Religion and Science, por Bora Ozen

A razão que acredita e a fé que pensa

Aqui vai um assunto que muitas de nós não discutimos: a conexão que há entre a ciência e a fé. Sem o propósito de discorrer sobre as premissas de não falarmos sobre isso, embora sabendo que não falamos, podemos, então, começar a discussão salientando a importância de também conhecermos teologia. Uma maneira prática de fazermos isso é pensarmos sobre em que implica a ligação entre fé e ciência. Convido-a com carinho e paciência a adentrar comigo nessa reflexão que busca centralizar o conhecimento de um Deus que é integral.

Semanticamente, a ciência é definida por ser ”a reunião dos saberes organizados obtidos por observação, pesquisa ou pela demonstração de certos acontecimentos, fatos, fenômenos, sendo sistematizados por métodos ou de maneira racional: as normas da ciência”, ou, de uma maneira mais ampla e abrangente: ”o conhecimento ou saber excessivo conseguido pela prática, raciocínio ou reflexão”. A fé, por sua vez, ocupa o lugar de definição como ”crença; convicção intensa e persistente em algo”.

Para muito além das definições semânticas (também importantes de serem conhecidas), sabemos que o significado das coisas não são para nós medidos somente a partir do que ouvimos sobre, mas, sobretudo, são postulados pela reunião do que provamos através do conhecimento bíblico, das nossas experiências e discussões a respeito de determinados assuntos.

Portanto, a fé, para nós, é muito mais do que uma crença. É a certeza das coisas não vistas – mas nunca um passo no escuro (Hebreus 11.1,3). É a prática da nossa vida. E não é uma fé em si mesma, como alguém que simplesmente confia e busca um estado de auto contemplação e edificação. A fé é sólida, dentro de um fundamento verdadeiro: a existência de um Deus que é Criador, além de Pai. C.S. Lewis incita: ”Se o que você chama de ‘fé’ em Cristo não implica em dar atenção ao que Ele disse, ela não é fé de maneira alguma – nem fé e nem confiança, mas apenas a aceitação mental de alguma teoria a Seu respeito” da mesma forma que Isaías 29.13: “Este povo se aproxima de mim, com a boca e os lábios me honram, mas o seu coração está distante de mim”.

Do mesmo modo, a ciência. A entendemos no conceito restrito de que é a parte do conhecimento expressado em laboratórios e nos atributos naturais ou como as disciplinas que fizeram parte do nosso currículo estudantil. E, por isso, hoje vivemos num contexto em que alguns equívocos são estabelecidos:

1) ”Fé e ciência são inimigas, e é difícil ter fé na era da tecnologia e da supervalorização do conhecimento técnico e científico.” Extremos presentes no contexto evangélico, bem como no acadêmico;

2) Pessoas que não creem por convicção de que cristãos são alienados em sua forma de pensar, não exercendo a prática da razão e tendo suas vidas movidas, sem questionamentos, por dogmas pessoais. Falam sobre aceitar o ser humano em sua integralidade, mas negligenciam a área espiritual que determinados indivíduos consideram em suas vidas  (o anti-sobrenaturalismo);

3) Pessoas que creem e não conseguem estabelecer uma relação entre fé e ciência, outorgando que ”cada uma tem que ficar em seu lugar” e que ambas não se misturam, pois se tratam de conceitos totalmente diferentes. Falam sobre a Majestade de Deus na criação, mas demonizam conhecimento filosóficos, históricos, psicológicos, etc (o anti-intelectualismo);

Entretanto, sabe-se que fé e ciência, ainda que não sejam a mesma coisa, não se opõem, mas sim se complementam, ao mesmo tempo que não são a mesma coisa. Uma vez que cremos na graça divina, seria presunção humana limitarmos sua ação de modo a não considerar que ela age nas diferentes áreas de conhecimento existentes. Para muito além da ciência ser um dos métodos de Deus demonstrar Sua Soberania e Criação, ela também é usada como meio de relação entre uma fé que é pensante e uma razão que acredita.

