Hannah More, a conservadora revolucionária

Olhar para trás é, em certa medida, também olhar para frente. Ao refletirmos sobre o passado, nosso presente ganha novas perspectivas, camadas e futuros desdobramentos. O convite feito pelos registros de grandes batalhas, pelos retratos de pessoas esquecidas e pelas páginas das biografias é esse: o toque daquilo que ontem foi para transformar aquilo que hoje é. A necessidade de registrar histórias e contar acontecimentos conecta toda a experiência humana; toda cultura e todas as épocas. Das cavernas chamadas pré-históricas, cuja existência se justifica exatamente pela presença milenar de suas histórias em tinta na pedra, aos stories de 24 horas, registrados em códigos efêmeros de rede social, os seres humanos percorrem as eras a compilar tudo aquilo que se repete, incansável e invariavelmente em vida e morte. Uma eterna relação de cotidiano e extraordinário que cativa a necessidade de pertencermos a uma história.

Então, o convite está lançado e nós o aceitamos. Vamos explorar a vida de pessoas que tocaram seus presentes e transformaram nosso futuro. As páginas de suas biografias servem para nos consolar e desafiar, pois são ao mesmo tempo mulheres falhas, mas discípulas exemplares – cotidianas e extraordinárias. Seus méritos estão não naquilo que fizeram em seus próprios nomes, mas pelo avanço do Nome que está acima de qualquer outro. A história dessas mulheres nos aponta para a Grande História, para as páginas de uma narrativa que ainda não terminou de ser escrita e cujo grande final será apenas o começo das maiores aventuras da experiência humana, o grande momento pelo qual todas essas biografias e registros aguardam ansiosamente.

Em nossa primeira viagem ao passado, embarcamos para a vida de Hannah More, uma mulher inglesa que viveu entre 1745 e 1833. Nesses 88 anos de vida, nada menos do que o reinado de quatro reis, a Revolução Americana, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial aconteceram. A grande “revolução” sonhada por Hannah, porém, aconteceria apenas algumas semanas antes de sua morte, quando a Inglaterra finalmente aboliu a escravidão de seu território.

Reynolds, Frances, c.1729-1807; Hannah More (1745-1833)
Retrato de Hannah More feito por Frances Reynolds. Crédito: Bristol Museums, Galleries & Archives.

Hannah foi a quarta de cinco filhas de Jacob e Mary More. Seu pai era diretor de uma escola, mas foi em casa que Hannah começou sua jornada de aprendizado e dedicação à educação, sendo ensinada pelos dois. De fato, seu apetite por conhecimento era tal que, quando sua mãe foi ensiná-la a ler aos três ou quatro anos de idade, Hannah já estava lendo sozinha, pois havia ouvido as aulas de leitura que a mãe dava às irmãs mais velhas.

Na época, a educação não era compulsória e entre as meninas os temas eram ainda mais limitados. Matérias como matemática e línguas clássicas eram vistas como masculinas e as moças normalmente eram restringidas a aprender artes “úteis” ou “sedutoras” como dança, pintura, bordado e francês. Hannah pôde estudar Latim, mas sua afinidade para a matemática foi logo deixada de lado para concentrar-se em temas considerados mais apropriados para a educação feminina da época. As tensões provocadas por essas restrições foram de seu interesse pelo resto da vida.

Anos mais tarde, Hannah e suas irmãs começaram a administrar uma escola para meninas em Bristol. Nesses anos, Hannah pode ver na prática as dificuldades e incoerências que ditavam a instrução das moças inglesas. “Educação frívola cria mulheres rasas. A impaciência, leviandade e inconstância das quais as mulheres têm sido muitas vezes acusadas são talvez agravadas pela pequenez e frivolidade das ambições femininas”. Para ela, as estudantes deveriam “manter exatidão crítica dos fatos, datas, numerações, descrições, em resumo, em tudo aquilo que refere-se direta ou indiretamente, próxima ou remotamente, ao grande princípio fundamental, a VERDADE”(1). Seu propósito como educadora e no avanço na educação feminina buscava, nas palavras de Karen Swallow Prior, “formar mulheres como mulheres, não torná-las como homens”(2). Para More, conforme escreveu em 1777, “não é melhor ser bem-sucedida como mulher, do que falhar como homem? Ser boas originais ao invés de más imitadoras?”(3).

