As mulheres da Reforma Protestante

Conversas sobre a Reforma Protestante costumam focar nos homens: pregadores, teólogos e mártires (masculinos). O trabalho deles foi formativo e essencial, mas a Reforma também é um período rico em exemplos de serviço feminino.

O trabalho da mulher era essencialmente em três categorias: servindo no lar, promovendo a Reforma e criando a próxima geração de protestantes; servindo em posições de poder que defendiam ou promoviam a liberdade protestante; e servindo por meio da escrita e de publicações que promoviam o pensamento protestante.

Lares da Reforma

As esposas dos antigos reformadores destacavam-se em usarem seus lares como bases para o ministério. As casas não eram meramente locais onde os maridos podiam descansar e a família ter comunhão, eram também postos para o trabalho e testemunho cristão. Eram lugares em que as crianças recebiam educação e treinamento para servir ao evangelho. Em suas casas e despensas, os viajantes podiam reabastecer-se para suas jornadas e os famintos serem alimentados. Lares cristãos eram as raízes da Reforma e a fortificaram continuamente.

“Kattarina Lutterin”, de Lucas Cranach, o Velho (1526).

É bem provável que Catarina Lutero (1499-1552) tenha o direito ao topo da lista de donas de casa. A grande fama de seu marido e a atenção e cuidados que ele lhe demandava colocam Catarina em um lugar de destaque. Ela abriu o caminho para esposas protestantes ao transformar um antigo mosteiro em um lar. A Abadia Negra, como era conhecida, tornou-se a sede da Reforma de muitas maneiras. Lá, Martinho estudava e escrevia. À noite, Catarina oferecia comentários sobre o trabalho do marido. Martinho recepcionava estudantes; Catarina preparava refeições com alimentos que ela própria havia cultivado e depois sentava-se à mesa para participar das discussões. Crianças moravam e eram ensinadas em casa — tanto os filhos do casal quanto órfãos que eram acolhidos por eles. Na Abadia Negra, futuros pastores viam como uma família cristã funcionava. O mosteiro em ruínas transformou-se no núcleo da Reforma nas mãos de Catarina. Era como se a alegria de sua salvação não pudesse ser contida internamente e encontrasse expressões físicas e relacionais em seu lar.

Anna Bullinger (c. 1504-1564) cultivou um lar que teve efeito similar na Reforma Suíça. Com onze filhos sob seus cuidados, ela hospedava um vasto número de visitantes protestantes e refugiados – algumas vezes dezenas ao mesmo tempo. A imagem que temos desse lar é de um lugar onde Anna estava constantemente ocupada mostrando o amor de Cristo para outros cristãos. Quando não estava em casa ou na igreja, ela visitava os pobres de Zurique para oferecer comida, roupas e dinheiro, quando possível. Ela seguiu o exemplo estabelecido por Anna Zuínglio, de quem cuidou após a morte de seu marido Ulrico em batalha. A própria Anna Bullinger constituiu um exemplo que se tornou conhecido por toda a Europa, em parte por conta de sua hospitalidade, e também por meio dos escritos de seu marido sobre casamento e vida familiar.

Para uma esposa de pastor na era da Reforma, abrir sua casa e família aos necessitados era uma denúncia pública ao monasticismo. Este estilo de vida bíblico desafiou diretamente os princípios da Igreja Católica Romana sobre clero, casamento, e muito mais, além de provar que conventos e mosteiros não eram necessários: as esposas dos pastores protestantes podiam orar, ler, jardinar, cuidar dos enfermos, abrigar viajantes e promover uma atmosfera intelectual tão bem quanto monges e freiras fizeram durante séculos. Donas de casa protestantes tornaram o monasticismo obsoleto. Embora o trabalho delas nem sempre tenha sido visível, esposas protestantes atacaram os pressupostos católicos por meio do seu próprio serviço doméstico, colocando Roma na defensiva. A criação oferecida por elas aos seus filhos constituiu uma nova geração de protestantes que estavam prontos para permanecer somente nas Escrituras diante da perseguição da Igreja Católica Romana.

