Quando o parto não acontece como planejado: onde está Deus em uma história de parto difícil?

Foram necessários 14 meses e uma segunda gravidez para que eu admitisse ter tido um parto traumático. Quase um ano e meio depois, eu finalmente percebi o que pairava sobre meu ombro como uma nuvem negra, uma névoa que me envolvia desde o nascimento do meu primeiro filho. Eu estava deitada de costas durante minha consulta das doze semanas, o papel enrugando embaixo de mim e a parteira pressionando meu abdômen, quando ela me perguntou com indiferença sobre quais preocupações eu tinha para esta gravidez.

Gravidez? Nenhuma. Eu não tinha preocupações, perguntas, nada para compartilhar sobre gravidez.
Porém, discreta e timidamente, eu disse, “Mas estou um pouco apreensiva com o parto”. Eu não queria que ela pensasse que era um problema; que ela ou meu marido, que também estava na sala, pensassem que eu estava muito assustada. Eu estava pensando sobre trabalho de parto e parto desde o momento em que engravidei pela segunda vez, mas nunca tinha admitido que estava ansiosa por este motivo. Eu acho que queria apenas testar como me sentiria ao dizer aquelas palavras em voz alta. “Ok, pelo que você está apreensiva então? “ minha parteira perguntou.

Como se as comportas de uma barragem fossem abertas, as lágrimas rolaram mais rapidamente do que eu poderia detê-las. Até aquele momento, eu nem sabia de onde elas vinham ou que elas existiam. De repente, conforme eu admitia tudo para minha parteira, eu mal podia respirar, descrevendo para ela os flashbacks, a dor, o medo, a vergonha. Eu tinha escondido todas essas coisas nas profundezas do meu coração, com o sentimento de que não tinha permissão para admiti-las. Afinal, eu tinha um menino saudável em casa: no fim das contas tudo acabou bem! Eu nem ao menos tinha uma história assustadora – não tinha um momento dramático, nenhuma experiência de quase-morte, nem mesmo uma mínima emergência.

Mas naquele dia, eu contei tudo a ela. Contei o quão sozinha e impotente eu me senti durante o parto. O quão assustada eu estava. Eu contei a ela sobre a minha raiva do médico anestesista e da enfermeira anestesista. Como eu vinha nutrindo amargura e culpa contra eles por não terem me ouvido, por me dizerem (em outras palavras) que eu estava louca e delirante. Eu disse a ela o quanto eu estava desapontada com ela por não estar presente no meu parto e por não ter ninguém para me defender, ninguém para explicar para mim o que realmente estava acontecendo e o porquê de meu filho estar “preso”. Eu disse a ela como estava envergonhada de como me senti quando conheci meu filho e não passei nem perto de sentir alegria, somente raiva, ceticismo e alívio, pois aquilo finalmente tinha chegado ao fim. Eu admiti como me sentia menos mulher porque eu não tinha “conseguido sozinha”, e menos mãe, pois ao conhecer meu filho eu não esqueci nem um pouco da dor, como muitas outras mãe me disseram que seria.

Eu admiti que me sentia envergonhada de todos aqueles sentimentos, pois quando eu comparava o meu parto com a história de outras mulheres, o meu parecia fácil. Eu não queria parecer chorona e reclamona, então eu mantinha estes pensamentos escondidos, repetindo para mim mesma que eu estava sendo dramática, que talvez eu realmente era aquilo que a enfermeira anestesista tinha dito: louca. Mas eu não conseguia deixar de me perguntar, “Tinha que ser daquele jeito? Nós fizemos as escolhas certas? Poderia haver um jeito mais fácil? Àquela altura, a parteira segurava uma caixa de lenços em uma mão e a minha mão na outra. Ela olhou para mim e me disse o que eu esperava ouvir há tanto tempo: “Querida, você não é louca.”

Então, ela me entregou um lenço e falou: “Você teve um parto traumático.”

Acredito que nossos medos mais profundos são enfrentados quando passamos por um trauma. Nos momentos entre o começo das contrações e o momento de finalmente conhecer meu filho, eu cheguei o mais perto da minha mortalidade do que eu já estive.

Partos traumáticos colocam a fragilidade da nossa existência bem à nossa frente.

Como mulheres, pode existir um desejo natural de esconder nossos traumas. Especialmente quando sabemos nos dias após o parto – ao contarmos nossa história para alguém que nos trouxe uma panela de comida – que ninguém pensará que nossa história de parto tem algo especialmente notável. Nós tendemos a passar por cima das nossas emoções, fazendo piadas sobre nossa dor ou até mesmo nem a mencionamos.

Nós sabemos que alguém tem uma história mais difícil, então, como podemos dizer que a nossa história é difícil? A história de outra pessoa é mais triste, mais estranha, mais perigosa, mais desafiadora, como podemos comparar?
Mas as emoções decorrentes de um parto traumático: vergonha, inadequação, comparação, culpar a outro, culpar a si mesma, raiva –são reais e existem, não importa em qual escala as colocarmos. Essas são as coisas que habitam na escuridão, e ainda assim Deus nos chama a trazer todas as coisas à luz. O pecado ama a escuridão mas são nos lugares mais sombrios das nossas histórias que a luz brilha mais intensamente.