Além dos temas a serem ensinados, Hannah More também inovou em seus métodos educativos. A imaginação foi sua grande aliada, e suas aulas eram repletas de histórias bíblicas, contos de fada e encenações. Ela escreveu: “Ensine como ELE ensinou, capturando todos os objetos à sua volta, eventos, circunstâncias locais, personagens peculiares, ilusões e ilustrações apropriadas, analogias justas. Convoque toda a criação, animada ou inanimada, ao seu auxílio e acostume sua jovem platéia a ‘encontrar línguas em árvores, livros nas correntes dos rios, sermões em pedras, e o bom em todas as coisas’”(4). De fato, algumas de suas primeiras obras a serem publicadas foram peças teatrais, pelas quais ela começou a ganhar popularidade, mesmo que às vezes causando certa polêmica, por exemplo com Dramas Sagrados, publicado em 1782, mas impedido de ser encenado no teatro por religiosos que diziam ser profano encenar histórias bíblicas no palco secular. A escola funcionou por 30 anos debaixo da administração das cinco irmãs, até 1789, quando elas se aposentaram e a transferiram para uma de suas pupilas, Selina Mills.

As cinco irmãs More nunca se casaram. Por volta de 1767, Hannah ficou noiva de um homem chamado William Turner. Vinte anos mais velho, Turner apoiava os talentos de Hannah e chegou a providenciar para ela uma casa com seu nome onde ela pudesse se dedicar a escrever. O tempo passou, porém, e ao longo de seis anos William remarcou o casamento três vezes. Após o terceiro adiamento, Hannah pôs um fim ao noivado (apesar da insistência de Turner em receber mais uma chance). As razões para a indecisão dele são desconhecidas, já que amigos e familiares fizeram o possível para apaziguar as fofocas de uma situação pessoal e delicada como essa. Abatida emocional e fisicamente, Hannah passou uma temporada no litoral, em Weston-super-Mare, onde conheceu o poeta James Langhorne. Algum tempo depois, este lhe propôs casamento, e apesar da recusa de Hannah, os dois permaneceram amigos pelo resto da vida.

Ao retornar para Bristol em 1773, seu ex-noivo buscou mais uma vez reatar o relacionamento, propondo-lhe novamente casarem-se em qualquer data que ela escolhesse. William também ofereceu o pagamento de uma anuidade (conforme o costume da época). Um amigo de longa data da família More, o médico James Stonehouse, interveio entre os dois em nome de Hannah. A proposta de casamento foi recusada uma última vez e Hannah passou a receber um valor anual de William Turner, que insistiu em compensá-la pelo tempo dedicado a ele em uma quantia que fosse suficiente para que ela pudesse se dedicar à vocação literária.

O amigo médico Dr. Stonehouse também foi um dos grandes aliados de Hannah em sua entrada para a elite literária de Londres. Foi ele quem apresentou o trabalho dela para o famoso ator e dramaturgo David Garrick. A partir de 1774, Hannah passou a viajar para Londres constantemente e assim o fez ao longo de 35 anos. Inicialmente, os deslumbramentos da cidade grande e sua efervescente vida social serviram de encanto para os apetites da escritora. A personalidade carismática e o talento da jovem também lhe abriram diversas portas entre proeminentes figuras da época e Hannah passou a integrar sociedades como o Blue Stocking Circle. Esse grupo de discussões literárias, com enfoque especial na educação feminina e cooperação mútua, era encabeçado por Elizabeth Montagu e abrigava tanto homens como mulheres em suas reuniões periódicas.

Anos se passaram, polêmicas também, e a cada temporada, Hannah parecia perder o interesse na agitação e excessos da alta sociedade londrina. A morte de dois de seus mentores, David Garrick e Samuel Johnson, também contribuiu para os interesses de Hannah amadurecem. Na década de 1780, a escritora relata em cartas e constantes recomendações a amigos a leitura do livro Voice of the Heart escrito por John Newton, autor do hino Amazing Grace. De fato, esse encontro transformou a vida de Hannah para sempre, já que foram o testemunho, amizade e ensino do ex-mercador de escravos convertido a pastor evangélico que levaram a escritora a dedicar sua vida e talento para a reforma da sociedade inglesa, seja por meio da educação moral como também na luta pela abolição da escravidão.

No mesmo ano em que conheceu pessoalmente Newton, Hannah também foi apresentada ao líder inglês da causa abolicionista William Wilberforce. A mútua admiração e amizade foram instantâneas e assim permaneceram pelo resto de suas vidas. O empenho e talentos de ambos se complementaram e fortaleceram na longa batalha travada pelo fim da escravidão: William, um membro do parlamento, foi responsável por manter a conexão de Hannah com a sociedade inglesa, apesar de seu crescente interesse em afastar-se dela, e a amiga poeta foi seu elo de ligação com o universo das letras.

A contribuição de Hannah More para a causa abolicionista deu-se principalmente por meio da publicação de obras, como o poema Slavery, e histórias direcionadas para as classes mais pobres. Conforme relata Karen Swallow Prior, “pode-se dizer que ela foi a mentora de algumas das campanhas mais eficientes do movimento abolicionista para a mudança da opinião pública. A literatura imaginativa, como os escritos anti-escravidão de More, e outras artes eram essenciais para o movimento porque, como já dito, o comércio de escravos era muito escondido dos olhos do povo”(5).