Se, então, levarmos em consideração a fé que ignora o pensamento racional e os conhecimentos dispostos, aí sim a alienação será presente, pois estaremos ignorando fatos que foram disponibilizados por Deus para conhecermos mais de Seus feitos. Se, por outro lado, levarmos em consideração uma razão cega, presa num racionalismo aquém de seus limites e com efeitos colaterais positivistas, ignorando a importância e essencialidade da fé.  Estaremos, então, falando da ciência tomada como ”cientismo” – a ciência como religião. Ou seja, ela que é considerada como o estudo de parcelas da realidade é vista como ”a única fonte de realidade”.

Se tomamos como justificativa a ciência como a única fonte de busca pela verdade absoluta, também erramos, dado que a ciência, apesar de dispor de diversos critérios para que se torne mais próxima do real, tem como uma de suas características justamente ser passível de falseabilidade.  Da mesma forma, se vivemos reduzidos à falsa realidade de que o mundo é somente aquilo que vivemos e aprendemos na Igreja em que crescemos, cometemos um equívoco, visto que a imagem do mundo é uma projeção do mundo do si-mesmo – não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos. Por isso, entendendo a capacidade de estudar e conhecer como presentes de Deus, precisamos nos permitir ampliar a visão para além de nós e, assim, seremos mais capazes de enxergar para além do previsível.

Roberto Covolan, mestre em física e presidente da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência, em uma de suas entrevistas (link no final deste artigo) explica: “Muitas vezes, as pessoas do campo religioso – do campo cristão, em particular – levantam umas certas desconfianças a respeito da ciência como se existisse uma espécie de complô dos cientistas para atuar contra a fé, mas na verdade não é assim que a ciência funciona. (…) Grande parte do desenvolvimento que a ciência experimentou em seus séculos iniciais veio de pessoas do campo religioso”. As noções de que ”a ciência exclui Deus”, de que ”fé não tem evidências”, de que ”Deus é um vírus da mente” e que ”religião é uma coisa ruim” são exemplos dessas distorções acerca de visões extremistas e excludentes, e são melhores visualizadas e discutidas no artigo ”A ciência matou Deus?” de Alister McGrath (link abaixo).

Crer não toma como base a ausência de questionamento. A fé e a nossa capacidade de pensar, associados, abrem espaços a dúvidas. Crer que a fé inclui pensar abrange não enxergar lógica na crença do autogerenciamento como autoridade moral absoluta, uma vez que isso revela um individualismo autônomo – a própria constatação de que ”não existe nada maior que o ego”. Tendo-se colocado no lugar de Deus como centro do universo, o homem possui a tendência de voltar-se somente para dentro, fazendo do egoísmo ”o ponto final de integração do universo” – o que expressa a contrariedade pela ideia da existência de um Deus. Entende-se, logo, a partir de uma fé que também é racional, os discursos disfarçados através de promoções do bem-estar. E então a racionalidade, o conhecimento e a ciência se tornam meios indispensáveis à vivência real humana, pois “a fé que não provém da razão é duvidosa, e a razão que não leva à fé deve ser temida” (G. Campbell Morgan).

Assim como toda teoria tem sua prática, a fé também tem sua base racional. Porque o conhecimento, sem comprobabilidade, pode se tornar alienante. E a fé não é alienante. Fé inclui filosofias e reflexões que são práticas. Por isso não existe o termo ”cristianismo prático”, porque o cristianismo, por si só, já inclui a prerrogativa da praticidade em si (1 João 3.18). Temos base para ter fé!

John MacArthur, em seu livro ”Como estudar a Bíblia” estipula cinco pontos sobre a autenticidade do texto bíblico e, acredite ou não, a ciência é um deles. A Bíblia relata seus conteúdos numa linguagem compreensível humanamente falando e, por isso, utiliza metáforas e outros diferentes tipos de expressão (mas ela também é literal). E quando é literal, ela se compromete com a verdade. Um exemplo, em Isaías 55.10, séculos antes da descoberta do ciclo hidrológico, a passagem descreve ”a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para ele sem regarem a terra e fazerem-na brotar e florescer, para ela produzir semente para o semeador e pão para o que come”. A mesma certeza é escrita em Jó 36.27,29 e Salmos 135.7 – somente em tempos modernos a hidrologia foi entendida, contudo, no livro de Isaías já havia sido exposto que a chuva cai, rega a terra, corre para rios e riachos que vão para o mar, do mar voltam para as nuvens, as quais ficam acima da terra firme: onde a chuva volta a cair. Quão lindo é isso! O ciclo hidrológico foi descrito na bíblia muito antes de ser divulgado por alguém. Outro exemplo é sobre as órbitas fixas dos corpos celestes em Jeremias 31.35,36 e o Salmo 19. Mais, outro exemplo ainda é também dado quando lembramos o que Herbert Spencer falou sobre as categorias do universo: tempo, força, ação, espaço e matéria – entretanto, no primeiro livro da fé cristã, escrito bem antes da fala de Herbert, está enfatizado: ”No princípio (tempo), Deus (força) criou (ação) os céus (espaço) e a terra (matéria)” (Gênesis 1.1). São muitas as relações entre a fé e a ciência, que não se reduzem a estes pequenos exemplos (muito menos aos indicadores históricos, como os fósseis encontrados da arca de Noé e/ou único deserto com fósseis de peixe coincidir geograficamente com a região do dilúvio) e, por isso, é possível afirmar com segurança que toda verdade é verdade de Deus.