Autoridades da Reforma

Rainhas e princesas tiveram papeis muito públicos durante a Reforma. Um número desproporcional de mulheres da realeza foi convertido ao protestantismo; elas acreditavam muito mais prontamente do que seus familiares masculinos. Mas tampouco estavam seguindo tendências políticas da época. Protestantes de alto escalão muitas vezes tornavam-se um alvo fácil. O mesmo se aplicava para freiras de nível elevado: abadessas costumavam ser também aristocratas e criavam um escândalo quando se convertiam ao protestantismo. Enquanto as esposas dos reformadores enfrentavam uma quantidade assombrosa de trabalho nos bastidores, as rainhas e abadessas reformadas encaravam isolamento, intimidação e violência das maneiras mais públicas.

Retrato de Joana de Albert por François Clouet, 1570.

Quando seu marido alcoólatra e adúltero morreu em 1555, Joana de Albert (1528-1572) tornou-se a rainha de Navarra. Joana estava em uma posição vulnerável, encurralada entre as poderosas nações França e Espanha. Mas isso não a desacelerou ou desencorajou nem um pouco. Ela havia professado a fé reformada publicamente anos antes, e, em sua ascensão, trabalhou com sucesso ao trazer a Reforma para Navarra, tornando o país um porto seguro em meio a um mar de catolicismo romano. Seus filhos foram sequestrados, sua vida foi ameaçada, rebeliões emergiram, guerra com a França desencadeou-se — mas seu amor pela igreja era maior do que tudo isso. Ela se chamava de “uma pequena princesa” e acreditava que, como Ester, Deus a tinha colocado em tal posição para defender Seu povo. Seu trabalho proporcionou abrigo para os Huguenotes (protestantes franceses) durante as Guerras da Religião na França. Joana também foi um exemplo de fé posta à prova: sua coragem e determinação doutrinária foram discutidas internacionalmente e trouxeram conforto a outros crentes em sofrimento.

Catarina de Zimmern (1478-1547) teve uma infância difícil e eventualmente foi colocada em um convento. Ela e sua irmã foram molestadas pelos padres e voltaram para casa. Depois de algum tempo, Catarina voltou definitivamente para o convento e acabou se tornando a abadessa imperial de Zurique. Nessa posição, ela controlava uma quantidade enorme de terras, dinheiro e pessoas— Roma era extravagante e generosa em suas nomeações. Porém, assim como a cidade de Zurique, Catarina foi exposta à fé reformada e em certo momento converteu-se. Ela convidava ministros protestantes para ensinar latim às freiras e prestar cuidados espirituais. Zuínglio sabia quão poderosa era a abadessa; ela poderia ter exposto as atividades protestantes e procurado a ajuda de Roma. Mas ao invés disso, ao final de 1524, Catarina entregou a abadia e todos os seus bens para a cidade de Zurique. Tal atitude foi por convicção pessoal —pacífica, porém forte— de que Roma estava errada e deveria ser resistida. A transferência de propriedades deu à cidade uma vantagem mais do que econômica: transformou Zurique em um lugar abertamente seguro e livre para protestantes, sem os conflitos civis que tantos outros locais enfrentavam. Entretanto, colocou Catarina em uma posição muito vulnerável, como inimiga pública de Roma. Deus a protegeu e também lhe deu um marido e uma filha. Sua liderança pública não parou por aí, pois mais tarde ela trabalhou no conselho da cidade.

Catarina e Joana não eram as únicas líderes políticas e religiosas femininas que se converteram. Deus usou as famílias da realeza católica romana e os sistemas corruptos de governo eclesiástico para mostrar a futilidade de lutar contra a verdade. Os portões de Roma não prevaleciam contra os militantes igreja.

