Deus não explica tudo e isso é muito bom

Eu já li o livro de Jó algumas vezes. Gosto do estilo poético e da forma como a história nos é apresentada na Bíblia. Um homem reto, íntegro, justo e que se desviava do mal (Jó 1.1,8). O mais interessante é que essa descrição foi atribuída a ele pelo próprio Deus. O Senhor de todas as coisas apresenta um de seus filhos com uma das mais belas qualificações que um servo seu obtém em toda a Escritura. Entretanto, apesar de muito bom, aquele homem é acometido por uma série de acontecimentos trágicos que açoitam a sua vida. Jó perde tudo o que tinha. Seus bens se esvaem, seus filhos morrem, sua esposa encontra dificuldades em dar o suporte que ele precisava, sua saúde é intensamente debilitada. Todas as coisas que lhe davam certa segurança debaixo do sol lhe foram retiradas. O caos estava instaurado. Quanto sofrimento! Quanta improbabilidade! Perder tudo o que se tem de maneira repentina deve ser desesperador.

Digo “deve ser” porque nunca passei por isso. Já perdi coisas que amava, mas nunca tudo de uma só vez. Deve ser mesmo desesperador. O cenário pode parecer um pouco mais perturbador quando nos damos conta do que causara o sofrimento de Jó: uma conversa no céu entre Deus e Satanás. Depois de um de seus passeios pela Terra, Satanás apresenta-se diante de Deus e é interpelado por Ele: “Observastes meu servo Jó?” (1.8) Curioso perceber a forma como Deus lida com a questão. Satanás não estava preparado para atacar Jó, mas é instigado pelo próprio Deus a atentar-se para ele.

Você já ficou confusa com isso? Eu já. Como assim Deus tem um servo muito bom e permite que o Diabo se volte contra ele? Qual o sentido disso? Jó também tenta entender o que estava acontecendo. Praticamente toda a narrativa do livro é construída em torno da busca dele e de seus “amigos” em entender o motivo de Deus estar infligindo tanto sofrimento a um servo tão fiel. Jó alega inocência enquanto seus amigos o acusam. Ao final, quem está com a razão?

“Onde estavas tu?”

Depois de muitas palavras ditas, A Palavra evoca a sua autoridade e dá início a um dos mais belos discursos das Escrituras. Deus, que havia sido alvo de inúmeros questionamentos e opiniões a respeito de seu caráter, convida Jó a testar sua sabedoria.

“Depois disto, o Senhor, do meio de um redemoinho, respondeu a Jó: Quem é este que escurece os meus desígnios com palavras sem conhecimento? Cinge, pois, os lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber. Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dizemo, se tens entendimento.” Jó 38.1-4 (grifo meu)

Qual seria a sua resposta se Deus lhe fizesse essa mesma pergunta? Eu ficaria em silêncio. Jó também ficou (40.3-5). Apesar de parecer um discurso que não ofereceria a Jó o que ele queria, o Senhor estava disponibilizando a única coisa que poderia salvar Jó do desespero; Deus o estava convidando a olhar para cima, para além das suas circunstâncias desesperadoras.

No fim do livro de Jó, o Senhor apresenta a Si mesmo como eternamente soberano. E essa é, de fato, a melhor resposta que Ele poderia dar. No meio de toda a crise que Jó estava enfrentando, Deus não se esforça em explicar Seus motivos, mas abre os olhos de seu servo para enxergar Sua grandeza e soberania. São vários versículos em que Deus lembra Jó de quem é. Podemos listar algumas características divinas que ficam bem evidentes:

  • Eterno e Criador de todas as coisas (38.4)
  • Provedor (38.39-41)
  • Todo -Poderoso (40.2)
  • Soberano (41.11)
  • Sábio (38.2)

Ainda há muitos outros aspectos vívidos do caráter de Deus nesse trecho do livro de Jó, mas por mais listas que pudéssemos fazer, nenhuma delas seria suficiente para encerrar um tratado sobre a Sua pessoa. Como diz Eliú no capítulo 36, “Deus é tão grande que não podemos compreender;” (v.26). Não significa que não podemos conhecer a Deus, mas que Ele é muito maior do que a nossa limitada compreensão.

Essa revelação que Deus faz acerca de si mesmo para Jó o livra de uma vez por todas de seus questionamentos. Mas, você já reparou que Deus não se explica? Ele não diz a Jó o motivo de sua aflição. Ele não conta a Jó, como nos contou pelas Escrituras, que num belo dia teve uma conversa com Satanás e permitiu que este o afligisse. Ele não se explica, mas Jó entende.

Jó entende o seu tamanho. Entende que ele era pequeno demais. Frágil demais. Incapaz demais. Entende que ele não era ninguém para ficar questionando Deus sobre suas ações. Entende que, por mais íntegro que fosse – e, de fato, ele era – isso não poderia livrá-lo da vontade soberana de Deus e de eventuais tragédias. Entende que Deus não cabe na caixinha de definições que ele tinha criado na cabeça. Jó vislumbra o tamanho de Deus. Percebe que Ele é muito maior e melhor que qualquer outra coisa. Entende que Sua grandeza não pode ser comparada a nenhuma outra coisa existente, pois foi Ele mesmo quem criou as maiores coisas. Entende que antes, apesar de toda a sua retidão, ele conhecia Deus apenas de ouvir falar, mas agora conhecia de com Ele andar.

O sofrimento forjou Jó. O sofrimento aproximou Jó de Deus. O sofrimento desviou os olhos de Jó das coisas inúteis. O sofrimento deu a Jó a oportunidade indelével de conhecer a Deus de maneira mais profunda e transformadora. O sofrimento pintou com cores vivas para Jó a personalidade de Deus. “O sofrimento foi bom para mim, pois me ensinou a dar atenção a teus decretos.” (Sl 119.71)

Ainda que Deus não tenha explicado tudo, Deus explicou o que importava. “Jó, eu sou Deus. Eu sou eternamente soberano. Eu sei exatamente do que você precisa e arquiteto a história para que você aprenda sobre mim e desvie seu olhar das coisas inúteis. Você sofreu, mas você vai sair desse furacão me conhecendo melhor.” Jó entendeu. “Então, respondeu Jó ao Senhor: Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia. Escuta-me, pois, havias dito, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás. Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.” (Jó 42.1-6)

E quanto a você? Você tem entendido o que Deus faz na sua vida por meio dos sofrimentos que você enfrenta? Você tem se perguntado o que Deus está fazendo/fez no meio do seu furacão? Deus ficou maior para você? Lhe convido a pensar sobre isso. A refletir sobre quem Deus é e sobre quem você é. Minha oração é que, no fim do seu furacão, você encontre Deus maior. E que, mesmo que a vida não traga explicações, Ele cresça e você diminua.

 

Sobre a autora
Lycia Lima Cavalcanti Guerra Soares tem 25 anos e é casada com Thiago Soares há 8 anos. É formada em direito, mas não exerce a profissão. Ela e o esposo são missionários da Organização Palavra da Vida Nordeste e Thiago é pastor auxiliar na Igreja Batista Central de Tracunhaém, interior de Pernambuco. Nada a define melhor do que ser uma pecadora miserável arrebatadoramente alcançada pela graça de Deus.

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