As armadilhas da feminilidade de faz de conta

“Feminilidade” é uma palavra complicada. Queremos usá-la para várias coisas e, no fim das contas, acabamos com um termo insuficiente para a maioria delas. Em uma breve pesquisa realizada entre as moças de minha igreja, 56% identificou “feminilidade” como um termo relacionado principalmente a aparência e comportamento, enquanto 37% relacionaram a palavra a “pertencer ao sexo feminino”. Quando acrescentamos o termo “bíblica”, a confusão está posta. “Feminilidade bíblica” se transforma em um conceito etéreo, sem muito cuidado com o que suas interpretações podem resultar e induzir. Será que “feminilidade” se resume à aparência e ao comportamento? Será que é simplesmente “pertencer ao sexo feminino” e ponto final? A reposta não é tão simples e muito menos sem polêmicas.

Feminilidade, portanto, é um termo que devemos usar com atenção.

O cuidado não é necessário apenas porque a palavra pode ser mal interpretada, mas também por que os conceitos podem se transformar em caricaturas. Reduzirmos a feminilidade a concepções estéticas e comportamentais é reproduzir uma mentalidade antibíblica que pode ser tão nociva quanto à ideologia de gênero.

Nos levantamos contra concepções procuram obscurecer ou eliminar os sexos e suas particularidades, mas praticamente não enxergamos a armadilha igualmente perigosa que se apresenta do outro lado: a check-list dos esteriótipos, a ideia ingênua e antibíblica de que é possível definir (e avaliar) uma mulher ou um homem simplesmente por características de comportamento e aparência.

De um lado, aqueles que querem banir a feminilidade, do outro, aqueles que querem idealizá-la.

A idealização (e consequente “estereotipamento”) é uma armadilha para os dois sexos e, atualmente, tem se manifestado em especial com um apego desproporcional às épocas passadas, apelidada pelo autor português Tiago Cavaco como “encenação do antigo”. Especialmente entre cristãos conservadores, uma nostalgia nada discreta se apresenta como alternativa para o que seria um “resgate” do feminino e masculino, quando “mulheres eram mulheres e homens eram homens”. O raciocínio é mais ou menos esse, conforme exemplificado pela autora Rebekah Merkle em seu livro “Eve in Exile” (“Eva em Exílio”, ainda sem publicação no Brasil):

A Bíblia tem expectativas para os papeis de gênero
Nossa cultura não tem
Culturas passadas tinham expectativas para os papeis de gênero
Logo, essas culturas passadas eram bíblicas

Em outras palavras, agora as do Tiago Cavaco em seu livro “Cuidado com o Alemão”, publicado no Brasil pela editora Vida Nova:

A encenação do antigo passa por essa moda de valorização de tudo o que é velho – das artes ao comércio, da cultura aos cortes de cabelo. Agora queremos ser tradicionais à força, na esperança de que uma barba à século 19 transfira miraculosamente para o nosso rosto aquilo que rejeitamos para os nossos cérebros (e falo por experiência própria, no que diz respeito a tentativas de barbas à século 19).

Ao se depararem com a falta de definição e o desprezo da feminilidade e da masculinidade dos nossos dias, muitos buscam recapturar aspectos de culturas que aparentemente tinham respeito pelas diferenças e papeis de gênero. Se referindo especialmente às mulheres e sem meias palavras, Rebekah Merkle explica que o argumento para esse ideia não é apenas escapista, mas também ignorante, “alimentado por pensamentos desejosos e não convicções realistas, já que a decisão por qual cultura seria digna de recapturar é baseada inteiramente nas roupas e estética geral”, normalmente retirados de livros, filmes e séries de TV.

A ideia de uma feminilidade de faz de conta é atraente para muitas e cada vez mais popular. Não há nada necessariamente errado em apreciar esses tempos, seja pelas roupas, pelos livros, pela música – ou pelas barbas. Mas é preciso rejeitar a ideia de que homens e mulheres, em alguma época após a queda, foram menos pecadores ou rebeldes contra Deus. O padrão insistente de usar mulheres desses períodos para retratar a feminilidade subentende uma admiração perigosa de que nessas épocas as “mulheres eram mais mulheres e os homens eram mais homens”.

