Deixe o celular no arroz

Deus encarnou, se revelou a nós todos na sua própria história. Ele se rebaixou a homem vulnerável, às nossas mesmas dores e sofrimentos. Sem pecado foi, porém. É certo, não há amor maior. Ele se fez um de nós, mas permaneceu Deus.
Mistério.
Mas é preciso saber uma outra coisa. Esse mesmo Deus que se revela na história e no tempo, se revela a mim, particularmente. Sim, ele fez isso na minha vida há muito tempo atrás, há uns 21 anos.

Verdade, como faz tempo…

Mas a caminhada é processo, e como ainda estamos maculados pela queda e pelo pecado, é fácil desviar do Caminho. Pois bem, o trajeto possui terras planas, vales e morros altos demais. Às vezes, há árvores frondosas e tempo fresco, mas há terra seca também. Há companhia e há vias solitárias demais, nas quais se ouve muito pouco além dos próprios suspiros, ansiando dias amenos e terras melhores.

Nessa estrada, é fácil desviar…é muito fácil se perder do caminho que importa, até mesmo fazendo muito “para Ele”. Sim, parece contraditório. E é. Ah, mas o Caminho não desaponta. E Ele nos surpreende. Tem épocas que parecemos nos acostumar com toda a história da salvação. Sim, já sabemos de cor. Estamos semanalmente na santa Igreja, comungamos com os irmãos, celebramos a Ceia do Senhor. Até mesmo servimos no Corpo. Mas parece que nos acostumamos com a melhor coisa que poderia acontecer a nós mesmos. Acostumamos por uma série de razões e distrações.

Mas Ele marca (re)encontros conosco. Novamente, e mais uma vez. É engraçado e constrangedor. Será que já não sabemos quão boas são as novas?! Sim, mas ela parece ficar empoeirada e ofuscada pelos cuidados dessa vida.

Ontem, mais uma vez, e de um modo curioso, Ele marcou um novo encontro comigo. Ele é criativo.

Arrumando a casa, e com o celular na cintura, fui abaixar e ele caiu no balde cheio de água e sabão. Peguei rápido e tentei secar, testei as funções, e parece que danificou algo no áudio. Já era quase hora de me arrumar para ir ao culto.
Desliguei e coloquei no arroz.
Claro, me culpei pela imprudência e por não ter previsto a situação. Me chateei. Torci para não ter prejuízo maior. Deixei no arroz.

No culto, o sermão foi sobre as disciplinas espirituais e sobre oração,  especificamente. Queria logo chegar em casa para me ajoelhar, pedir perdão por andar correndo tanto, e parando tão pouco para o que mais importa, gastar tempo com aquele que sustenta o universo pelo poder da sua palavra. Cheguei. Orei. Dormi, acordei. O celular está no arroz. Ali ficará.

Peguei a bíblia, meu livro devocional.
Orei, li, meditei, arrependi. Agradeci. Parei.
Ouvi a brisa, o canto dos pássaros. Ouvi o silêncio. Silenciei tudo.
Ah, que momento…aquietar a alma é necessário. Fazer calar outras vozes e preocupações.
Ele, então, veio. Me falou ao coração revelando, lembrando, falando baixo e doce, como de costume. É que Ele é gentil, doce. Sim, meu coração foi preparado para este momento. Ele mesmo marcou este encontro deste dia de relembrar.

Relembrar minha história, de quando, há pelo menos 15 anos atrás, nas manhãs de domingo, íamos em família para a Escola Bíblica, voltávamos, eu ajudava mamãe com o almoço, que era farto e de mesa cheia. Além da família, sempre havia pelo menos alguns seminaristas que almoçavam lá em casa, pois muitos eram de fora de Minas e mamãe sempre gostou de casa cheia e de servir. Pra ela, elogiar sua refeição significava repetir ao menos mais uma vez. Mesa farta, com coxas de frango e muita risada, alegria, compartilhamento. Aquelas tardes eram tão boas. Me lembrei que naquela época não tinha celular lá em casa. Nem redes sociais. Mas havia muito mais compartilhamento que hoje… Essa lembrança foi de muita reflexão, alegria e gratidão.

Deus marcou encontro comigo há mais de vinte anos.
Mas Ele não deu corda no relógio e deixou as coisas por si mesmas. Ele se revela progressivamente. Ele, hoje, mais uma vez marcou um tempo comigo.
Deixei meu celular no arroz.
Calei.
Ouvi sua palavra.
Meditei.
Ouvi o quanto Ele fala e o quanto eu tenho, tantas vezes, corrido e deixado de lado o tempo mais precioso.
Ele é doce e misericordioso, gracioso mesmo.

E hoje, e mais uma vez, me fez retornar. As roupas para lavar estão sempre aqui. As conversas com outros estão por aqui. A urgência das tarefas da vida sempre estão por aqui. E sempre estarão. Porém, uma coisa só importa.
Marta, Marta…hoje sou Maria. Quero ser mais Maria. Quero mais e mais vezes me calar é silenciar tudo. Há tanto para aprender e ouvir. E Ele fala. Graças a Deus que nos faz retornar e ajustar nossa rota de tempos em tempos, para seu próprio Caminho.

Graças a Deus pelos encontros que Ele marca conosco. É tão fácil nos perdermos… Graças ao Deus que toma iniciativa.

E que deixa o celular no arroz.

Ele ainda está lá.

 

 

Sobre a autora

Letícia Silva de Oliveira, peregrina em uma terra distante, mas voltando para o lar. Uma miserável pecadora alcançada pela graça. Mineira de Belo Horizonte. Tem 29 anos, é solteira. Membro da Igreja Batista da Lagoinha Mineirão. Formada em direito, trabalha na área técnica de um escritório de advocacia na capital de Minas Gerais.

 

2 comentários sobre “Deixe o celular no arroz

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