Ensino público, privado ou doméstico?

Nota da editora: O seguinte artigo é a tradução de uma entrevista em áudio disponível no site Desiring God. Em Portugal e no Brasil, as legislações sobre modalidades de ensino são diferentes das dos EUA e devem ser consideradas pelas leitoras. Acreditamos que a situação imposta pela quarentena provocada pela pandemia do Covid-19 seja uma excelente oportunidade de reflexão sobre as escolhas educacionais que os pais cristãos têm feito e como essas escolhas impactam o discipulado de seus filhos, os relacionamentos familiares e a distribuições de responsabilidades dentro e fora da família. 

Escola pública. Escola particular. Escola online. Ensino doméstico. Quais são os prós e os contras dessas opções? E como decidimos a opção certa para os nossos filhos? A pergunta hoje vem de Lauren:

Pastor John, olá! Pesquisei há um tempo para ver se disse alguma coisa sobre a ensino doméstico e não consigo encontrar nada. O que acha? O ensino em casa é obrigatório para os cristãos do nosso tempo? É possível que a escola pública possa ser uma opção que agrade a Deus? O que você pensa considerando escolas cristãs públicas, privadas locais, online, ensino doméstico e escolas ligadas a uma igreja local? Tem algum conselho sobre como devemos pesar cada opção e combiná-las para cada um dos interesses e necessidades de cada criança que somos chamados a criar?

Fico feliz com a pergunta, porque quanto mais vivo, mais preocupado fico com a forma como educamos os nossos filhos. Deixe-me ler quatro passagens das Escrituras, e depois traçar um princípio, e então fazer algumas aplicações.

Quem é responsável?

Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças.
E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração;
E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te.
Deuteronómio 6.5-7

Porque ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e pôs uma lei em Israel, a qual deu aos nossos pais para que a fizessem conhecer a seus filhos;
Para que a geração vindoura a soubesse, os filhos que nascessem, os quais se levantassem e a contassem a seus filhos;
Para que pusessem em Deus a sua esperança, e se não esquecessem das obras de Deus, mas guardassem os seus mandamentos.
Salmo 78.5-7

Ouvi, filhos, a instrução do pai, e estai atentos para conhecerdes a prudência.
Pois dou-vos boa doutrina; não deixeis a minha lei.
Porque eu era filho tenro na companhia de meu pai, e único diante de minha mãe.
E ele me ensinava e me dizia: Retenha o teu coração as minhas palavras; guarda os meus mandamentos, e vive.
Provérbios 4.1-4

E vós, pais, não provoqueis à ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor.
Efésios 6.4

Então, aqui está o princípio que vou extrair dessas passagens. Deus designou as famílias, e os pais em particular, para assumir a responsabilidade de educar os filhos no conhecimento e nas habilidades necessárias para serem cristãos maduros e frutíferos no lar, na igreja e no mundo. Esta é a minha conclusão.

Cinco princípios para os pais

Aqui estão algumas implicações que eu vejo.

1 – Isso implica que pais e mães farão escolhas educacionais que fortaleçam a verdadeira compreensão de Deus por uma criança; a verdadeira compreensão da natureza humana, masculinidade, feminilidade, história, igreja, mundo – física e socialmente – com as ferramentas necessárias para uma destreza e vocação úteis. Por outras palavras, é responsabilidade dos pais – não da igreja, nem do governo – moldar a visão de mundo de uma criança de acordo com a verdade saturada pela Bíblia, exaltada por Cristo e centrada em Deus.

2 – Quanto mais complexo, tecnológico, diversificado e global o mundo se tornar, mais os pais precisarão considerar fazer parceria com outros para cumprir as suas responsabilidades para com os filhos. As crianças poderão necessitar de conhecimentos e ferramentas que nem sempre os pais lhes consigam transmitir.

3 – À medida que os Estados Unidos se tornam mais amplamente seculares com compromissos – não apenas ideias, mas compromissos – que não são neutros, mas anticristãos, tanto na visão de mundo quanto em numerosas questões morais e de fé, a parceria com professores de escolas públicas para atingir objetivos bíblicos para nossos filhos se torna, ano após ano, menos viável ​​- e, de facto, em muitos casos, impensáveis.

