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FamíliaDe ventre e mãos vazias, mas nos braços de Deus

De ventre e mãos vazias, mas nos braços de Deus

A primeira perda

Escrevo este artigo com a consciência e que o vai ser tão difícil escrever, quanto o vai ser difícil ler, porque o assunto da perda gestacional é e será sempre um assunto difícil, a dor é profunda e até cortante, é uma dor crua e ingrata de sentir. Mas escrevo-o com a certeza de que por mais duro que seja, o Senhor prevalece sobre a dor e é Aquele que vem consolar o nosso coração e lembrar-nos que Ele é a nossa suficiência.

Em Fevereiro de 2019, engravidei do meu segundo filho. Janeiro tinha sido um mês muito difícil para a nossa família e até anunciava um ano difícil, de perda de emprego, mudanças de cidade e algumas mudanças de perspectiva de vida, mas aquela gravidez chegou como um bálsamo concedido por Deus. A minha primeira gravidez tinha corrido muito bem e a segunda gravidez foi recebida com uma alegria imensa e muita gratidão a Deus. Sempre fomos conscientes das fragilidades dos primeiros três meses de gravidez, e esperamos sempre pela primeira ecografia para dar a notícia. Assim foi e às 11 semanas vimos e ouvimos o nosso bebé, e estava tudo bem. Um mês e meio depois, quando tudo me parecia estar a correr bem, comecei com algumas dores intensas que só me pareceram estranhas por não passarem quando descansava. Perdi uma gota de sangue, mas mais por causa das dores fomos aconselhados a ir ao hospital, para ver se estava tudo bem com o bebé, um “descargo de consciência”. E lá fomos, eu, o meu marido e o nosso filho de 15 meses (na altura). Entrei sozinha no gabinete (porque tem que ser assim nas urgências), e não foram precisos muitos segundos de ecografia para perceber o que tinha acontecido. A primeira médica ainda foi chamar uma colega “posso ser eu que não estou a encontrar os batimentos”, mas a segunda só veio confirmar o que eu já tinha percebido: “não encontramos batimentos cardíacos”. Aquela frase rasgou o meu coração por completo. O bebé tinha parado de crescer às 14 semanas, mas o meu corpo só deu sinais disso às 17.  Nessa noite fomos para casa, chorámos, orámos e no dia seguinte, fui para o hospital para o meu corpo expulsar um bebé sem vida. Quando introduzi o texto dizendo que uma perda gestacional era de uma crueza imensa, foram palavras muito reais, saímos de uma maternidade de ventre e mãos vazias e isso é uma dor muito cortante. Mas ao mesmo tempo que entrei com o coração cortado, também entrei com uma certeza ainda mais profunda que a minha dor: que Deus é bom! Independentemente de eu não estar a perceber porque estava a passar por aquilo tudo e porque nunca iria conhecer o meu filho, sabia que aquele era o plano de Deus e o seu plano é sempre bom; para mim, para a minha família e para aquele bebé. Afinal, também ele tinha sido criado por Deus, à sua imagem e semelhança, Deus quis que ele só vivesse no meu ventre pouco tempo, mas nesse tempo ele não foi só amado por nós, também foi amado por Ele. Deus tinha os dias daquela criança amada contados, tal como tem os nossos (Jó 14.5) e acima de ser meu filho, aquele bebé pertencia a Deus. Foi Deus quem nos deu aquele bebé e foi ele que determinou o tempo que ele estaria connosco. Na noite anterior a ter ido para o hospital, o meu marido disse que tínhamos muito que agradecer a Deus por ter tido aquele bebé connosco, ainda que por pouco tempo. E é verdade, temos muito que agradecer por esse bebé e houve um versículo em particular que nos ajudou a entregar a Deus tudo o que estávamos a passar, em Job 1.21b: “Saí nu do ventre O Senhor o deu, o Senhor o levou; louvado seja o nome do Senhor”.

Um novo bebé, uma nova perda

Dois meses depois, descobri que estava grávida. E se subitamente nasce um rio de esperança em nós, também nasce medo. Mas o que podia ser uma nova vida, voltou a ser uma nova dor. Às 10 semanas de gravidez, volto a ter sinais de perda, desta vez mais evidentes. Percebi o que ia acontecer e fui o caminho do hospital a orar: “por favor Senhor, que eu não ouça a frase: não encontramos batimentos cardíacos”. E não ouvi. Ao fim de uma ecografia e algumas confusões, percebemos que era uma gravidez anembrionária, ou seja, uma gravidez que não se desenvolveu. E voltou tudo outra vez: a dor física, a dor emocional e desta vez, uma dor espiritual mais profunda. O Espírito Santo permitiu-me dirigir essa dor para o caminho certo: Deus. Levei-lhe muitas questões, muitas dúvidas, muitos lamentos e lágrimas sem fim. As nossas expectativas familiares tinham sido mais uma vez esmagadas (sim, esmagadas é a palavra certa para uma perda) e nós não sabíamos porquê. Mas a graça de Deus é imensa por nos ajudar a dirigir as dúvidas e os lamentos para Aquele que é a fonte da vida. Olhar para Deus no meio da dor é reconhecer que só Ele nos pode consolar e que Ele é quem controla tudo o que acontece nas nossas vidas. Não vamos ter as respostas que se calhar buscávamos, as nossas circunstâncias não vão mudar, mas o Senhor vai-nos mostrar que a Sua presença é o melhor lugar onde podemos estar. Demorei a sarar física e espiritualmente, demorei a submeter-me, mas o Senhor foi paciente e bondoso comigo. Não é fácil entregar e confiar a Deus os nossos sonhos e Deus usou a perda para trabalhar isso no meu coração. É fácil dizer que desejamos que Deus faça a Sua vontade nas nossas vidas, mas não é fácil viver o sofrimento que Deus traz às nossas vidas. Mas também esse sofrimento tem um propósito bom e um propósito que acima de tudo é para a glória do nosso Deus. Mais importante do que termos o que desejamos, é percebermos que já temos tudo o que precisamos: o próprio Deus. E se o Senhor é capaz de enxaguar todas as nossas lágrimas (Mt.5. 4), quanto mais as lágrimas da perda de um filho, uma dor que Ele conhece tão bem e de forma ainda mais profunda do que nós. Deus deu-nos esse Seu filho que viu morrer, deu-nos para que também nós lhe pertencêssemos (Jo. 3.16). Deus deu-nos o Seu Filho para que Ele pudesse ser a nossa fonte de consolo e alegria. Foram meses duros a perceber isso, a entregar a Deus o meu coração, contar-lhe que desejava mais filhos para a nossa família, mas a viver uma verdadeira entrega de que esse podia até nem ser o plano Dele, mas que o plano Dele é sempre bom, mesmo que no imediato não me parecesse.

