Falai de Deus: Coram Deo para uma geração Carpe Diem

Falai de Deus com a clareza
da verdade e da certeza:
com um poder
de corpo e alma que não possa
ninguém, à passagem vossa,
não O entender.
Falai de Deus brandamente,
que o mundo se pôs dolente,
tão sem leis.

Falai de Deus com doçura,
que é difícil ser criatura:
bem o sabeis.

Falai de Deus de tal modo
que por Ele o mundo todo
tenha amor
à vida e à morte, e, de vê-Lo,
O escolha como modelo superior.
Com voz, pensamentos e atos
representai tão exatos
os reinos seus
que todos vão livremente
para esse encontro excelente.

Falai de Deus.

– Cecília Meireles

É brilhante o modo como Cecília Meireles descreve o processo rico de conhecer e fazer Deus conhecido. Em suas letras cabe de tudo. Cabe a ideia de verdade, de certeza e de correspondência entre alma e corpo. Entre aquilo que se pensa e aquilo que se faz. Cabe a ideia de empatia, algo muito mais pungente do que a simples simpatia. Cabe a ideia do reconhecimento de Deus como bem supremo. E cabe também uma imagem de adesão livre diante do encontro com Ele.

Mais do que ideias, tratam-se de características bem evidentes na vida daquele que foi encontrado por Deus e que aceitou o desafio aflorado por este encontro. Tudo isso em uma abordagem simples, cativante e muito profunda. Tudo isso ao modo da autora, lançado com maestria sobre um tema caro à cristandade e tradicionalmente tratado em meio à muitas reduções e maneirismos. Sim, estamos falando do bom e velho evangelismo. Do bom e velho Falai de Deus. Mas sob outra ótica e ainda mais fundamental.

Ao invés de um monte de fórmulas de onde, como e por que evangelizar, a poetisa brasileira nos convida a dar um passo atrás e olhar para aquele que se torna o porta voz de Deus. A proposta ao leitor mais sensível parece ser o de um evangelismo Coram Deo na medida que sinaliza uma mensagem poderosa o suficiente para alcançar todas as coisas, todos os tipos de pessoas, em todos os tipos de situações, mas não sem antes atingir aquele que se coloca no lugar do Falai, aquele que se torna o porta voz da mensagem.

É Coram Deo para uma geração Carpe Diem também dentro da igreja e em sua espiritualidade diária.

E como tal perspectiva é importante! Afinal, nos parece que a fala íntegra a respeito de qualquer assunto e, muito mais de Deus, vem sempre daquele que o escrutinou e o conheceu de verdade e de certeza. E se falamos de conhecer uma pessoa, conhecer é inevitavelmente relação. Estar em dinâmica. Em atividade de sair de si, aprender do Outro e voltar a si, em um movimento de eu e tu que paulatinamente se transforma em intimidade e, com o tempo, modelação de si mesmo e do entorno.

A experiência de Deus manifesta com voz, pensamentos e atos depende então daquele que não o fez como episódio marginal em sua vida. Daquele que não o restringiu a um artefato de pura abstração ou daquele que não o tomou como simples herança cultural daquelas que recebemos da família. Como falar de algo que não se acredita, que não se conhece ou que não se vivência com as próprias entranhas?

Tem gente que consegue! Mas se sustentando por algum tempo, logo passam a soar estranho e perdem inevitavelmente a sua força. Falta vivacidade. Soa fake, principalmente no ponto sensível capaz de manifestar o amor. Porque amar a Deus, por exigência, é sempre a tradução de uma experiência de todo o coração, mente, entendimento e com todas as forças, como ensinou Jesus ao ser interrogado por escribas (Lucas 10.27). Como não poderia ser diferente, a cosmovisão cristã no diz de um amor fundamentalmente consumado pela ação e não apenas pela emoção. E é ação em todos os níveis, sobre todos os domínios e em todas as dimensões.

Por essa dinâmica naturalmente haverá a inclusão da primeira pessoa do plural. Pois este é um poderoso ciclo do qual o resultado é o desejo, a habilidade e o propósito de amar a Deus e amar aos outros como consequência daquilo que foi primeiro desejado e realizado por Deus em nós. Conhecer a Deus será descobrir que Ele busca por outros filhos e torna assim o evangelismo um caminho natural, integral, em alguns momentos desafiador, mas libertador se realizado em abertura a Deus, ao Espírito Santo e ao outro.

Então, falemos de Deus! Porque é difícil ser criatura, são urgentes os encontros e temos um Deus como o maior interessado e benfeitor desse empreendimento. No entanto, ao falar de Deus, nos lembremos que nós mesmos seremos os nossos primeiros ouvintes e tanto melhor será se houver já de nossa parte a humildade e integridade na expressão dessa experiência.

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