Por homens mais virtuosos e menos performáticos

“Quando o pai lava as fraldas e faz outra tarefa simples para o filho, e alguém o ridiculariza dizendo que é um tolo efeminado, ele não deve se esquecer que Deus com todos os seus anjos e criaturas está sorrindo”. (1)

Gosto dessa citação de Martinho Lutero, que resgata muito o valor de tarefas comuns da vida familiar, mas que são recheadas de espiritualidade e princípios pedagógicos divinos, como o trocar de fraldas de uma criança. Triste é saber que, o que antes fazia parte do universo masculino, agora é negligenciado em nome de uma masculinidade orgulhosa, competitiva, refém do trabalho e do dinheiro, violenta e violentadora, no qual o homem não participa de quase nada das tarefas diárias, e acha isso super natural, sendo que deveria ser uma tarefa comum a todos.

Mais tosco e ignorante ainda é o homem achar que seu papel se cumpre fora de casa. Ser pai não era uma tarefa que se cumpria fora, como alguns acreditam nos dias de hoje, na qual homem e pai de verdade é o cara que sai de casa, trabalha o dia todo mas bota comida na mesa, paga as contas , e viaja com a família para Disney uma vez por ano. Isso é mais um reforço do imaginário social pagão, que sustenta a mística masculina machista, do que princípios bíblicos de masculinidade!

Há uma imagem realmente distorcida do que é o homem, atrelada à virilidade agressiva, abusiva e subserviência feminina. Homens, enquanto nós continuarmos a achar que a masculinidade consiste na performance sexual, ou na capacidade de ser rude, forte e provedor, continuaremos a improvisar aquilo que Deus planejou para o casamento. Enquanto continuarmos a pensar em nossa identidade por meio de categorias seculares, pautados pelos ritmos da cidade dos homens e não de Deus, continuaremos a agir por meio de nossa limitada e pecaminosa vontade.

Geralmente, porém, o que se propõe é uma mudança meramente estética e afetiva. Na tentativa de opor-se, há uma feminilização da figura masculina. Esse tipo de resposta também não parece suficiente, quando se compreende que tanto homem quanto mulher foram afetados pela Queda. Uma resposta ao problema da masculinidade, portanto, não será resolvido quando os homens começarem a chorar, a se abrirem, a ouvirem música clássica, gostarem de poesia ou fazerem artesanato. Tanto o homão Rodrigo Hilbert fazendo crochê, quanto o homem viril que veste azul da Damares são projetos pequenos e não tocam na raiz do problema.

O homão que se descreve hoje é mais uma caricatura de um homem afeminado sem peito, como diria Lewis, no qual a mudança se concentra mais na estética do que na raiz do problema. Como diria o amigo Rev. Pedro Dulci, essa resolução é como um arco côncavo que sai da terra, toca algumas categorias divinas, mas retorna para ele mesmo. A resposta da masculinidade deve ser como um arco convexo, que começa de cima, dos Céus, a partir da narrativa da criação de todas as coisas, dos propósitos fundantes, e toca os problemas de hoje visando a esperança e redenção futura.

Devemos pensar em uma masculinidade menos performática, e mais virtuosa. Uma das terríveis contradições se encontra justamente numa sociedade que celebra vícios e se recusa a falar de virtudes. Homens devem se preocupar mais em transformarem seus caráteres, do que se perguntarem simplesmente como devem agir ou não. Um homem prudente agirá com sabedoria com sua esposa dentro de casa; um homem temperante dificilmente se deixará levar por seus desequilíbrios emocionais, violentando sua parceira e outros ao redor.

A coisa mais extraordinário do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns.
G.K Chesterton

Homens fortes não são os mais másculos, antes são os que assumem a carga e a responsabilidade de seus pequenos atos diários. Homens que cultivem dentro de si a fortaleza e não cederam às pressões financeiras, ou às demandas do mercado facilmente. Homens fortes não são os que se ausentam do lar para serem os homens de sucesso, antes, são os que cuidam dos filhos, arrumam casa, limpam fraldas, enfim, homens fortes são fortes nas tarefas mais básicas. São fortes o suficiente para priorizarem e pautarem sua quantidade/qualidade de tempo a partir da sua família!

