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AdoçãoDiário de Adoção #02 – Dos filhos sonhados aos filhos reais

Diário de Adoção #02 – Dos filhos sonhados aos filhos reais

*Por Carol Bazzo

Eu sempre falo que adoção é uma forma como qualquer outra de começar uma família e, assim como a concepção, a gravidez e o parto têm suas peculiares, a adoção também tem. Mas se há uma coisa no processo da adoção que achei a mais esquisita de todas foi o momento de definir o perfil da criança que você pretende adotar. Pior que isso, só o momento de conhecer a criança e ter de decidir se aquele será seu filho ou não. Para mim estes foram dois dos momentos mais difíceis. 

Quando um homem e uma mulher têm relação sexual, eles não podem decidir se aquele ato específico vai gerar uma vida ou não, nem podem decidir se a mulher vai engravidar de um, dois ou três filhos. Da mesma forma, se engravidar, não podem escolher se o filho vai vir negro, branco ou pardo, com cabelo cacheado, liso ou sem cabelo nenhum. Não podem decidir se a criança nascerá com alguma doença ou deficiência, nem como será sua personalidade. Mas na adoção é diferente; os futuros pais têm o poder de escolha. Soberania de Deus e responsabilidade humana é uma dinâmica interessantíssima no mundo da adoção. Aqueles que sofrem crises em relação à vontade de Deus na escolha do cônjuge estão no “jardim da infância” comparados à escolha de um filho por vias adotivas. Não é algo simples. 

Eu com cerca de três anos no colo da minha mãe.

Como disse no diário anterior, eu e o Angelo começamos a tentar ter filhos depois de um ano de casados. Quando ainda éramos noivos, eu fui visitar a minha futura sogra na casa dela, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul. Não sei se já disse, mas eu sou nordestina. Nascida em Fortaleza e criada em Recife por pais baianos. O Angelo é gaúcho, e é ruivo. Apesar dele sempre contar para mim o quanto sofreu bullying na escola e o quanto, na infância, desejou ser um jogador de basquete negro, eu sempre amei o fato dele ser ruivo. Em relação às nossas diferenças culturais (nordeste vs. extremo sul do Brasil), sofremos um pouco no início do casamento, entretanto, eu e ele nos descobrimos muito mais cosmopolitas (ou mais paulistas!) do que nordestinos e gaúchos (apesar de amarmos nossas cidades).

Fotos do Angelo pequenininho que roubei da minha sogra.

De volta à minha sogra, naqueles dias em que a conheci, a casa onde o Angelo cresceu e as histórias da família, chegamos às fotografias. Antes disso preciso esclarecer algo: minha sogra é uma pessoa que ama memórias e tem um trabalho de arquivamento que pode deixar muito museólogo no chinelo. Consegue imaginar que ela tem guardado um pedaço do cabelo do Angelo de quando ele era bebê? Sem contar desenhos, roupas, cartões, e muito mais. Há pouco tempo, ela nos mostrou um recibo de aluguel de quando o pai do Angelo alugou um aparelho para assistir um filme em fita k7. Não era o aluguel do filme em fita VHS. Era o aparelho, ou seja, ninguém tinha em casa e por isso alugava o aparelho que rodava a fita. Quando ela me mostrou as fotos do Angelo pequeno eu simplesmente me apaixonei novamente por ele. Como no filme O Curioso caso de Benjamim Button*, eu amei ele em todas as versões. 

O Angelo foi um bebe ruivo gordinho e lindo, depois uma criança ruiva com cara de sapeca digna de filme. Minha mãe também tinha muitas fotos minhas quando pequena, e eu gostava da minha versão infantil. Eu tinha cabelos cacheados, sempre baixinha, rechonchuda, fofa e envolvente em todas as fases enquanto criança. Para mim, o negócio estava fechado, teríamos filhos lindos! Não éramos um casal bonito, mas poderíamos fazer filhos bem melhores. Dentre muitos outros motivos mais importantes, saí do Rio Grande do Sul contente e grata pelo marido e nova família que Deus estava me dando. 

Mini Angelo.

