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AdolescênciaUma explosão silenciosa: jovens cristãs e o vício em pornografia

Uma explosão silenciosa: jovens cristãs e o vício em pornografia

Aviso: o artigo a seguir contém relatos que podem servir de gatilhos para certas pessoas. Leia com discernimento.

*Por Cecilia J. D. Reggiani

No fim de 2020, o Benditas realizou uma pesquisa online com mais de 5,6 mil participantes falantes da língua portuguesa em busca de maior compreensão sobre a sexualidade da mulher cristã contemporânea. Nosso objetivo é desenvolver materiais de apoio que as auxiliem em suas principais áreas de necessidade, dúvida ou interesse. Também desejamos que essa iniciativa sirva às igrejas e ministérios paraeclesiásticos de maneira que suas ações estejam de fato alinhadas com a realidade da mulher cristã que vive os desafios do século 21, e não baseados em estereótipos e achismos. 

Uma das áreas avaliadas foi o consumo de pornografia e masturbação. Os dados coletados pela pesquisa demonstraram que 65,85% das mulheres já fez ou faz uso eventual de material pornográfico, como vídeos, filmes, livros e outros. Esse número corresponde à mulheres de várias faixas de idade, dos 13 aos 70 anos, mais especificamente, espalhadas pelo Brasil (88,94% das participantes são brasileiras), Portugal (9,43% são portuguesas) e outros 26 países. 

Em meu último texto para a série #SegundasdaSexualidade, abordei superficialmente o estereótipo de como conversas sobre sexo normalmente são direcionadas para o público jovem na igreja. Basicamente, mulheres falam (ou ouvem) sobre virgindade e homens sobre pornografia. Os dados coletados em nossa pesquisa, porém, demonstram que para as mulheres e adolescentes das duas últimas gerações (apelidadas de Geração Z, que nasceu entre 1995 e 2010, ou seja, de pessoas até 25 anos e Geração Y, as millenials, nascidas entre 1980 e 1995), a ideia de que mulheres cristãs não consomem e muito menos viciam-se em pornografia é um estereótipo obsoleto. 

Quando analisamos os dados com mais critério, a constatação de que as coisas estão muito diferentes do que há apenas 20 anos torna-se alarmante. O consumo de pornografia por mulheres de até 25 anos é quase 36,74% mais alto do que a da geração anterior (nascida entre as décadas de 1980 e 1995), e 974,3% maior se comparado com a geração de suas mães (ou de mulheres nascidas entre as décadas de 1960 e 1980). 

Se comparado apenas os resultados do “uso eventual” de pornografia, o salto geracional fica ainda mais patente, com um aumento de 75,96% entre as gerações Y e Z (25 a 40 anos vs. 10 a 25 anos) e de 2058% entre as X e a Z (40 a 60 anos vs. 10 a 25 anos). 

Outros dados também chamam a atenção. Entre as mulheres que responderam, 52,51% afirmam enfrentar dificuldades em sentir prazer sexual. Essa estatística contempla particularmente mulheres casadas, mas é uma realidade também para a geração Z. Além disso, entre as participantes, 59,4% responderam que não se sentem atraentes ou apenas ocasionalmente. 

O que esses números têm em comum? Muita coisa. As mulheres em nossas igrejas estão, em grandes números e diferentes faixas etárias, lutando com problemas sexuais graves e uma percepção pessoal baixa de si mesmas. Quando casadas, têm dificuldades em sentir prazer. A grande maioria luta para gostar do que vê no espelho e muitas, especialmente as mais jovens, recorrem para o sexo em terceira pessoa que a pornografia oferece para encontrar alguma satisfação. A moça amadurece odiando o espelho, aprende a lidar com a própria sexualidade de maneira superficial e impessoal, e, quando casa (40,12% das participantes são casadas e 57,81% são solteiras) não consegue ou tem dificuldades em sentir prazer com o cônjuge. 

Além da pesquisa, nós também recebemos o relato de diversas mulheres, dos 17 aos 38 anos, que enfrentam ou já enfrentaram o vício em pornografia. Suas histórias, contadas sob total sigilo e discrição, nos oferecem uma visão de quão usual esse problema tem se tornado entre as cristãs mais jovens e o quão profundamente negligenciadas elas têm sido por suas igrejas locais. 