Canetas da Reforma

A terceira principal contribuição das mulheres para a Reforma foi através da escrita. Pode parecer algo moderno, porém mesmo na era medieval algumas mulheres escreviam e publicavam. Com ênfase na educação e alfabetização, a Reforma promoveu muitas autoras protestantes. Poesia religiosa era o gênero dominante entre as mulheres na era Pré-Reforma. As escritoras protestantes não descartaram essa tradição, elas a redimiram.

Retrato de Margarida de Navarra por Jean Clouet, c. 1530.

Margarida de Navarra (1492-1549) foi a primeira poeta protestante a ser publicada. Do seu inicial catolicismo romano ao seu reconhecível calvinismo, a poesia de Margarida reflete sua jornada espiritual. Além de serem registros pessoais de devoção, estes poemas eram publicidade para a doutrina reformada. Em sua última grande obra, ela enfatiza e se maravilha na obra completa e totalmente suficiente de Cristo por Seu povo. Sua publicação desafiou os ensinamentos de Roma sobre santos, indulgências, penitência e a missa. Foi uma proclamação pública da salvação por meio da graça pela fé somente.

Mulheres também escreveram obras protestantes abertamente teológicas. A primeira de que se tem conhecimento foi uma defesa do casamento eclesiástico contra o ensino católico romano sobre celibato clerical. Foi a defesa bastante pessoal feita por Catarina Zells (1497-1562) a seu padre-marido. O casal estava sob ataque por se casar, desobedecendo à lei canônica. Entretanto, Catarina salientou que, se o papa não tinha problemas em taxar prostituição entre o clero, então ele realmente não tinha nenhum argumento contra um casamento fiel. Baseando-se nas Escrituras para apoiar seus argumentos, Catarina fez de uma questão controversa parte da conversa pública construtiva, removendo muito do estigma que restava sobre os sacerdotes casados.

Posteriormente, biografias tornaram-se populares também. O relato de Charlotte de Mornay (1550-1606) sobre a vida de seu marido o tornou mais conhecido em toda a Europa. Seu exemplo de trabalho duro, fidelidade e falta de amargura em meio ao sofrimento serviu de grande encorajamento para outros crentes oprimidos. Havia muitas outras mulheres naquela era, algumas escreviam para crescimento pessoal ou recreação mas muitas publicaram suas obras pela causa da igreja reformada emergente. Suas óbvias habilidades intelectuais coincidiram com a crença protestante de que os cérebros deveriam ser usados, fossem eles masculinos ou femininos. Também deram confirmação às mães protestantes que educavam a próxima geração de mulheres reformadas de que seu trabalho não era em vão. Elas estavam fornecendo o treinamento necessário para as mulheres que iriam criar a próxima geração de mães, autoras, pregadoras e rainhas.

É fácil percorrer essas histórias de forma superficial, classificando vidas diferentes em lugares em que podemos vê-las melhor, mas a realidade é mais complexa. Algumas mulheres serviram nas três áreas; outras se destacaram em uma área. O impacto causado por elas foi tremendo, porque o Salvador que elas serviam é onipotente. Essas mulheres amaram a Jesus e o serviram porque Ele as amou. E porque Cristo ainda ama as mulheres hoje, podemos esperar que elas continuem servindo a igreja de maneiras formativas.

Sobre a autora:
Rebecca VanDoodewaard é autora e mãe. Ela escreveu dois livros, ainda sem tradução ao português (Uprooted: A Guide for Homesick Christians & Reformation Women: Sixteenth-Century Figures Who Shaped Christianity’s Rebirth). A publicação original pode ser encontrada na revista Tabletalk, pelo link.
Texto traduzido com autorização por: Ingrid S. R. Corradi
Revisão: Cecilia J.D. Reggiani

2 comentários sobre “As mulheres da Reforma Protestante

    1. Mulheres esposas mães companheiras lutadoras e sofredoras para que crescesse os seguidores do evangelho e continuasse como protestante parabéns pela informação sobre as mulheres da reforma obrigado

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