 

Volto ao primeiro ano de casada. Abandonamos o anticoncepcional, começamos a sentir o frio na barriga, medo de ter filhos mesmo com poucas condições financeiras e um casamento ainda imaturo. Mas, ainda assim, estava animada. Um menino ruivo? Uma menina ruiva? Dois gêmeos ruivos? Se não vier ruivo, não me ofenderei, prometo. Um menino de cabelos pretos? Uma menina linda de cabelos cacheados? Como vai ficar minha barriga? E o quarto do bebê? Ninguém viu, mas eu pensei muito em como seriam meus filhos e como tudo seria. Eu os imaginei de tantas formas diferentes que nem consigo contabilizar. 
Nem gravidez e nem os bebês ruivos chegaram. O medo de ter filhos transformou-se em espera, ansiedade, tristeza e tédio. Os longos dias de espera arrancaram de mim uma poesia:

Amiga de Sara

Eu fico olhando para minha vida
e pensando o que será que Ele está fazendo por mim
O que está fazendo de mim
Em todos seus caminhos, decisões e tempos

Ele está me fazendo amiga de Sara
Amiga daquelas que aprendem a esperar
Que sorriem na cara de Deus
Hora por dúvida, hora por alegria da certeza

Às vezes a gente sorri de cansaço
Algumas vezes o sorriso pode ser dor escondida
Às vezes é medo, desespero
Sara riu porque achou o milagre muito grande para ela
Tão grande que parecia piada

Na nossa ingenuidade, Deus,
às vezes a gente ri de você e é pura falta de fé
Não conhecemos teus caminhos
E até aonde tua mão pode levar

Mas na tua brandura, você também ri de nós
Pai paciente e bondoso
Faz do meu riso de desespero
Um filho de alegria

Honestamente, e sem vanglória, não fui uma mulher que esperou filhos chorando. Sei que muitas choram o choro de Sara, Rebeca e Raquel (as mulheres estéreis da Bíblia). Eu chorei, mas não muito. Os meus quase nove anos de casada funcionaram quase como uma “solteirice para Deus”. Trabalhei muito, me dediquei ao ministério, acompanhei meu marido em viagens, dormi tarde, acordei tarde, aproveitei o silêncio da minha casa, curti a gravidez de minhas amigas com elas, peguei os filhos delas emprestado aos finais de semana e, finalmente, me tornei a tia preferida entre eles. 

A adoção sempre esteve em nosso coração, mas agora, depois de anos, tinha chegado a hora de levá-la a sério. Tudo ao nosso redor nos levava a esse caminho. Houve um dia em especial que a dor da casa vazia apareceu. Eu tinha decidido comprar uma mesa maior para nossa sala de jantar. Costumávamos estar sempre com a casa cheia e a nossa sala, na época, era gigante. Encomendei uma mesa retangular de oito lugares (mas cabiam até dez pessoas). Ela chegou e a sala ficou linda, vibrante. Fomos eu e o Angelo almoçar nela pela primeira vez e senti a dor do vazio de não ter filhos bagunçando aquela mesa. Em muitos sentidos, minha vida era perfeita, mas ainda assim minha feminilidade queria trocar fraldas, esquentar comida, arrumar bagunça e ficar mais cansada no fim do dia. Não é estranho isso? Só pode ser Deus! 

Dou um salto agora para o dia da entrevista com a psicóloga e assistente social na Vara da Infância, em abril de 2018. No início do processo, na fase em que nos tornamos um casal habilitado para adoção,  o “casal pretendente” (como costumam ser chamado) passa por entrevistas com uma equipe de psicologia e assistência social, além do curso preparatório (que para nós foi muito útil para entendermos como funciona esse mundo). Em algum momento dessa preparação e inscrição, o casal precisa responder um questionário informando o perfil da criança desejada. É aconselhado que o casal converse muito e reflita com calma antes da fornecer a resposta para a equipe. O perfil pode ser modificado posteriormente, mas penso que a honestidade em relação ao tipo de criança que temos condições emocionais e físicas de adotar é uma das chaves para o sucesso na adoção. 

Eis aí, porém, um momento dramático da adoção: qual criança quero adotar? Refazendo a pergunta, que criança posso (ou devo) adotar? Se eu seguisse meus sonhos da adolescência matrimonial meu pedido no balcão seria: “um bebê recém-nascido, menino, ruivo, por favor!”. Ah, mas se fosse assim tão fácil eu pediria um bebê na minha barriga. Por que o Senhor não me permitiu engravidar, se a gravidez foi um negócio inventado por ele mesmo? Nossos desejos nem sempre são atendidos por Deus. Que bom por isso! E que mistério é isso!