Este será o primeiro de alguns artigos sobre essas questões concernentes ao uso da pornografia. Além delas, entrevistamos especialistas, pastores e aconselhadores. Ao longo dos próximos meses, iremos explorar como chegamos aqui e também o que podemos fazer para melhor “carregarmos a carga uns dos outros” (Gl 6:2) e mudarmos um cenário tão carente do poder transformador do evangelho.

Histórias que começam na infância

“Eu tive contato com a pornografia muito cedo, acho que desde uns 12 anos de idade. No início, eram só fotos, afinal eu não sabia muito pesquisar e não tinha celular”, 24 anos, Natal. 

“Com 12 anos, assisti meu primeiro vídeo de pornografia com meu primo”, 20 anos, de Belo Horizonte.

“Meu primeiro contato com a pornografia foi acidental, aos 10 anos de idade”, 23 anos, de Belo Horizonte.

“Não me lembro exatamente com quantos anos, mas creio que a curiosidade de saber o que era o sexo surgiu quando estava no 5° ano. Passava as manhãs sozinha em casa e assim tinha a ‘liberdade’ de buscar essas coisas na internet”, 17 anos.

Minha experiência com a pornografia começou aos 12 anos (hoje tenho 25)”, Anônima. 

Comecei a acessar pornografia por curiosidade, sem nenhuma intenção de prazer. Tinha uns 12 anos e acessei pelo meu computador (meus pais nunca controlaram o que acessava). Depois de acessar uma ou duas vezes, a curiosidade era outra: masturbação.  Dali em diante, desandou tudo”, 20 anos, São Paulo.

Meu envolvimento com a pornografia começou na minha adolescência por volta dos 14/15 anos, quando criei um blog na plataforma Tumblr. Nessa época, eu já me masturbava, não com frequência, porque sempre tive a sensação de que não era certo, mas já o fazia desde meus 11 anos (quando, a partir de um livrinho sobre sexualidade para crianças, descobri que o clitóris ao ser tocado ‘dá uma sensação gostosa’)” 25 anos, Belo Horizonte.

Desde muito nova, sempre fui refém do pecado da pornografia. Com mais ou menos 13 anos, isso já havia despertado em meu ser, e fugir desse vício era algo quase impossível”, 18 anos. 

 

Após ler dezenas de relatos, alguns padrões destacam-se em todas as histórias. Muitas vezes, a sensação é a de que são todas narrativas de um mesmo roteiro, mas vivido por personagens diferentes. Em suas descrições, as mulheres apontam para uma apresentação muito precoce à materiais eróticos, por vezes de maneira desavisada ou acidental, como no caso uma moça de 23 anos moradora do Espírito Santo, que encontrou “revistas nas pastas de desenhos do tio” ou a de outra mulher da mesma idade e residente em Belo Horizonte que acidentalmente foi exposta a cenas pornográficas “na casa de uma amiga”, quando tinha 10 anos, ao ouvir “CDs de seu irmão mais velho em um aparelho de DVD, e um dos discos era de conteúdo pornográfico”.  Ela conta que a experiência a “deixou realmente traumatizada” e diz que “são imagens que tenho em mente até hoje”. 

Por vezes, a exposição precoce também é acompanhada por situações de abuso, todas elas perpetuadas por familiares próximos, como primos, tios ou irmãos. Outra testemunha de 20 anos conta que teve “contato com pornografia muito nova, não lembro exatamente que idade, mas foi através de primos e um desses primos abusou sexualmente de mim por alguns anos”. Uma mulher de 25 anos relata que “a primeira lembrança de contato com a pornografia foi por volta dos 7/8 anos. Nessa mesma época, um tio meu começou a abusar de mim”. 

Há, porém, situações em que as moças iniciaram seu envolvimento com a pornografia de maneira mais sutil e deliberada, com o consumo de literatura erótica, por exemplo, ou ao buscar assistir conteúdos “normais”, mas com cenas sexualizadas, como em séries e filmes disponíveis na televisão. Essa é a história de uma mulher de São Paulo, que aos 18 anos começou a ler contos eróticos, depois passou para histórias em quadrinhos (bandas desenhadas) e  finalmente recorreu aos vídeos, quando percebeu que as histórias já não eram “tão interessantes”. Ela conta que o acesso logo tornou-se vício: “sempre que eu ficava triste, ou entediada, tinha vontade e ia assistir”.  Após anos sofrendo sozinha, ela buscou ajuda e tem conseguido superar a dependência. Hoje com 24 anos, ela diz estar “há 248 dias sem acessar conteúdo erótico algum. Deus tem me ajudado demais e sei que é uma luta que eu vou ter pela minha vida toda”. 