A sede por mudança não se limitava a apenas um tema e Hannah envolveu-se em diversas iniciativas pela reforma social da sociedade inglesa. A partir de 1789, ela e sua irmã mais nova Patty começaram a trabalhar intensamente na criação de escolas dominicais em diversas cidades. Essas escolas foram iniciativas especialmente pensadas para servir à população mais pobre, ensinando-a a ler. A empreitada, que hoje nos parece tão crucial, foi recebida com suspeitas tanto por ricos quanto por pobres. Em uma sociedade fortemente hierarquizada, a ideia de ensinar a classe trabalhadora a ler parecia perigosa demais para as rígidas estruturas sociais do século 18. De fato, os esforços das irmãs More foram duramente atacados ao longo dos anos e não apenas por questões sócio-econômicas. A igreja anglicana não era apenas uma opção religiosa, era a instituição religiosa oficial do Império Britânico. Cristãos não-conformistas, ou seja, protestantes de denominações que não fossem a anglicana, eram vistos com suspeita e preconceito, impedidos de levar à diante a maioria de suas propostas e iniciativas. De fato, muitos (e no caso de católicos, todos) tinham até mesmo seus direitos civis revogados. Hannah e sua irmã foram anglicanas por toda a vida, mas alguns de seus esforços e relações eram motivo de suspeita. De fato, uma das principais polêmicas sofridas por elas foi a acusação de práticas metodistas em uma das suas escolas: uma professora estaria fazendo orações “espontâneas” em reuniões fora do horário das aulas, o que infringia o código anglicano de orar apenas as preces contidas no Livro de Oração Comum.

A polêmica durou pelo menos três anos e provocou o fechamento da escola em questão. As dificuldades enfrentadas por Hannah nesse período a levaram a escrever em seu diário, em julho de 1803, “Minha alma está cansada de controvérsias religiosas. O cristianismo possui uma base ampla, mas cristianismo bíblico é o que eu amo… um cristianismo puro e prático, que ensina a santidade, humildade, arrependimento e a fé em Cristo; e o qual, após somar todas as graças evangélicas, declara que a maior delas é a caridade”(6).

Apesar dos desafios, as escolas dominicais das irmãs More foram realmente transformadoras e, conforme escreveu Prior, ajudaram a cultivar o nosso entendimento moderno da infância. Algumas das escolas fundadas por elas tornaram-se as primeiras escolas nacionais, a base para o sistema educacional público que atende às crianças inglesas nos dias de hoje.

Ao longo de sua vida, Hannah More contribuiu para o que foi chamado por alguns como uma revolução silenciosa. Mesmo sendo avessa ao termo, como boa anglicana e inglesa que era, a escritora, poeta e abolicionista contribui para mudanças profundas de cunho moral, social, político e religioso durante o conturbado século 18. Relegada ao esquecimento geral e alvo de críticas que a perseguem até hoje, ela foi uma mulher “com virtudes e falhas, fé e medos, visão e pontos cegos. Mas ela também foi aquela cujos dons únicos e convicções firmes transformaram primeiramente sua vida e subsequentemente seu mundo e o nosso”(7).

Em suas próprias palavras:

“A mulher que obtém seus princípios da Bíblia e seus entretenimentos de fontes intelectuais, das belezas da natureza e de ocupação e exercícios ativos não irá suspirar por espectadores. Ela não é uma pedinte clamorosa pelas esmolas extorquidas de admiração. Ela vive por seu próprio estoque. Ela possui a mais verdadeira independência. Ela não espera pela opinião do mundo para saber se está certa; nem pelo aplauso do mundo para saber se está feliz.”(8)

Notas:
(1) Essays on Various Subjects, conforme citado em Fierce Convictions: the extraordinary life of Hannah More, por Karen Swallow Prior, p. 22 (tradução livre).
(2) e (3) idem 1, p. 24.
(4) Collected Works, 10 vols., conforme citado em Fierce Convictions: the extraordinary life of Hannah More, por Karen Swallow Prior, p. 157 (tradução livre).
(5) Fierce Convictions: the extraordinary life of Hannah More, por Karen Swallow Prior, p. 133 (tradução livre).
(6) conforme citado em Fierce Convictions: the extraordinary life of Hannah More, por Karen Swallow Prior, p. 155 (tradução livre).
(7) Fierce Convictions: the extraordinary life of Hannah More, por Karen Swallow Prior, p. 253 (tradução livre).
(8) Collected Works, 10 vols., conforme citado em Fierce Convictions: the extraordinary life of Hannah More, por Karen Swallow Prior, p. 253 (tradução livre).

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