Uma vida de oração

No famoso sermão do Monte, além de descrever o carácter e como vive o verdadeiro cidadão do céu, Jesus também faz referência ao assunto da oração. Tenho visto ao longo dos anos que este é um tema na vida do cristão que cai nos dois extremos: há quem ame, há quem não goste; ao examinar esse fenômeno, parei por algum tempo em Mateus 6.5-13.

Começa assim o tema:

E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes. Mateus 6.5-8.

A primeira palavra que me chama à atenção é “quando”, ou seja, é esperado que o cristão ore: não é “se”, mas “quando” orar. Logo, não é uma opção, é um requisito. A lei judaica orienta todo o judeu a orar três vezes ao dia, no entanto, pode-se fazer a coisa certa com o motivo e atitude errados, pois  se o fazemos de forma a que todos saibam que estamos a fazê-lo, somos hipócritas porque esperamos ser vistos e apreciados pelos homens ( e muitas vezes o homem somos nós mesmos ao sentir a auto-satisfação de cumprir o mandamento), e esse é o nosso galardão apenas. Nada mais vai acontecer, nada mais há a receber. A partir do verso 6, Jesus indica qual a boa atitude e motivação: a de procurar a intimidade com Deus e ser visto apenas por Ele, pois Dele vem a recompensa  – como diz o final do verso 6 de Hebreus 11 – Ele é galardoador dos que o buscam.  Desmistificando a questão do lugar de oração, apesar de Jesus se referir ao aposento e fechar a porta, o próprio orava no monte, no jardim.  A questão não é o lugar em si mesmo mas a motivação com que se faz.

Mais advertências que Jesus nos dá: “Não useis de vãs repetições”, o que são? A palavra de Deus ensina em Tiago 1.22: “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos com falsos discursos”.

Quantas vezes já oramos pelos nossos inimigos, por quem nos fez mal dizendo “Senhor abençoa fulano…”? No entanto, não queremos (de fato) que Deus abençoe essas pessoas e, saindo desse momento, falamos mal delas e esquecemos o que pedimos porque, na verdade, não oramos com desejo nem convicção. Quando oramos só porque fica bonito dizer certas coisas, mas não queremos fazer a nossa parte, ou achar que repetir o Pai Nosso vai fazer algo acontecer,  isso são vãs repetições.

Depois no verso 8, algo muito interessante: Jesus afirma que o Pai sabe o que necessitamos antes de pedirmos. Pois bem, será que Jesus é contra pedirmos? Não, logo em Mateus 7.7 lemos: “Pedi e dar-se-vos-á”. Então, por que preciso pedir se Deus sabe o que preciso? Porque sou eu que preciso estar consciente de que eu preciso Dele e dependo Dele Sempre!

Ele é Deus e nós não!

Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! Jeremias 17.5

A palavra oração aqui usada é Proseuchomai:
Euche – prece a Deus que inclui fazer um juramento. Euchomai -–invocação, pedido, súplica. Pros – Na direção de (Deus).

Oração implica consagrar, pedir e louvar: estes três elementos estão interligados e não são distintos uns dos outros e muito menos não é uma fórmula para a oração certa. A oração certa é aquela que vem de um coração puro diante do Senhor, pois um coração contrito o Senhor não despreza!

Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus. Salmos 51.17

A partir do verso 9, Jesus  dá-nos um exemplo de como devemos orar , não para repetição de palavras apena, mas de princípios de vida do cidadão dos céus. Ele começa por dizer: “Pai”, o que Ele quer dizer com isto? Se Deus é Pai, nós somos seus filhos! Significa que há um relacionamento com laços inquebráveis, Pai será sempre Pai e filho será sempre filho. Há um laço estabelecido para sempre de pertencimento, afinidade, intimidade e proximidade.

Mas, depois, Jesus diz: “Nosso”. Percebo que Jesus  mostra que Deus não é só meu, é também Pai dos meus irmãos. Não estou só, tenho uma família, não somos filhos únicos, temos um sistema de suporte a quem Ele chama de Igreja. Por isso Hebreus diz:

Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia. Hebreus 10.25

“Que estás no céu” – Deus tem uma posição de autoridade e soberania, Ele habita no alto, Ele governa sobre tudo e de mim também.

“Santificado seja o teu nome” – a palavra santificado é Hagiadzo que significa separar e também distinguir, revelar, evidenciar, fazer notório, destacar. Assim podemos ler:

Distinguido entre os demais nomes ( não é um nome qualquer, é o nome acima de todo o nome – Filipenses 2.9-11, Deus revela-se ao longo da Biblia com vários nomes) para que Ele seja evidenciado, notabilizado, não confundido com outro, para que se conheça a diferença entre Deus e os demais deuses, que seja destacado, visto claramente seja de que distância for. E tudo isto em “Santificado seja o teu nome”!

