cremosescreva • contribua

Blog

AdoçãoDiário de Adoção #04 – De estranho a filho amado

Diário de Adoção #04 – De estranho a filho amado

* Por Carol Bazzo

O processo de adoção em minha vida na posição de mãe e no modelo de adoção tardia1 foi a experiência em que mais aprendi sobre a beleza da vida humana criada por Deus. A minha família primária e a vida de casada já tinham me ensinado muita coisa. Eu aprendi sobre relacionamentos, intimidade, amor, conflitos, o que é ter que respeitar os outros em suas diferenças e conheci a sensação de “estar em casa” ou “estar em família”. Mas ainda assim, ter filhos por meio da adoção foi até agora a maior fonte de aprendizado de todas!

Quando os meninos vieram para casa em meados de dezembro de 2019, eu estava eufórica e feliz com essa nova fase que tanto desejei e esperei. Mas, por outro lado, eles eram duas crianças estranhas para mim. Quando uma mãe tem o seu bebê por vias naturais, ela passa nove meses carregando-o no ventre, depois, meses e meses amamentando-o. Ela reconhece seu choro por fome ou sono, o vê engatinhar, ouve as primeiras palavras, assiste seus primeiros passos, conhece todas as suas manias, sabe o que ele gosta ou não gosta. No fim, a mãe acaba se tornando uma enciclopédia do seu próprio filho. No caso da adoção tardia é diferente, pois seu filho já tem vários anos de vida. Já é um serzinho desenvolvido, tem seu jeito, seus gostos, manias, sua própria visão de mundo. Ele, inclusive, costuma ser independente e forte porque, afinal, sobreviveu à muita coisa. E, se formos bem honestos, apesar de sermos mães e pais diante de nossos filhos, somos também completos desconhecidos.

Lembro que nos primeiros meses, eu ainda me pegava com a sensação de que eles eram hóspedes em nossa casa. E talvez eram mesmo. Tudo era novo para as crianças, eles não sabiam onde ficavam as coisas na casa e nós ainda estávamos na posição de anfitriões mostrando e apresentando tudo. Cada vez mais à vontade, eles soltavam histórias do passado, informações que ninguém nunca tinha nos contado (e talvez nem eles tinham contado para ninguém). Tudo era novo.

Mas ali começava nosso relacionamento e, então, realmente iríamos nos conhecer. Eu iria descobrir que eles não gostavam muito de desenho animado, mas preferiam filmes com gente de verdade. Que o Gabriel solta o pum mais fedido da família toda, e o solta com maior frequência também; que quando ele tem sono fica bravo, mas acorda carinhoso e feliz. Descobriria que ele tem cabelo cacheado e os cachinhos mais perfeitos! Descobriria que o Miguel gosta de música, é criativo, ama ajudar em tudo e sua cor preferida é verde. Descobriria também que ele consegue acompanhar o pai até de madrugada vendo filme e continua acompanhando ele dormindo até tarde pela manhã – enquanto eu e o Gabriel nos prostramos perto das nove da noite. Em poucos meses, descobrimos tanta coisa!

Aos poucos, ficou claro para nós a personalidade de cada um, o jeito, as formas de se comunicar, as maneiras diferentes de se sentir amado. Desde o começo, sempre deixamos os meninos muito à vontade para trazer à mesa a vida e a história deles. Ou seja, deixamos o ambiente tranquilo para eles serem eles mesmos conosco. Alguém me ensinou da importância de deixá-los à vontade, respeitar os gostos, ser paciente com os erros esperando os vínculos serem criados. Eles cantavam sertanejo, funk, música pop, falavam de pipa, motos. A gente só colocava limites em palavrões e coisas imorais, ou coisas realmente erradas. Às vezes, eu e o Angelo até cantamos e dançamos algumas músicas. Lembro que, um dia, o Gabriel me pediu para fazer arroz doce, que ele gostava muito. Eu nunca tinha feito, mas fiz pela primeira vez e acabou se tornando a sobremesa mais comum em casa.

Nesse sentido, preciso dizer que o meu marido fez um excelente trabalho. Os meninos cantavam funk; o que o Angelo fez? Contou a história de onde o funk original surgiu, mostrou as versões antigas, apresentou o hip-hop, o rap, o trap. Mostrou playlists de bons cantores cristãos e não-cristãos. Na época, o Kanye West tinha lançado o álbum King Jesus e o Miguel se apegou fortemente à faixa Closed on Sunday. Até hoje, se você pedir para ele escolher uma música e ele estiver sem ideia, ele dirá Closed on Sunday.

Assim como deixamos os meninos bem à vontade em nos apresentar os gostos e cultura deles, também ficamos à vontade para apresentá-los aos nossos gostos e à nossa cultura. E, é claro, sermos pais! Todo bom pai e boa mãe que se preza ensina certo e errado, belo e feio e por aí vai. Não nos intimidamos em apresentar nosso mundo a eles. Livros, igreja, nossas comidas preferidas, viagens, amigos, Bíblia e até um golinho pequeno de café!