Uma pesquisa rápida e você poderá encontrar indícios suficientes para perceber que os tempos passados, seja o século 18 e 19 ou a “década de ouro” dos anos 1950, foram tão perversos quanto os atuais:

  • “Uma em cada cinco mulheres trabalhava como prostituta em Londres no século 18. A fornicação em público era comum e até mesmo crianças eram tratadas rotineiramente para doenças venéreas. Um visitante alemão observou uma nação que havia ultrapassado todos os outros ‘na imoralidade e no vício da devassidão’.” Um retrato bem diferente do que normalmente imaginamos para a época de Jane Austen, não é mesmo? (Fonte)
  • No fim do século 19, mais de dois terços dos viciados em ópio e morfina nos EUA eram mulheres. (Fonte)
  • Entre os anos de 1940 e 1960, os EUA viveram o que ficou conhecido como a “epidemia da Anfetamina”, substância proibida hoje na maioria dos países e utilizada como estimulante psíquico, prescrito para o tratamento da depressão e até para perda de peso. Em 1955 é lançado o medicamento Milltown, que rapidamente se torna uma das drogas psicotrópicas mais populares da história. Em 1963, uma em cada cinco mulheres (23%) tomavam algum tipo de medicação psicotrópica. A música “Mother’s little helper” (algo como “ajudantezinho” da mãe) lançada pelos The Rolling Stones em 1966 é um exemplo do impacto cultural do abuso desses medicamentos. Se compararmos esses fatos com as ilustrações de donas de casa impecavelmente felizes da década de 1950 veremos que tudo não passa de marketing. (Fonte 1, 2, 3 e 4).

Alguns poucos fatos e a feminilidade de faz de conta das eras passadas já não parece mais tão idílica, não é mesmo? A verdade é que você não vai encontrar o que procura apenas trocando as peças do guarda-roupa. Não são vestidos de renda compridos, saias rodadas em uma cozinha impecável ou barbas vitorianas que vão resolver as questões da sexualidade e moral no século 21. Apenas Cristo pode fazer isso. De forma infeliz, o que essas réplicas proporcionam são uma sensação temporária de satisfação e uma ideia farisaica de piedade, produzindo exatamente o que tentam condenar.

Pouco antes de ser traído e crucificado, Jesus começa a orar por seus discípulos e pede ao Pai que “não os tire do mundo, mas que os livre do mal” (João  17.15). Durante todo o diálogo do capítulo anterior e sua oração no capítulo 17, Cristo reforça a ideia de que, apesar de não pertencermos a esse mundo, é nele que vivemos e servimos a Deus, capacitados pelo seu espírito. Em seguida, ele diz: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade”. Essa é a chave para que possamos glorificar a Deus, seja hoje ou no passado. Somos “livrados do mal” do nosso século pela santificação que provém da verdade – e não da ficção literária ou de um ideal saudosista.

Se você é uma mulher vivendo no século 21, no Brasil ou qualquer outra parte do mundo, é nessas circunstâncias que você deve glorificar a Deus. Em meio às suas condições e com as ferramentas que o Senhor te deu, você pode servi-lo de maneira bíblica e piedosa. Sem caricaturas e escravidão, sem libertinagem e rebeldia. Deus nos capacitou com criatividade, graça e misericórdia suficientes para que possamos fazer isso a cada dia.

“Feminilidade bíblica”, então, deixa de ser um conceito perigoso e se transforma em um viver que glorifica a Cristo e reflete a sua palavra. Não há nada caricatural em ser criada à imagem de Deus. Não há nada escapista em ser uma mulher que reflete de maneira singular traços espetaculares da trindade expressos de maneira especial no sexo feminino. Descobrir em si mesma essas peculiaridades, cultivá-las e celebrá-las, entregando ao serviço do Reino aquilo que Deus te concedeu, isso é feminilidade bíblica.

 

 

3 comentários sobre “As armadilhas da feminilidade de faz de conta

  1. Texto excelente! Vale para todas que buscam inspirações em épocas antigas, mas se esquecem de que podemos servir a Cristo, mesmo vivendo no século XXI. Extremamente pertinente àquelas que exaltam os modos e as roupas dos séculos anteriores, sem levar em conta o contexto histórico de libertinagem a que as pessoas também eram submetidas! Parabéns!

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