A oportunidade de ser escandalosa

Não, esse texto não fala sobre modéstia.

É um tipo diferente de escândalo.

Um escândalo muito mais chocante do que decotes, transparência e altivez.

Mas ainda assim, um escândalo que enrubesce aos homens mais maduros.

Que faz as pernas tremerem e o coração bater mais rápido.

Que transforma alguns em assassinos e outros em crianças.

É o escândalo da misericórdia. Nua e crua.

Você não é tão boazinha assim…

A misericórdia é o tipo de característica que todos pensam possuir.

Vemos tragédias e situações difíceis acontecerem ao nosso redor ou na televisão e imediatamente sentimos uma espécie de empatia pelos que sofrem. É praticamente automático. A percepção geral é de que, sim, todos temos misericórdia. Afinal, quem não teria nessa ou naquela circunstância?

Acontece que a vida é um pouco mais complicada do que a maioria de nós espera. Ela nos pega de surpresa. Por mais maldade que haja no mundo, por mais exposição que tenhamos à ela, nosso espanto é sempre renovado em frente ao mal. Nossa expectativa é de que tudo corra bem, apesar de constatarmos na nossa vida e dos outros que, não, nem tudo corre bem. E isso é muito mais frequente do que (paradoxalmente e repetidas vezes) nos damos conta. Não importa quanta tragédia você veja e viva, ela sempre é chocante. Ela sempre é amarga. Ela sempre nos faz sentir mal.

Por ser inesperada, a dificuldade nos coloca em situações inusitadas e testa nossas convicções de maneiras singulares. E é exatamente nessas circunstâncias em que percebemos que, na verdade, a misericórdia é coisa rara. Raríssima. O que a maioria das pessoas sente, na verdade, é pena. Dó. Empatia. Mas misericórdia, nua e crua, essa é difícil de ver. E mais ainda, de experimentar. Ela é tão rara, que é chocante.

A misericórdia é escandalosa.

Quando presenciamos atos genuínos de misericórdia, ficamos de queixos caídos. Ela envolve a indignidade com tamanho amor, que todas as nossas concepções são provadas. Ela supera a justiça. Ela não ignora o que é justo, mas vai além da retribuição. Ela é generosa ao ponto de perdoar uma dívida sem nenhum pedido em troca.

Estamos acostumadas com esse tipo de linguagem quando falamos sobre o sacrifício de Cristo na cruz por nós. Infelizmente, não nos acostumamos com o mal, mas nos acostumamos com o fato de que Jesus se entregou por nós. Ele não nos comove diariamente. Não arde em nosso coração. É uma verdade absorvida, sim, mas também normalizada. Porém, quão escandaloso é Cristo ter salvo sua alma por meio do sacrifício na cruz?

Essa normalização também afeta a nossa disposição em exercer a misericórdia. A pena e a dó não são nada perto da misericórdia. Geralmente sentimos dó de pessoas que estão em situações ruins, mas sem “merecer” passar por elas, como crianças com doenças incuráveis. Há certas circunstâncias, porém, em que o sofrimento do outro pode nos trazer até mesmo prazer. Afinal, aquela pessoa fez por merecer. E é exatamente no merecimento que mora o escândalo.

Veja bem, a misericórdia não é fácil. Se fosse, não seria misericórdia. Ela exige exatamente TUDO de quem a oferece. Mesmo. Pois ela escandalosamente perdoa quem não fez por merecê-la, muito pelo contrário.

É com escândalo que constatamos essa realidade em passagens como a de Números 14 (por favor, leia). Um povo rebelde, extremamente infiel, ingrato e esquecido do poder de Deus se desespera e planeja apedrejar a Moisés, o líder que o conduziu em meio aos milagres pelo mar e pelo deserto.

Ao ver a revolta de Israel, o Senhor se ira ao ponto de dizer a Moisés que acabaria com todas aquelas pessoas e reconstruiria uma nova nação a partir dele. Ninguém, além do próprio Deus, teria mais motivos para querer se livrar do povo do que Moisés. Desde a saída do Egito, eles se lamentavam e arranjavam novas maneiras de desonrar ao Senhor. Poucos versículos antes deste relato, os próprios irmão e irmã de Moisés se rebelam contra ele por ciúmes. Quando lemos todo o ciclo de rebeldia do povo de Israel, é realmente escandalosa a resposta de seu líder para a proposta de Deus:

Segundo a tua grande fidelidade, perdoa a iniqüidade deste povo, assim como a tens perdoado desde que saíram do Egito até agora. Números 14.17-19

Imagine a oportunidade que o Senhor colocou para Moisés: se livrar daqueles murmuradores e ser o pai de uma grande nação. O próprio Deus fez essa sugestão! E Ele não faz nada injusto. Não haveria nada de errado em aceitar a proposta. O povo de Israel fez por merecer (essa e tantas outras vezes). Mas Moisés não escolhe o caminho da retribuição. Ele escolhe a oportunidade de ser escandaloso, e clama por perdão em nome do povo.

O escândalo não para por aí. Ele se repete várias outras vezes na história de Israel.

E na minha.

E na sua.

Por mais que você repita os mesmos erros e os mesmos pecados, Deus sempre renova as misericórdias sobre a sua vida. E te dá muito mais do que perdão, Ele oferece comunhão. Não deixe isso se tornar padrão no seu coração, não deixe que se normalize.

Não confunda a pena que você sente com a misericórdia que você é chamada a oferecer. Não deixe o escândalo do mal superar o escândalo do perdão.

Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: “Minha é a vingança; eu retribuirei”, diz o Senhor. Pelo contrário: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele”. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem. Romanos 12.19-21

E quando chegar a oportunidade de você ser escandalosa, o que você vai fazer?

E você, o que acha?

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