E é aí que entra a história do skate. O Angelo amava skate na infância e andava (sem muito sucesso) na adolescência. Na fase adulta, ele ficou satisfeito somente em assistir campeonatos e vídeos no YouTube. Quando decidimos ser pais do Miguel e do Gabriel (bem antes deles virem pra casa), uma das primeiras coisas que fizemos foi comprar um skate. No coração do Angelo, era aquela coisa de pai: “meu filho vai ter um skate”. O que se pode traduzir como “esse é o legado esportivo que eu quero passar”. Na primeira visita que os meninos vieram conhecer a nossa casa, experimentar andar de skate foi uma das grandes atividades. E, sem que eu percebesse, eles aprenderam a andar. Ir na pista de skate no final da tarde e “ver skate com o pai na TV” aos finais de semana tornaram-se liturgias familiares. Hoje, o skate é uma coisa tão dos meninos que, às vezes, até esqueço que foi o Angelo que começou com isso. Eles absorveram a cultura do pai completamente.

Nesses dias iniciais, a gente também iria conhecer o pior um do outro. Não preciso nem entrar em detalhes e contar como eles reagiram depois que passaram os dias de “lua-de-mel”2 e tiveram que lidar com os “nãos” do pai e da mãe. Sim, presenciamos: gritos, palavrões, portas batendo, criança correndo, explodindo, quebrando coisas. Eles também presenciaram: mãe chorando, pai falando bravo, “você vai ficar de castigo”, mãe falando bravo, pai chorando. Durante essa fase, foi muito importante para mim estar perto de outras famílias com crianças. Puder ver que qualquer criança (adotada ou não) dá trabalho!

Essa cena expressa nossa adaptação. Eu no meu canto fazendo o que gosto e o Miguel no canto dele fazendo o que ele gosta. Nós dois juntos, plenamente à vontade.

 

Também foi essencial estar próximo de famílias por adoção e conhecer suas histórias e entender as fases pelo qual crianças e pais adotivos passam. Mas agora não quero falar sobre as dificuldades, quero falar sobre a beleza de se tornar família.

Deus nos criou para relacionamentos. Quando, no Éden, o Senhor declarou sobre Adão “não é bom que o homem esteja só” essa não era uma verdade apenas para o sexo masculino, era uma verdade sobre todos nós. Ninguém nasceu para viver sozinho, isolado, sem pai, mãe, irmãos, parentes, amigos, vizinhos. Como um reflexo do nosso Criador, fomos criados para viver em comunidade. E isso não significa apenas ver pessoas, dar “bom dia” ou oferecer e receber serviços, isso significa relacionamento, intimidade.

Existe uma sensação tão boa de chegar em casa e ser você mesmo, sem medo, sabendo que você é amado sem precisar fazer nada para conseguir isso. O primeiro lugar onde as relações profundas acontecem, ou pelo menos deveriam acontecer, é na família. Quem vive um processo de adoção, até o fim, experimenta a beleza de ver uma família nascendo diante dos seus olhos. Você vê um estranho se tornar um filho amado. Você vê amor nascendo onde, antes, não existia absolutamente nada. Foi o maior milagre que eu já vi diante dos meus olhos e que experimentei nas minhas entranhas.

Os cachinhos do Gabriel, uma das coisas que não sabíamos e descobrimos depois.

 

Hoje, chegar em casa e não ver o Gabriel e o Miguel assim que abro a porta é muito estranho. Não encontrar tênis e meia espalhado pela casa é muito estranho. Ver o Angelo e a Carol passeando de carro sem ver duas cabecinhas no banco de trás é estranho. Em poucos meses, eles se tornaram tão conhecidos e familiares como nós mesmos.

Se um dia eu passasse na rua na frente da casa de acolhimento onde o Miguel e Gabriel moravam e os visse na calçada, eles seriam para mim como outras crianças quaisquer. Talvez eu nem olhasse para eles. Mesmo que falassem, gritassem, seria apenas sons de meninos na rua para mim. Mas hoje em dia, eu posso estar falando ao celular, conversando com amigos, vendo televisão, lendo um livro ou quase dormindo, se escuto o som da voz de um deles meu coração fica em estado de alerta. Meu cérebro de mãe já se acostumou à missão de que eu vivo para cuidar deles e meu coração já se rendeu ao amor completo a eles. Não consigo dormir sem antes conferir se o cobertor está bem colocado por cima dos corpinhos, nem consigo sair do quarto escuro sem dar uns bons beijinhos e cheirinhos no pescoço. O amor nasceu em mim. Eu vi ele nascer, brotar e crescer até se tornar um sentimento que parecia sempre estar ali.

1Termo utilizado para se referir à adoção de crianças mais velhas.

2No mundo da adoção é comum utilizar a expressão “lua-de-mel” para se referir à primeira fase, em que os filhos e os pais estão se curtindo, se conhecendo e ainda não entraram na fase da rotina, normalidade e quando as crianças podem ficar mais à vontade expressando quem são em suas fraquezas e até mesmo testando os pais. A fase mais difícil, que costuma ser temporária, às vezes é chamada de “lua amarga”.

 

 

Escrito por -

Carol tem 31 anos e é esposa do Angelo, mãe de Miguel e Gabriel. É professora de História da Igreja e mestranda em Teologia Histórica. Vive em Monte Mor e serve na Igreja Cristã Convergência.

Discípulas de Jesus de diferentes denominações da fé protestante com o propósito comum de viver para a glória de Deus.
Social