“Uma palavras às mães cansadas”

Esta tem sido uma frase recorrente em meu feed das redes sociais. Uma rápida procura no Google e você encontrará muitos materiais em blogs com títulos derivados deste: “às mães cansadas”, “exaustas”, “em apuros”, “palavras de conforto às mulheres”. A abundância repetitiva desses conteúdos faz-me questionar se a Igreja de Cristo não tem visto nada de errado em tudo isso. Não me entenda mal, eu não tenho nada contra os materiais voltados às mulheres e tenho total ciência de que todos estamos sofrendo com o ritmo frenético em que vivemos, mas parece-me que, mais do que qualquer pessoa, as mulheres cristãs, em especial, estão encontrando dificuldade para descansar.

O meu ponto principal aqui é que não devemos normalizar essa exaustão da qual as mulheres parecem estar cativas. E vou dar exemplos reais: no grupo de estudos de mulheres que participo em minha cidade, já se tornou corriqueiro ouvir coisas do tipo: “gostaria muito de participar das reuniões, mas agora sou casada”; “Gostaria de escrever materiais para os estudos, mas tenho dois filhos”; “Eu posso confirmar minha presença depois? É que meus filhos estão de férias e não consigo enviar mensagens”. E, inclusive, eu mesma já ouvi: “nossa, mas você casou e continua participando do grupo com todo mundo? Pensei que você ia sumir uns anos para poder se adaptar”.

Para além da questão de organização e inexperiência, reconheço que, embora a chegada de um novo ser ou de uma nova etapa da vida balance as estruturas de todos, acreditar que a única coisa que podemos fazer por essas mulheres é dar a elas palavras de consolo é um tanto irresponsável de nossa parte. Já estamos calejados de pregações e estudos sobre como é prejudicial a dicotomia  sagrado/secular, sobre viver a vida cristã em sua integralidade e evitar antagonismos que, na prática, não existem, e no entanto, aceitamos a divisão pagã da família em problemas de homens/problemas de mulheres.

Somado a isto, a resposta que temos dado a essa dicotomia é a massificação de conteúdos sobre feminilidade e masculinidade e materiais cheios de estratégias de como a mãe cansada pode manter sua comunhão com Deus: “leia textos devocionais no Instagram”; “Escute a bíblia em áudio enquanto cuida das crianças”; “Ore enquanto lava a louça”. A meu ver, essas não passam de medidas paliativas, que se não estiverem unidas a um coração que tem tido tempo de qualidade para buscar a Deus, não são páreas o suficiente para o bombardeio diário do secularismo em nossas vidas. Sob minha perspectiva, além de tratarem apenas os sintomas, revelam o tamanho da nossa preguiça em pensar estruturalmente como ajudar a família a crescer e se fortalecer integralmente.

UMA PALAVRA AOS HOMENS

Se formos sinceros, sabemos que os homens em nossas igrejas conseguem manter uma regularidade em sua devoção e participação de estudos bíblicos, mesmo depois do nascimento dos filhos, tarefa na qual algumas mulheres estão lutando e falhando continuamente. É o que Nora Shank chama no livro Mulher, cristã e bem-sucedida de “trabalho de um equilibrista”: em muitas realidades, a renda das mulheres faz total diferença na vida familiar, e elas tentam conciliar a profissão com casamento e filhos, todos papéis que exigem tempo integral de dedicação. Não é de assustar que alguma coisa nessa grande pilha se desequilibre. E é aqui que precisamos do total engajamento dos homens.

Não é alarmante para você, esposo, que um dos pilares da casa esteja fraco, manco? Você não se preocupa que a sua esposa pode estar dedicando-se a apresentar Cristo aos seus filhos e permanecendo subnutrida? Queremos mais mulheres na teologia, mas também temos que ajudá-las a praticar a teologia do descanso. Uma boa mãe e esposa, é uma boa teóloga. É por causa de uma boa teologia que servimos bem, que ensinamos bem nossos filhos, que cuidamos da família, e desempenhamos qualquer outro papel a qual apraz a Deus nos entregar. É por causa da boa teologia que crescemos como cristãs.

O QUE ESTAMOS COMUNICANDO

Imagine uma moça cristã solteira que está empolgada com seus estudos em teologia, mas comprando a imagem da mãe cansada. Entendo porque as pessoas acharam que eu sumiria dos grupos de estudos depois que casei, já que estamos continuamente vendendo a imagem de como o casamento é cansativo e anti-intelectual para a mulher. Do outro lado, temos o feminismo dizendo a essas mulheres que devem investir em si mesmas, em suas carreiras, se desenvolver integralmente como quiserem sem precisar se resumir aos papéis de esposa e mãe.