Outro fator que se repete entre os testemunhos é a falta de educação sexual e diálogo aberto com os pais. Uma moça de 25 anos conta que nunca conversou com os pais sobre o assunto e durante a infância “não havia liberdade para que perguntasse nada, porque sexo ou qualquer coisa relacionada a isso não era assunto em nenhum momento dentro da minha casa”. Esse também foi o ambiente familiar de uma testemunha de 22 anos residente em Curitiba. Ela relata não ter recebido nenhuma educação sexual e que “quando tentava comentar sobre algo relacionado, minha mãe e minha avó ficavam extremamente desconfortáveis, não sabiam mesmo como lidar”. Outra moça de Curitiba, hoje com 23 anos, conta que sua mãe, após descobrir vídeos íntimos dela em seu celular, repreendeu a filha dizendo que a masturbação “eram demônios tocando em meu corpo”. Ela diz que a “bronca” não adiantou e ela sentia-se “suja e culpada”.

Ao final de alguns dos relatos recebidos, inclusive, algumas das mulheres fazem pedidos semelhantes ao seguinte, feito por uma mulher de 25 anos e que luta com a pornografia há mais de 10: “ Pais, conversem abertamente com seus filhos sobre tudo. Criem um ambiente onde eles confiem em vocês. Não tenham medo de compartilhar suas histórias (que não foram perfeitas), seus erros, seus conselhos, e os ajudem a carregar seus fardos, pois ou eles crescerão pessoas inseguras ou fechadas, ou eles vão encontrar respostas em outros lugares, o que é um risco muito grande. Sejam pais, mas sejam maduros. E busquem isso na Palavra”.

Uma moradora de Fortaleza de 26 anos também escreve: “Parece que a gente não leva a sério que as crianças absorvem o que veem, que são curiosas para tudo. Temos de estar atentos a todo conteúdo que elas têm acesso, saber se é apropriado para a idade. E o mais importante, o diálogo, principalmente na adolescência. Sexo era tabu na minha casa, então tinha coisa que eu pesquisava porque se eu perguntasse a alguém da minha família, virava discussão. Era bem complicado”.

Desdobramentos na vida adulta 

As consequências da exposição e consumo precoce de pornografia revelam-se ao longo dos anos, especialmente quando buscam desenvolver relacionamentos mais profundos, sejam eles amorosos ou não. Aos 26 anos, uma mulher do Rio de Janeiro conta que, mesmo após se livrar do vício, ela ainda se encontra “em um lugar de batalha” e que a pornografia deturpou seu “jeito de enxergar as pessoas e as relações”. Sua luta é para “manter um olhar de santidade no mundo à volta”. Envolvida nesse universo desde a adolescência, ela confessa que se sente desesperançosa: “Dentro de mim tudo parece inerte, indiferente, anestesiado. Quanto mais perto da pornografia eu estou, mais longe de mim mesma eu fico. Estou sem forças, me arrastando sobre o resquício de confiança que ainda tenho de que Deus pode um dia mudar essa situação”. 

Uma testemunha de Fortaleza, hoje com 26 anos, conta que a sua visão sobre o sexo tornou-se extremamente negativa, “a tal ponto que eu tinha MEDO de transar. Quando me casei, foram dias para conseguir ter relações com o meu esposo. Ficava nervosa, tensa, uma sensação de que algo terrível fosse acontecer. Teve uma noite que eu chorei angustiada, ele ficou sem entender”. 

Aos 20 anos, uma testemunha de São Paulo está há algum tempo sem “cair nessa área”, mas tem percebido como outros contextos foram afetadas pelo vício em pornografia. Ela escreve que ao estudar sobre satisfação em Deus, percebeu o quanto associa qualquer espécie de prazer ao sexo. “Nada fora da esfera sexual é prazeroso. É uma mentira que meu coração criou e que eu tenho que quebrar”, desabafa.

Na vida de outra moça, de 24 anos e residente na região de Natal, os efeitos da pornografia também se intensificaram após o nascimento de seu primeiro filho. Envolvida com a pornografia desde os 12 anos, ela relata ter desenvolvido baixa autoestima e dificuldades para aceitar o próprio corpo, “por causa de toda bagagem pornográfica que eu tive. É algo que fica na mente ‘se você não tiver o corpo delas, seu esposo não vai te desejar’”. 