“Venha o Teu reino” – quem tem reino é rei. Deus é Rei! Ele é soberano, Senhor e Dono de tudo. Ele tem o governo e Ele estabelece as regras. Nós somos seu reinado, “E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo”  Êxodo 19.6. Ou seja, quando declaramos venha o teu reino, estamos a pedir que o governo de Deus esteja sobre a nossa vida. Ele dita as regras e não nós. Por isso a próxima coisa lógica a pedir é que a vontade de Deus seja feita, não só no mundo em geral, mas em nós que somos embaixadores de Cristo, habitação do Espírito Santo, seja feita a vontade do Senhor na nossa vida, em mim como a vontade do Senhor é feita no céu. O que existe no céu? Ordem, harmonia, beleza, que haja essas coisas no nosso coração, no nosso carácter.

“O pão nosso” – que é o alimento material e o espiritual. Jesus é o pão da vida ( João 6.35), nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que procede da boca de Deus (Dt 8.3).

Os filhos dos leões necessitam e sofrem fome, mas àqueles que buscam ao Senhor bem nenhum faltará. Salmos 34.10

Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono. Salmos 127.1,2

Que o suprimento venha na estação própria, vivamos o hoje com gratidão.

Leia Mateus 6.25-33

“Perdoa as nossas dividas como nós perdoamos aos nossos devedores” – Jesus usou a mesma palavra que está em Lucas 13.4 acerca da Torre de Siloé para culpados – Opheiletes – Alguém que deve uma obrigação moral, transgressor, agressor, delinquente: divida – devedores. Se tivermos dificuldade em reconhecer a nossa dívida com Deus, que foi saldada em Jesus Cristo pelo seu muito amor com que nos amou, nunca seremos capazes de estender graça e misericórdia a quem nos ofende.

Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo. Tiago 2.13

Leia Mateus 18.23-35; Lucas 7.36-47

“Não nos deixes cair em tentação” – As nossas tentações não vêm do exterior, não é Deus, nem as pessoas que nos tentam, mas vem do nosos interior, do nosso coração.

Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte. Não erreis, meus amados irmãos. Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Tiago 1.13-17

Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. Mateus 15.18,19

O próprio Jesus advertiu: “E quando chegou àquele lugar, disse-lhes: Orai, para que não entreis em tentação”. Lucas 22.40

Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados.  2 Pedro 2.9

Em mim não há força por isso uno-me à maior força do universo, a força do Pai, em oração pedindo a Sua intervenção, não nas minhas circunstâncias, mas no meu coração, nos meus desejos.

Após tantas palavras na primeira pessoa do plural, Jesus faz uma mudança drástica e notável, Ele passa a dizer: “porque Teu é o reino, teu é o poder, tua é a glória”. Segunda pessoa do singular. Tudo é de Deus e o facto de nós querermos, pedirmos e vermos a acontecer todas estas coisas maravilhosas em nós através da oração, a glória de tudo isso pertence única e exclusivamente a Deus.

Qual é o galardão de uma vida de oração?

Glorificar a Deus pela transformação do nosso carácter, em verdadeiros cidadãos dos céus.

A todos os que são chamados pelo meu nome, e os que criei para a minha glória: eu os formei, e também eu os fiz. Isaías 43.7

Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus. Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus. Como também eu em tudo agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar.  1 Coríntios 10.31-33

E peço isto: que o vosso amor cresça mais e mais em ciência e em todo o conhecimento, para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo; Cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus. Filipenses 1.9-11

Orar não é fazer uma check-list.
Orar é uma busca por glorificar a Deus pelo facto de ter um relacionamento com Deus, devido ´à uma busca intensa e intencional, um aprofundamento do conhecimento de Deus, estreitar laços com o Pai e ser transformado de dentro para fora!

 


Sobre a autora
Célia Fidalgo é casada, tem cinco filhos e dois netos. Licenciada em Relações Internacionais, congrega na Igreja Lighthouse, em Portugal. Seu maior desejo é continuar a conhecer ao Senhor e ser eficaz na comunicação do Evangelho de Jesus Cristo.

 

Um comentário sobre “Uma vida de oração

  1. Texto edificante.
    Ressalto o parágrafo: “Quantas vezes já oramos pelos nossos inimigos, por quem nos fez mal dizendo “Senhor abençoa fulano…”? No entanto, não queremos (de fato) que Deus abençoe essas pessoas e, saindo desse momento, falamos mal delas e esquecemos o que pedimos porque, na verdade, não oramos com desejo nem convicção. Quando oramos só porque fica bonito dizer certas coisas, mas não queremos fazer a nossa parte, ou achar que repetir o Pai Nosso vai fazer algo acontecer, isso são vãs repetições.”

    Confesso que já passei por isso. Não é fácil orar por aquele que te faz mal de forma intencional. Mas Deus transforma. Diariamente Ele nos ensina que é nosso dever O Glorificar!
    Obrigada pelo artigo.
    Que bênção.

    Curtir

E você, o que acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s