Um novo bebé, uma nova esperança

Quis Deus que eu voltasse a engravidar mais ou menos um ano depois da primeira perda. As primeiras semanas de gravidez foram intensas, precisei de orar muito para entregar a minha ansiedade ao Senhor. Ansiedade que se reflectia até em coisas pequenas. O Senhor não só precisou de me relembrar do que era submeter-me e confiar Nele, como me lembrou que Ele era a minha paz (1 Pe. 5.7). Paz essa que poderia significar que eu passasse por outra perda, mas essa é a paz de Deus, uma paz que não depende das circunstâncias. Pela graça de Deus, a gravidez foi até ao fim sem qualquer tipo de problemas e hoje, temos o nosso filho nos braços. É importante na cura da perda perceber que um filho não substitui os outros, cada um tem o seu lugar na nossa família. Deus amou cada um dos nossos filhos por igual e nós também. Também o consolo do Senhor já tinha vindo antes deste bebé, porque o nosso consolo foi Ele mesmo e era o consolo que precisávamos para abraçarmos este bebé lembrando aquilo que ele é: uma prenda de Deus. Quando ele nasceu não nos esquecemos de que temos quatro filhos, mas apenas dois deles o Senhor nos deu para educar. Pensar assim ajuda-me a ter os meus olhos no sítio certo: a lembrança de que tudo vem de Deus e que tudo lhe pertence. Ajuda-me a ser mais grata e submissa aos seus planos. Ajuda-me a lembrar que Deus cuida de nós na dor e na alegria, e que a nossa família Lhe pertence.

Não é e nunca será fácil escrever sobre perda gestacional, afinal estamos a falar de um luto por alguém que não chegámos a conhecer e isso pode parecer estranho. Mas nós amamos aqueles filhos que não vimos nascer com vida e precisamos de chorá-los, de entregar o nosso lamento a Deus, pedindo-Lhe que nos ajude a descansar nos seus planos. Há muitas mães a passar por este sofrimento, lembrem-se que não estão sozinhas, Deus está de braços abertos para vos consolar e receber as vossas dúvidas. E Deus também usará outras mães para o fazer. Fui muito abençoada por outras mulheres que passaram pelo mesmo sofrimento, cuidaram de mim em oração e sustento emocional. Entreguemos o nosso coração ferido a Deus, pois Ele é amoroso e limpará as nossas lágrimas com a Sua graciosa presença.

 

Obs.: Texto escrito em português de Portugal. Esta plataforma não obedece ao Novo Acordo Ortográfico e respeitas as regionalidades da Língua Portuguesa de acordo com a origem de suas autoras.

Escrito por -

Ana Nunes Reinaldo tem 31 anos, é casada há 5 anos com o Tito, mãe do Lázaro, do Nicodemos e de dois bebés que não conheceu. Frequenta a Igreja da Lapa, em Lisboa, cidade onde nasceu.

2 Comentários

  • Maiara Evangelista

    Ana, obrigada por compartilhar o seu coração ❤️. Passei por uma situação semelhante, a minha filhinha nasceu com 25semanas gestacionais e Deus nos permitiu ficar com ela diante 4 maravilhosos e intensos dias e então Ele a recolheu. E no meio disso tudo, Papai me chamou para passar essa tempestade com Ele, foi aí que perdi em sua beleza e encontrei Nele a Esperança, Cristo em nós, esperança da glória. Ele é suficiente e Nele não há falta. Fazem 11 meses que minha filhinha se foi e hoje estou com 13 semanas de gestação. A Valentina sempre será a minha filhinha, a irmã do meio dos meus filhos. O que o Senhor ministrou muito sobre mim é que Ele é bom, apesar das terríveis circunstâncias, Ele é bom e os que olham para Ele ficam radiantes e em seus rostos não têm sombra de decepção.

  • Rachel Brandão

    No meu caso, não tive a prenda. Apenas as duas perdas. Está muito difícil superar porque não posso mais ter filhos, pois já tenho 43 anos.

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