Sobre livros, girassóis e perspectiva – Parte 1

Há alguns tempo a palavra “legado” tem martelado em minha cabeça. Algumas fases da vida parecem nos fazer olhar mais para o trabalho de nossas mãos e questionar o valor de tudo o que fazemos. Esse texto (e os que seguirem) são parte dessa reflexão em forma de testemunho, com o objetivo de trazer clareza na busca por glorificar a Deus, independente da fase da vida em que estivermos. “Sobre livros, girassóis e perspectiva” conta histórias terrenas com os olhos no Céu.

Parte 1 – Sobre livros

Quando eu era mais jovem e precisava definir a faculdade a cursar, uma crise vocacional me colocou em angústias muito intensas. Sentia um amor muito grande por missões, já havia feito viagens missionárias e participava de todas as conferências que conseguia encontrar sobre o tema, seja na minha cidade ou em outro estado. Meu coração sempre se inflamava quando ouvia “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”. Eu queria participar desse trabalho tão importante e transformador que via ser feito pelos missionários. Histórias como a de Corrie ten Boom ou de Anne van der Bijl (o Irmão André, contrabandista de Deus) eram alimento para minha alma adolescente e inquieta. Ler as biografias de grandes homens e mulheres que abriram mão de tudo para se dedicar ao Reino de Deus era uma das minhas atividades favoritas.

Conforme os anos passaram, porém, a vida se revelou muito mais difícil do eu imaginava ser. Eu não estava em um campo missionário estrangeiro, mas pensava que certamente tudo o que passava poderia estar na página de um desses livros. Fui criada em uma casa totalmente dedicada ao trabalho ministerial. Morava longe da família e meus pais serviam à igreja integralmente. Eu admirava os missionários e queria fazer algo como eles, mas meu coração não estava clamando pelas almas perdidas. Eu gostaria de ter as experiências que eles tinham, poder contar as histórias que eles contavam; eu queria aventuras. Mas eu não era convertida. Minha “fome e sede de justiça” eram paixão adolescente por justiça própria e não a de Cristo.

Entre a adolescência e os primeiros anos da vida adulta, meu lar se desfez e eu me encontrei sozinha, em outro país, já na metade de um curso universitário, totalmente sem esperança. Não queria saber de Deus. Minha amargura me cegava e eu tinha raiva do Criador. Duvidava de sua existência e negava seus atributos. Blasfemava contra o que havia sido ensinado a mim toda a vida e depois negado com maus testemunhos. A igreja era fonte de rancor, falta de cuidado e hipocrisia. Deus se transformou em carrasco. E eu me sentia a vítima perfeita.

Em uma noite muito difícil, Deus quebrou meus joelhos e me levou a fazer uma oração desesperada. Havia provado do mundo, mas ela não me satisfazia. Me via sem alternativas e sem vontade de viver. Sem perspectiva e sem ter para quem ou o que voltar. Sabia que havia chegado ao meu limite. Então eu fiz o que acredito ser a minha primeira oração sincera. Muito imperfeita, mas honesta. Disse a Deus o quanto o odiava e à sua palavra. Que para mim era impossível amar alguém soberano e cruel como ele, que deixava pessoas sofrerem como vi sofrer e eu mesma sofria. Que a igreja era um lugar de hipócritas e falsos, sem amor fraternal verdadeiro e lugar para a misericórdia. E fiz um pedido. Clamei a ele que, se fosse real e se me amasse, então que me fizesse amar aquilo que odiava e me desse fé para viver. Não conseguia crer, não conseguia nem desejar crer, mas se Deus fosse quem dizia ser, poderia fazer esse milagre em meu coração. Eu não tinha outra alternativa, estava como Pedro em João 6:68.  A palavra era dura como uma pedrada, mas “para quem mais iremos? Só tu tens as palavras de vida eterna”.

Eu disse a Deus quem eu era, mas ele já me conhecia. Muito antes de fazer aquela oração, ele guiou meus passos até aquele momento. Foi necessário que eu enxergasse toda a minha incapacidade e desesperança para que pudesse realmente clamar pela graça de Cristo.  E Deus respondeu minha oração. Não apenas me deu olhos para enxergar sua existência e o sacrifício de Jesus por mim, como também me deu o coração para crer, fé para viver.

Mas o Senhor foi muito além da minha oração. A milhares de quilômetros dali, havia outro alguém orando por minha vida. Naquela mesma noite, separados pelo oceano e pelo fuso horário, o homem que se tornaria meu marido anos depois também clamava ao Senhor para me livrar do inferno e da condenação. Sem saber, orávamos os dois para que Deus me desse fé. E ele nos concedeu muito mais do que pedimos e sonhamos.

Os livros que li na adolescência ainda me emocionam hoje. Eu ainda desejo seguir os exemplos de amor e entrega daqueles missionários. Mas os planos de Deus não foram (pelo menos não até agora) para que eu me dedicasse ao campo missionário como imaginava. Meus chamados têm sido outros. A fome e sede de justiça continuam a pulsar em minha alma, porém não mais com as ideias românticas de resolver todos os problemas do mundo e sim com o senso de dever cristão de compartilhar as boas novas, esteja eu onde estiver. De compartilhar do meu pão terreno e espiritual, mesmo que seja em São Paulo e não na Índia.

A igreja também não virou o paraíso. Eu ainda luto com relacionamentos e expectativas imperfeitas. A hipocrisia não foi erradica da minha vida. Mas minha perspectiva foi reajustada e hoje eu sei que a comunhão com os irmãos não é um grupo de terapia e sim um campo de treinamento do meu caráter. Que as ordens de Cristo para “perseverar” na convívio dos irmãos existem exatamente porque é necessário insistir contra o impulso natural da minha carne de lutar contra tudo que me leva a desenvolver a mente de Cristo.

Também percebo que o primeiro legado que deixamos é para nós mesmas. Nos poucos anos da minha vida (e que não são muitos para ninguém), eu já experimentei o fruto amargo e doce das minhas escolhas. A principal pessoa a ter que viver com meu legado, por enquanto, sou eu mesma. Não vou passar uma mensagem com minha vida apenas quando morrer, apenas quando escreverem um livro sobre minha história, apenas quanto dizer “corri a corrida, guardei a fé”. Não. Eu já estou espalhando meu legado, todos os dias, quando escolho viver como Cristo viveu e nos chamou a salgar e iluminar o mundo.

Não espere a vida passar para pensar em seu legado.

Não pense que você não já tem um legado.

Não acredite que é impossível transformar o seu legado.

E, claro, não pense que sua história deve estar gravada em um livro (ou artigo de blog) para ser relevante. Seu legado é escrito principalmente no coração daqueles que vivem ao seu redor. Essa é a marca mais importante a deixar.

….a continuar….
Se você estiver se perguntar sobre o que girassóis têm a ver com tudo isso: aguarde os próximos textos :-)

 

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