Uma verdade chocante e importante no mundo da adoção (e isso eu aprendi no curso preparatório oferecido pela Vara) é que precisamos evoluir do “filho idealizado” para o “filho possível”. Precisamos ser realistas: se você quiser adotar uma menina bebê ruiva no Brasil, seu tempo de espera é em média 10 anos. Talvez você não saiba desses dados, mas em nosso país temos 34.378 pretendentes disponíveis à adoção no Cadastro Nacional e apenas 9.162 crianças e adolescentes disponíveis para adoção**. Por que a conta não fecha? Porque os perfis desejados não batem. 

Há uma triste verdade sobre maternidade e paternidade que é pouco falada no nosso meio, especialmente o cristão. É que ser mãe e pai nem sempre é sobre amor sacrificial e altruísmo. Pais e mães podem ser as pessoas mais egoístas, orgulhosas e maldosas. Pais e mães podem ser competitivos, podem usar seus filhos para tentar reparar seus fracassos pessoais, podem fazer do filho seu ídolo. Quantos pecados há na paternidade e na maternidade que ainda estamos a descobrir! Alguns eu descobri cedo, antes de meus filhos chegarem. Eu queria filhos ruivos porque queria ter filhos mais lindos do que os dos outros. Queria os filhos mais inteligentes, para mostrar o quanto sou capaz de educá-los e treiná-los. Queria os filhos mais santos, para mostrar como somos bons pastores na igreja, como em casa. Eu queria os melhores, porque eu me considero a melhor. Confesso, sou uma pessoa que se preocupa com o que os outros pensam. 

Quando vi o Miguel e Gabriel pela primeira vez, eu não senti meu coração aquecer, não achei eles as crianças mais lindas do mundo, nem as mais lindas da casa de acolhimento. Nenhum anjo desceu do céu, Deus não me deu nenhum sinal! Apesar dos nomes perfeitos (o que combina muito bem com o nome do pai), em nada eles combinavam com meus sonhos. Mas eu já havia abandonado os sonhos da adolescência. A cada encontro com eles eu me apaixonava por algo. No fim da fase de encontros, eu só pensava neles e como pessoa prática que sou, já tinha comprado um quarto inteiro pra eles, mesmo sem saber que adoção estava aprovada. Meus utópicos bebês ruivos desapareceram e deram lugar a dois meninos de 7 anos e meio, morenos, magricelos, mal vestidos, que não sabiam ler e com um histórico de hiperatividade, déficit de atenção e transtorno opositivo-desafiador (ou, em palavras mais fáceis: inquietos, agitados, desobedientes e agressivos). 

Eu segurando a foto que tiramos no corredor antes da entrevista da Adoção. Ao fundo, Gabriel e Miguel.

 

Hoje, exatamente agora, enquanto escrevo esse texto na mesa retangular de dez lugares, eles estão sentados no chão da sala brincando de jogar a bola um para o outro sem muita velocidade para não quebrar as coisas, exatamente do jeito que pedi. Miguel já me beijou, já veio conversar umas milhões de vezes, sempre me fazendo desconcentrar. Gabriel já me abraçou, me perguntou que dia é hoje e o que temos pra fazer. Meus filhos são incríveis! São lindos, amorosos, inteligentes e divertidos. Não consigo imaginar nossa família sem eles. Considero que hoje, na prática, entendo a passagem:

“”Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos’, declara o ­Senhor. Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos; e os meus pensamentos,  mais altos do que os seus pensamentos.”
Isaías 55.8-9

* No filme, Benjamim Button tem uma doença fictícia onde ele nasce velho e vai ficando novo à medida que os anos passam. Na meia idade ele conhece a mulher da sua vida, mas o tempo passa de uma forma diferente para eles. Ao final do filme, ela está velhinha e ele um bebê que ela, agora está cuidando. Esse filme me leva a refletir  que o verdadeiro amor matrimonial vai além da fase em que somos jovens adultos bonitos.  

** Dados do (SNA) Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, disponível no painel do (CNJ) Conselho Nacional de Justiça. Disponível: <https://paineisanalytics.cnj.jus.br/> (visualizado em 21 de fevereiro de 2021).

 

Obs.: Texto escrito em português do Brasil. Esta plataforma não obedece ao Novo Acordo Ortográfico e respeitas as regionalidades da Língua Portuguesa de acordo com a origem de suas autoras.

Discípulas de Jesus de diferentes denominações da fé protestante com o propósito comum de viver para a glória de Deus.
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