Um estudo da Bíblia, levando em conta seus contextos, significados originais, uma ortodoxia humilde e oração honesta para com Deus, pedindo para que a leitura seja feita com disposição verdadeira vinda do Espírito, pode sim nos fazem contemplar (muito mais que entender) um encontro com coisas incríveis sobre as ciências que revelam a fidedignidade da fé.

Em vista disso, presumir que a fé não faz total separação com a razão inclui reconhecer que a ciência não se contrapõe a Deus, apenas mostra de maneira mais ampla, larga e integral a existência Dele nas evidências organizadas por Ele mesmo. Quando alguém disser que o cristianismo representa o retrocesso da humanidade, talvez seja válido apresentar alguns nomes de cientistas cristãos, como Antony Hewish, Blaise Pascal, Johannes Kepler, John Bartram, William Herschel. Não restrito aos cientistas das faculdades exatas, explicito com apreço especial e incomparável o nome de Clive Staples Lewis: ensaísta, professor universitário, escritor, romancista, poeta, crítico literário e muito respeitado estudioso da literatura medieval e renascentista. O qual, inclusive, escreveu ”Deus não denega menos os intelectualmente preguiçosos do que qualquer outro tipo de preguiçoso. Se você está pensando em se tornar cristão, eu lhe aviso que estará embarcando em algo que vai ocupar toda a sua pessoa, inclusive seu cérebro.” E para nós, mulheres, Lewis deixa um conselho muito responsável e específico: “Não devemos ter como lema ‘seja boa, doce menina, e deixe a inteligência para quem a possui, mas sim ‘seja boa, doce menina, e não se esqueça de ser o mais inteligente que puder’.”

Alister McGrath disse que ”abraçar a fé cristã não implica cometer suicídio intelectual”. Chersterton escreveu que ”Deus fez o homem tal que ele fosse capaz de ter contato com a realidade – e que nenhum homem separe aquilo que Deus uniu”. Que bom saber que a ciência é usada por Deus para revelar Jesus (Rm 1.20), que a graça não se limita (Rm 5.20), que o caráter de Deus é infinito e que por isso não será por nós totalmente conhecido em plenitude, mas que se expressa de tantas formas diferentes ainda assim (Sl 139.6)! Jesus Cristo é um Deus Real.

Podemos dizer com alegria que “grandes são as obras do Senhor, dignas de estudo para quem as ama” Salmos 111.2.

Observação da autora, adicionada em 21 de fevereiro de 2019:
É importante salientar que este texto citou vários autores e estes autores possuem diferentes visões acerca da Criação e de outros assuntos envolvendo a fé cristã. Existem interpretações diferentes, e o fato de ter citado diferentes referências justifica tal fato – para que o texto não tenha um posicionamento pessoal fechado. Portanto, este tema necessita também de filtro e de pesquisa acerca das variadas visões dos diferentes teólogos.

 

Sobre a autora
Vitória Prioste tem 21 anos, está no último ano do curso de Psicologia. Ama tudo que envolve os temas de discipulado, aconselhamento, apologética, cosmovisão cristã, feminilidade e relações de saúde mental com espiritualidade. É membro da Igreja Presbiteriana Central de Curitiba, ama escrever e participa da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência através do grupo de estudos de Curitiba.

 

Referências:

 

 

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