Ser alguém forte é ser alguém constante, algo tão negligenciado em nossos dias. Muitos maridos se separam por não serem constantes, muitos homens desejam outras mulheres, por não seres constantes em seus desejos, muitos homens fracassam porque não são constantes na fé. Ser homem é assumir essa árdua e a difícil tarefa, pois meninos não conhecem a palavra sacrifício, antes a trocam pelo desejo e satisfação própria. Meninos não assumem responsabilidades maiores que suas cervejas, cigarros e baladas; narcisos não morrem por outro a não ser por si mesmos. A tarefa de nos tornar homens é uma forma de Deus nos salvar de nós mesmos!

Ainda que saibamos da necessidade de se cultivar as virtudes, isso só será possível para um homem que esteja debaixo da vontade de Deus, que tenha uma vida de oração, e busque ser cheio do Espírito Santo! Nosso corpo deve ser um testemunho vivo daquilo que Cristo fez. Devemos comunicar o Evangelho da Graça a partir dos atos de fala e ações que se adequam gradualmente às nossas ações.

Santificação é uma grande reabilitação de nossas disposições corporais e mentais às suas condições normais e funcionais. Membros criados para glorificar a Deus agora se desviaram: as mesmas mãos que ofertam a Deus são as que matam, os mesmos olhos que contemplam a Deus são os que cobiçam, a mesma língua que proclama verdades é a que mente. Esse descompasso, a partir da cruz, tem possibilidade de ser reconfigurado, reabilitado. Porém, nossa reabilitação é um tratamento sem alta nessa vida, dolorido e que requer disciplina. Não é possível que você se torne aquilo que você deve ser, sem que pelo menos se disponha a tentar ser. A repetição do movimento de extensão do braço faz com que ele vá ganhando amplitude de forma gradativa. Assim é nosso corpo e assim devemos ser nós homens, entendendo qual a nossa função e missão enquanto seres humanos criados a imagem de Deus. Só me tornarei alguém justo, cultivando atos de justiça. Só me tornarei alguém paciente tendo desafios ‘homeopáticos” que me permitam testar minha paciência. Isso não tem a ver com estereótipos, antes tem a ver com princípios e disposições internas que motivarão ações externas que glorifiquem a Deus.
Que sejamos menos performáticos e mais virtuosos!

Paz e Bem.

Sobre o autor
Rev. Pedro Muniz é esposo da Lorrayne, pai da Liz, do Ian, do Teo e dono da Branca. Além de pastor na Igreja Anglicana Ancora, em Vitória (Espírito Santo), é formado em Educação Física. Também atua como professor das cadeiras de Espiritualidade, Liderança, e Bíblia do SAT (Seminário Teológico Anglicano).

 

Notas
(1) Conforme citado por Nancy Pearcey em Verdade Absoluta, p.367, editora CPAD.

4 comentários sobre “Por homens mais virtuosos e menos performáticos

  1. Muito bom o texto. Em minha percepção, no entanto, a palavra já fala ao homem viver a vida comum do lar e partindo do princípio que Deus criou o homem e este esteve único por algum tempo no jardim, era este homem que cuidaria de seu habitat, faria a comida, cuidaria do jardim, planetária etc. O próprio Jesus cozinhava, eu gostaria de comer um peixe assado pelo mestre.

    Os extremos não são opções saudáveis, um homem durão sem noção de sua função como tal ou um homem frouxo, doutrinado e acoado pelo mal feminismo. Na Europa os homens são gentlemans, passam, cozinham, cuidam dos bebês, mas as mulheres estão sofrendo porque são omissos em outras funções, mulheres sendo violentadas e os homens lavando a louça.

    Homem é responsável pela provisão, proteção e direção. Provisão não é só dinheiro, proteger é mandamento de dar a vida pela esposa e família, direção é ser cabeça, visionário em Deus.

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  2. Este é o caminho ,para solução , Muito bem colocado ,O evangelho é simples a vida é simples.
    Temos que matar nosso orgulho todos os dias e reconhecer que o amor é tudo.
    Parabéns ao autor e que a graça e a paz do senhor Jesus Cristo esteja contigo.

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  3. Que texto maravilhoso…pois meninos não conhecem a palavra sacrifício…isso é de mexer com a razão e nos fazer implorar a Deus perdão.

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  4. Homens e mulheres se educando mutuamente. Que este seja o caminho no horizonte dos temas e desafios enfrentados por homens e mulheres cristãs.

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