A verdade é que nós vivemos em um mundo caído. Nossa cultura nos diz para adorarmos o corpo feminino, que ele foi feito para dar a luz, e que isto deveria ser a coisa mais natural do mundo. Mas a maldição que recaiu sobre Eva e a gravidez é uma realidade com a qual toda mulher convive. Não é mais algo natural, é antinatural, embalado com imperfeições e salpicado de pecado. Todos os livros atuais sobre parto natural podem nos dizer que nós mulheres somos “guerreiras e, com a mente no foco certo, dar a luz pode ser uma experiência maravilhosa e indolor.”
E ao mesmo tempo em que não duvido que algumas histórias de parto natural cheios de alegria são verdadeiras (porque servimos um Deus que é generoso com sua graça, mesmo em um mundo pecaminoso), para a maioria de nós, nosso parto deixa a desejar de alguma forma.

Mas há esperança.
Maria carregou Cristo por nove meses, entrando em trabalho de parto, gemendo, e finalmente dando à luz ao redentor em uma estrebaria. A esperança chegou até nós pelo mesmo processo com o qual lutamos, o mesmo processo que Deus amaldiçoou. Ela não estava em uma “casa de partos”, não tinha uma banheira de hidromassagem, nem aromaterapia, e eu duvido que José sabia o que era contrapressão. Mas foi através de um parto que Deus nos enviou nosso redentor, que viria a suportar a maldição na cruz, removendo toda nossa vergonha, sofrimento e trauma, substituindo-os por esperança, paz e graça.

Deus usou a maldição para quebrar a maldição.

E é aqui que trabalhamos para superar um parto difícil ou traumático. Primeiro nós colocamos nosso sofrimento no seu devido lugar: relembrando que partos imperfeitos são uma realidade da queda, trazendo com ela equipes imperfeitas, decisões, medicações e apoio. Mas são essas as coisas que Deus usa para nos atrair para Ele.
O nosso gemido externo no trabalho de parto aponta para o gemido interno da criação para a volta do verdadeiro Rei. Conforme ansiamos pela redenção das dores de parto, nossos corações anseiam pela verdadeira redenção que virá com o retorno do nosso Salvador.

E é através destas lentes que conseguimos processar uma história de parto difícil ou traumática:

    • • Dê-se um tempo para chorar e lamentar sua experiência. A cura acontece quando trazemos as coisas à luz. Assimile seus sentimentos com seu marido, uma amiga que você possa confiar, talvez até mesmo um profissional. Por conselho da minha parteira, eu acabei escrevendo até uma carta para o meu hospital para me ajudar a superar.
    • • Relembre-se de que Deus é soberano sobre tudo o que aconteceu no seu parto. Todas as coisas são criadas e feitas para glorifica-lo. Mesmo que não aconteça de acordo com os seus planos, Deus continua sendo bom. Você o ama mais do que o seu plano perfeito?
    • • Ache a graça. A graça de Deus está em todo lugar! Partos imperfeitos são parte da queda, mas Deus ainda nos concede graça em muitas áreas em que não merecemos. Médicos, doulas, monitoração, medicações, ar condicionado, camas confortáveis, banheiras, o fato de que nosso marido poder estar ao nosso lado durante o parto – as graças são infinitas quando você começa a refletir sobre elas.
    • • Perdoe sua equipe pelas áreas em que falharam com você. Liberte a amargura e a raiva aos pés da cruz. Porque você foi perdoado, você pode perdoar aqueles que falharam com você.
    • • Lembre-se da sua verdadeira identidade. Nossa cultura nos diz que somos “deusas”, mas isto é adorar a criatura ao invés do criador. Quando nos sentimos envergonhadas por que “não fomos capazes” ou não fomos “mulheres o suficiente”, devemos lembrar que não somos capazes de nada sozinhas. Deus é o doador da vida, e é o sacrifício perfeito de Cristo na cruz que faz a ponte do abismo entre o nosso corpo e a habilidade de gerarmos vida.
    • • Veja seu parto como uma forma de apontar outros para Cristo. Na sua fraqueza, Ele é forte. Encontre formas de destacar sua bondade no seu parto. Lembre-se de que um parto difícil não é sua história final, mas apenas uma sombra da sua verdadeira vida futura. O parto e sua dor, imperfeições, e desconhecidos são coisas que em ultima instância nos apontam para nossa necessidade de um Salvados que um dia virá e nos libertará;

Para mim, o processo da cura veio lentamente, pois eu tinha enterrado meu trauma o mais profundo que pude. Mas, uma vez descoberto, eu me surpreendi ao perceber como Deus transformou algo feio, assustador e horrível em algo repleto de significado, graça e amor, me apontando para redenção e gratidão por tudo que Cristo fez.

Sobre a autora:
Laura Wifler é cofundadora do Risen Motherhood  um ministério que existe para trazer a esperança do Evangelho para o cotidiano das mães. Ela e seu marido Mike moram no estado de Iowa, nos EUA, com seus três filhos pequenos.
Link do post original: acesse.
Traduzido com permissão por: Maíra Saad Corradi
Revisão: Cecilia J. D. Reggiani

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