobras de reanimação à minha filha. Enquanto a deitava no chão e posicionava a sua cabeça numa almofada, clamava em alta voz, “Deus faz um milagre”, “Deus salva a Catarina, por favor Jesus” … As lágrimas caiam ininterruptamente, em cada massagem respiratória eu clamava em voz alta “Sopra vida Deus, sopra vida!”.

Em 8 minutos os médicos chegaram e, trocando de lugar comigo, continuaram a tentativa de reanimação.Os minutos pareciam uma eternidade, e passados mais de trinta, após a chegada da equipa médica, um braço tocou no meu ombro e uma das médicas perguntou-me: “O que é que você estava a dizer quando chegámos, enquanto tentava reanimar a sua filha? Estava a rezar?” – perguntou ela. E eu sem perceber exactamente o que se estava a passar, respondi: “Estava a orar a Deus, a clamar por vida na minha filha”. A médica olhou-me nos olhos, com o rosto coberto pela máscara e disse-me: “O seu Deus ouviu a sua oração. A menina voltou. Conseguimos reanimá-la.” A médica não me escondeu que o quadro era grave, muito grave… Mas, ainda assim, após tanto tempo, mais de 30 minutos, a menina voltou à vida.

“Com certeza vos asseguro que, se tiverdes fé e não duvidardes, podereis fazer não apenas o que foi feito à figueira, mas da mesma forma ordenardes a este monte: ‘Ergue-te daqui e lança-te no mar’, e assim acontecerá.” (Mateus 21:21)

Creio que estava decidida a hora da sua partida, mas o Nosso Deus é tão bom que nos deu quatro dias para nos despedirmos da nossa princesa. Ainda que em morte cerebral, nos cuidados intensivos do hospital, pudemos ajudar a dar-lhe banho, colocar creme no seu corpo e passar as noites ao seu lado ouvindo o bater do seu coração. Tivemos tempo para dizer-lhe tudo o que quisemos dizer-lhe, de orar por ela, de lhe cantar ao ouvido, de beijá-la e de lhe sussurrar ao ouvido vezes sem conta “te amo”.

Quando o seu coração parou, apenas me lembrava do texto de Cantares 2:12 “Já há flores pelo campo; chegou o tempo das canções; e ouve-se cantar a rola nos nossos campos”. O tempo de ela cantar finalmente havia chegado.

Várias vezes ouvi de pais que perderam os filhos a frase: “morre uma parte de nós”. Na realidade creio que essa “parte”, para nós cristãos, não morre. Apenas passamos a viver um pouco mais do céu, no nosso pensamento. Ficamos mais conscientes do lugar eterno onde mora hoje o nosso filho, e para onde iremos também um dia morar. O nosso dia aqui na terra passa a ser partilhado com o reino inabalável do Nosso Amado!

O PODER DO TESTEMUNHO

Tenho pensado muito no poder das palavras, e como elas são inspiradoras quando vêem de pessoas que verdadeiramente vivem o que falam…. É o poder do testemunho! A pregação de um pregador pode ser incendiada, apaixonada, cheia de conhecimento e de conteúdo e ao mesmo tempo vazia de práctica, de exemplo, de fé. Tenho sido cada vez mais desafiada a casar as minhas atitudes com as minhas palavras, e pude testemunhar esse poder explosivo da palavra associada ao exemplo de vida, quando a Catarina partiu para a eternidade.

De repente a minha vida estava numa vitrine e todos os que me conhecem e que não conhecem a Cristo, aguardavam a qualquer momento que a minha fé se manifestasse insuficiente, rasa, superficial, e que O Meu Deus não fosse suficiente na maior dor que um pai pode sofrer, a perda de um filho. Mas Ele fez-se presente, sempre, sempre! Como concordo com o salmista quando diz: “Se eu escalar o céu, aí estás; se me lançar sobre o leito da mais profunda sepultura, igualmente aí estás. Se eu me apossar das asas da alvorada e for morar nos confins do mar, …” (Salmo 139:8). Tudo aponta para Ele. Comigo não foi diferente.

Os dias que se seguiram não foram fáceis. Mentir-vos-ia se dissesse que não havia em mim um desejo de partir também e de me juntar a ela na adoração a Jesus, pelos séculos dos séculos. Mas não era chegado o tempo. A verdade é que a oração dos santos foi ouvida pelo Pai, e o Seu extraordinário consolo alcançou-me, a mim e à minha família. Dia após dia, pudemos sentir a cobertura espiritual pela intercessão de muitos a nosso favor. A certeza de que o próprio Deus está a cuidar dela, vingou no nosso coração. Sei que esta convicção é fruto de muita oração. Sou grata pela família de Deus, por cada um de vós.

Imaginá-la perfeita, sem aquela cadeira de rodas, livre da doença, rejubilante na presença do Rei dos reis, foi e tem sido um bálsamo para a dor. É praticamente impossível não nos lembrarmos dela todos os dias. Seja no seu aniversário, no Natal, ou quando vamos ao seu quarto… na realidade tudo em casa nos lembra dela, porque tudo, ou quase tudo girava à sua volta. Afinal de contas, ela era a princesa cá do sítio! A saudade é tão real e os momentos de tristeza, por vezes, intensos. Ainda assim, ambos se rendem à Paz, A Paz.

A paz que nos é prometida é real: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. (João 14:27)”. Essa paz é possivelmente o maior TESTEMUNHO que um cristão pode dar. Seja no meio de uma pandemia, seja na aflição de uma doença fatal, seja na perda dolorosa da morte de um filho, a paz de Deus reflete a nossa Fé.

Escrito por -

Sandra Calado tem 42 anos, casada com o Filipe e mãe da Catarina (que está com Jesus) e do Levi que tem 8 anos. Encontra-se em lista de espera para adopção. É licenciada em Comunicação e congrega na Igreja Presbiteriana Aliança da Graça.

2 Comentários

  • Tive o privilégio d conhecer a linda princesa Catarina. Amo esta família como se fosse minha família de sangue...e o é, pelo sangue de Jesus. Vocês são um exemplo de fé e resiliência amigos.

  • Marina Moraes

    Muito lindo este testemunho! Amo ler tetemunhos nos quais as pessoas dizem o que realmente pensaram. Não é falta de fé dizer o primeiro pensamento que passou pela mente. É humanidade! A fé é comprovada pela continuidade. A esperança que recebemos ao crermos que Deus escolheu a melhor forma de agir a todo momento presente e a todo momento futuro! Um beijão para vcs!

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