Não adianta levantarmos bandeira contra o discurso feminista se estamos sendo preguiçosos em trazer soluções para o problema estrutural familiar ao qual enfrentamos. Não é isso, irmãos. Essa não é a imagem da família, do casamento de Cristo e Sua Igreja. Se nós cristãos amamos a família, queremos que o mundo veja, de fato, beleza naquilo que Deus fez: uma família unida, que ama os filhos como bênçãos dadas pelo Senhor. E é também por causa deles que paramos e descansamos. É porque os amamos que estudamos e buscamos a Deus. Nós queremos que as pessoas saibam que, independente das dificuldades, cuidar da família a qual Deus nos deu é um prazer, e uma tarefa que só pode ser recompensada pelo próprio Criador. É um investimento eterno.

HÁ ESPERANÇA

Mães, não quero desmerecer seus esforços de criar seus filhos e tentar manter uma vida saudável com Deus. Não, eu estou aqui mostrando que esse não é um problema que vocês devem resolver sozinhas. Se vocês de fato estão exaustas, precisamos pensar juntos em como ajudá-las:

  • Nancy Pearcey afirma brilhantemente no livro Verdade Absoluta que “não é possível falar da mudança de papéis das mulheres, sem falar na mudança nos papéis dos homens”. Ela nos mostra como, antes da Revolução Industrial, a família se organizava como um núcleo produtivo. É isso que precisamos resgatar: a família como uma unidade orgânica, em que todos contribuem para seu crescimento; inclusive, é neste aspecto que a quantidade de filhos era vista como mão de obra para o empreendimento familiar, e não como a visão mundana de gasto que temos hoje. A família era uma exímia gerenciadora.
  • A cada dia, sei que as exigências do que é ser um bom pai ou mãe parecem acrescentar mais linhas de “habilidades requeridas” no currículo dos pais. Não deixe que o medo de fracassar os impeça de descansar seus esforços em Deus e confiar que ele dará o crescimento no coração de seus filhos;
  • Esposos, ajudem suas esposas a programar os períodos de descansos dela, e vivam a vida comum do lar (1Pe 3.7). Durante as mudanças de etapas da vida, nós queremos realmente saber que até mesmo a fase de adaptação é apenas isso, UMA FASE, e não uma jornada solitária e interminável de cansaço físico e mental;
  • Mulheres, vamos nos apoiar em crescimento e contar com a família, inclusive a família de Deus. Às vezes, a jovem esposa ou a nova mãe só precisam de suporte para saber que não estão sozinhas. Lembro como foi bom para mim estar com outras mulheres, mesmo na correria da nova adaptação, aprendendo e vendo que eu não era a única a passar por problemas, que eles não faziam de mim uma esposa ou cristã fracassada.

Como todo investimento, a família demanda planejamento, e claro, energias. No entanto, servir e investir no crescimento das pessoas é belo, é a missão conjunta da família e da Igreja. Não podemos deixar que por medo de sermos taxadas de adeptas de alguma ideologia política, negligenciemos cuidados e verdades bíblicas essenciais para o desenvolvimento saudável do corpo de Cristo. A família exige renúncia, mas não estamos sozinhas, exige responsabilidade, mas também muito cuidado pessoal. Tendo isso em mente, a figura da “mamãe cansada” dá lugar a um coração grato a Deus por saber que antes de esposas e mães, somos filhas amadas. É isso o que somos.

 

 

Sobre a autora:
Pamella Carneiro é Química Industrial, casada com Ramón, membro da Igreja Batista Reformada de Belém.

2 comentários sobre ““Uma palavras às mães cansadas”

  1. Quando li o título do artigo logo me interessei, ler algo de qualidade sobre o momento difícil e maravilhoso que estou vivendo. A chegada do meu menino foi o maior presente de Deus e o cansaço diário de amamentar, cuidar tem me afastado cada vez mais Dele, isso pq cada minuto q eu consigo fazer ele dormir eu só penso em dormir tb e qdo ele está acordado minha mente está tão cansada q mal consigo pensar em algo q não seja dormir. Sei q é uma fase e q isso não é desculpa para não orar e ler a palavra.
    Excelente artigo, obrigada pelas palavras de encorajamento.

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