Por vezes, o mero consumo já não é suficiente e busca-se por outras etapas de envolvimento, como fez uma testemunha de 22 anos, de Curitiba,  em momentos “em que nem a pornografia era suficiente, então eu me expunha e aparecia sem roupa para homens desconhecidos em sites da internet”. 

A pornografia homossexual 

O consumo de pornografia homossexual também foi um fato frequente entre os relatos. Para algumas, essa escolha é atrelada com a atração de fato por outras mulheres, mas para outras, está relacionada com o tipo de material produzido. Como uma delas explicou, “na pornografia, o sexo entre homem e mulher é muito mais objetificado, mais violento”. Nas palavras de uma testemunha de 23 anos, “aprendi desde cedo que os corpos das mulheres são objetos de prazer e automaticamente foi isso que busquei. Ao assistir aquelas imagens, eu não desejava as mulheres, mas me colocava em seus lugares emulando na minha mente o prazer que elas estavam sentindo, a fim de que eu sentisse também”. 

Nos casos em que as mulheres também têm atrações homossexuais, o início do uso da pornografia e a percepção desses desejos nem sempre estão atrelados. Uma moça de São Paulo conta que sente a atração por pessoas do mesmo sexo desde a infância, mas que essa “luta real mesmo começou quando já era adulta” e se intensificou, indo para o consumo de “pornografia do tipo hardcore”. Outra mulher do Rio de Janeiro relata que sente atração homossexual desde a adolescência, mas o consumo desse tipo de pornografia começou mais tarde, depois dos 22 anos, com o uso das redes sociais. “Pornografia heterossexual passou a ser nojento para mim, enquanto a homossexual, atrativa”, conta. 

“Durante muito tempo, achava que estava no corpo errado, pois o que eu ouvia era que pornografia e masturbação era problema de homem. Achava que estava sofrendo sozinha.”

A vergonha, o medo e os estereótipos têm sido a companhia da grande maioria das mulheres que nos enviaram suas histórias. Suas lutas são travadas sozinhas, entre pequenas vitórias e o medo de que a próxima recaída seja a “vez que já não tem mais perdão”, como escreveu uma delas. 

Há situações em que elas conseguem pedir ajudar e ser acolhidas por amigas, namorados ou maridos e aconselhadoras mais velhas, porém, na maioria das vezes, o que se passa é uma batalha solitária em que se veem como as únicas pessoas no mundo a lutar contra esse pecado. “Acredito que se houvesse essa liberdade, outras meninas também conseguiriam se abrir mais e pedir ajuda”, escreve uma testemunha, “penso que alguém precisa dar o primeiro passo de se abrir e assim deixar as outras à vontade para falar. É aquela história de ‘nossa, você também passa por isso, achei que era só eu’, mas é muito difícil ser essa pessoa a dar o primeiro passo”.

Agradecemos a cada uma das mulheres que deram esse primeiro passo, mesmo que virtual e anonimamente, e compartilharam conosco as suas lutas e histórias. A explosão silenciosa do vício em pornografia precisa ser conhecida pela igreja, e nós cremos que a coragem de vocês ao quebrar o silêncio ajudará a fazer isso.

Se você leu esse artigo e também gostaria de compartilhar seu relato conosco, mande-nos um e-mail para relatosanonimosbenditas@gmail.com. Em breve, publicaremos novos artigos sobre esse assunto.

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça.” 1 João 1.9

“Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão; olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo.” Gálatas 6.1,2

“Enquanto eu mantinha escondidos os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. Pois dia e noite a tua mão pesava sobre mim; minhas forças foram-se esgotando

como em tempo de seca. Então reconheci diante de ti o meu pecado e não encobri as minhas culpas. Eu disse: “Confessarei as minhas transgressões”, ao Senhor, e tu perdoaste a culpa do meu pecado.” Salmos 32.3-5

“Está alguém entre vós aflito? Ore. Está alguém contente? Cante louvores. Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor; E a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis. A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos.” Tiago 5.13-16

 

Obs.: Texto escrito em português do Brasil. Esta plataforma não obedece ao Novo Acordo Ortográfico e respeitas as regionalidades da Língua Portuguesa de acordo com a origem de suas autoras.

Discípulas de Jesus de diferentes denominações da fé protestante com o propósito comum de viver para a glória de Deus.
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