4 – Mais e mais pais e mais e mais pastores, portanto, devem considerar seriamente a possibilidade de iniciar escolas cristãs academicamente excelentes e acessíveis. As limitações financeiras são o que faz com que a educação pública seja a principal escolha entre muitos cristãos. É grátis. Se custasse tanto ir a uma escola pública quanto a uma escola cristã academicamente excelente, com certeza milhões de pais cristãos escolheriam escolas cristãs excelentes. Então, é uma questão de dinheiro. Portanto, uma implicação da visão bíblica da educação é que equipas de pais, juntamente com a liderança da igreja, devem criar milhares de excelentes escolas cristãs, juntamente com alternativas criativas, como cooperativas ou aprendizagem online.

5 – Pais e igrejas precisam pensar profunda e sabiamente sobre o princípio de “separado do mundo pelo bem do mundo”. Deixa-me repetir: separado do mundo pelo bem do mundo. Este princípio sempre foi verdadeiro. Sempre foi nosso dever em vários graus de ligação cultural.

Jesus disse em João 15.19: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia”. Ou João 17.14-15: “Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou [aos discípulos], porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal”.

Educação no mundo real

Eu acho que a maioria dos cristãos ainda não despertou para a crise do mundanismo e da fraqueza na igreja, e parte disso tem a ver com a educação que estamos a dar aos nossos filhos. Educação não é evangelização. Por outras palavras, não devemos justificar para onde enviamos os nossos filhos, porque pensamos que eles devem ser evangelistas quando têm apenas 8 anos. Deus não pretende que as crianças cristãs sejam ensinadas por incrédulos e sejam cercadas a maior parte do dia por intensa pressão de colegas não cristãos. Não é para isso que serve a infância. A infância serve para ser moldado e moldado por adultos cristãos sábios e amorosos.

Agora, isto não é fugir à realidade assim como a Academia Militar West Point não foge à realidade, porque nesta Academia os instrutores são soldados americanos, não são soldados do ISIS. Preparamos um bom exército para o envolvimento com o inimigo, e não o fazemos com a ajuda do inimigo. Nós, cristãos, preparamo-nos para a máxima fidelidade no mundo, saindo do mundo para a educação dos nossos filhos.

Haverá tempo e maneiras de conhecer o mundo e conhecer o mundo de frente. Lembro-me de quando pensei acerca disto, quando os meus filhos estavam no ensino básico. Todos frequentaram uma escola cristã, enquanto morávamos no mundo real. E nós nem tínhamos televisão. As pessoas diziam: “Como é que os seus filhos vão conhecer o mundo?” Eu disse: “Vá lá fora”. Basta ir ao centro da cidade e ter sua bicicleta roubada, ou assistir a um homem a discutir com outro homem, ou a andarem à pancada. Existe mundo real lá fora. Tu não precisas trazer o mundo para a tua casa para ensinar os teus filhos a conhecer o mundo.

Temos as mãos cheias; Eu sei isso. Temos as mãos cheias. Não há garantias, nem positivas nem negativas, de que nossos filhos possam ser poderosos no Senhor se os educarmos em casa. Não há garantias disso. E não saberemos se eles no fim se tornarão cristãos nominais comprometidos se frequentarem a escola pública. Não há garantia nenhuma. Podemos perdê-los ou conquistá-los de qualquer maneira. Deus tem a última palavra, a nós cabe-nos orar sinceramente, desesperadamente, e fazermos o melhor que podemos com a educação deles.

 


Sobre o autor
John Piper é fundador e professor do site desiringGod.org e chanceler do Bethlehem College & Seminary. Por 33 anos, ele serviu como pastor da Bethlehem Baptist Church, nos EUA. Ele é autor de mais de 50 livros.

 


Por John Piper. © Desiring God Foundation. Original: ​PUBLIC, PRIVATE, ONLINE, HOMESCHOOL?.
Traduzido com permissão por Ana Rute Cavaco. Revisado por Cecilia J. D. Reggiani

Um comentário sobre “Ensino público, privado ou doméstico?

  1. Fui evangelizada pela primeira vez no Colégio Batista Mineiro. Recordo muito bem das aulas ministradas pela Tia Sheila (jamais esqueceria o nome dela) e das assembleias que aconteciam lá semanalmente, quando hinos eram entoados e a Palavra de Deus era pregada de forma lúdica e muito carinhosa para crianças e adolescentes. Recordo também de minha prima mais velha, Juliane, reunindo a mim e outros primos para passarmos uma semana em sua casa, onde ela dividiu vários textos bíblicos para nos ensinar em cada dia, de um jeito muito criativo e organizado. Por estes motivos que valorizo tanto a educação cristã em conjunto com a educação das demais matérias estudantis. Claro que o fundamento é o lar, mas também acredito na importância das crianças socializarem umas com as outras e aprenderem juntas.

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